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Coloridas e perigosas: Caravelas-portuguesas são avistadas no litoral de SP

A princípio, o fotógrafo pensou que tivesse avistado balões de festa coloridos, mas ao chegar perto teve uma surpresa Imagem: Arquivo Pessoal/Rafael Mesquita

Maurício Businari

Colaboração para o UOL, em Santos

30/11/2021 13h54Atualizada em 01/12/2021 08h37

Um fotógrafo do litoral de São Paulo conseguiu registrar imagens em detalhes de uma espécie marinha que é conhecida tanto por sua beleza quanto pelo risco que oferece a humanos e outros animais: a caravela-portuguesa. Ele tirou as fotos enquanto fazia uma ronda de jet ski em busca de lixo para coletar na superfície do oceano, atividade que realiza quase diariamente.

Rafael Mesquita, de 36 anos, mora na Riviera de São Lourenço, em Bertioga, litoral Norte de São Paulo. Sempre que o clima permite, ele sai de casa pela manhã e faz rondas no mar em busca de objetos e restos de lixo que coleta em sacos reforçados que leva com ele. Sempre, é claro, acompanhado de sua máquina fotográfica e lentes especiais que ele carrega numa mochila às costas.

Detalhe de uma das caravelas-portuguesas registradas pelo fotógrafo Imagem: Arquivo Pessoal/Rafael Mesquita

Ontem pela manhã, não foi diferente. Ele saiu de casa por volta das 9h e iniciou sua ronda em busca de detritos. Por volta das 13h, avistou objetos coloridos que, a princípio, pensou serem bexigas, balões de ar de festas infantis. Algo que ele encontra comumente nas águas do mar.

As pessoas soltam os balões e eles voam por um tempo, mas depois acabam indo parar no mar, o que é um perigo para os animais que porventura os engolirem. Quando me aproximei, vi que não se tratava de algo inanimado, mas vivo. Eram caravelas-portuguesas.

Mesquita se aproximou, sacou sua máquina Canon 90 D da mochila e, com o auxílio de uma teleobjetiva 70/200 mm, e uma lente curta 16/35 mm, conseguiu fazer registros nítidos dos animais boiando sobre a água. Eram três indivíduos, um deles com cerca de 15 centímetros de diâmetro.

Fiz várias imagens. Como estava ventando muito e o jet ski balançava muito também, eu larguei o dedo no obturador e fiz dezenas de imagens. Algumas ficam desfocadas, claro, mas outras ficaram muito boas mesmo. Daí resolvi postar as imagens no meu Instagram, para as pessoas conhecerem um pouco sobre as caravelas. Elas parecem pequenas quando vistas na superfície mas os seus tentáculos podem chegar a 50 metros de comprimento.

Os tentáculos desses organismos contém toxinas que, ao contato com a pele, podem provocar necrose Imagem: Arquivo Pessoal/Rafael Mesquita

Mesquita afirma que não é um fotógrafo profissional, alguém que trabalha apenas com isso. Ele leva a atividade como um hobby, mas com um objetivo principal: aproximar as pessoas da natureza e conscientizá-las sobre a importância da conservação do nosso meio ambiente.

As pessoas estão muito desconectadas da natureza. Eu acredito que, se a gente leva até elas imagens, informações, a gente pode ajudar nesse processo de reconexão e também de conscientização. Fazia muito tempo que não avistava caravelas vivas no mar.

O fotógrafo conta que chegou a ser queimado uma vez pelo tentáculo de uma caravela-portuguesa. "Ela deixa uma marca, uma espécie de queimadura na pele que parece ser feita por um chicote. Dói muito. Um amigo meu, surfista, chegou a ser hospitalizado uma vez por causa desse tipo de queimadura, ele teve uma reação, a glote dele estava fechando. Pessoas que são alérgicas devem tomar bastante cuidado ao se aproximar delas".

Colônia de animais vivendo juntos

A aparição de caravelas-portuguesas em águas rasas não é incomum. Recentemente, a prefeitura de Peruíbe publicou um comunicado nas redes alertando a população para o surgimento desses organismos nas praias da cidade. O alerta avisava ainda as pessoas que, mesmo após a morte, eles ainda podem provocar lesões na pele e no sistema nervoso.

As caravelas-portuguesas possuem uma espécie de protuberância, como uma vela de barco, que as ajuda a serem empurradas pelos ventos Imagem: Arquivo Pessoal/Rafael Mesquita

Na opinião do professor doutor em ciências biológicas na área de zoologia Valter José Cobo, as caravelas-portuguesas (Physalia physalis) são maravilhas da natureza. Elas, na verdade, não são animais únicos, mas sim colônias que podem envolver até 1.000 indivíduos, chamados cnidários.

São organismos muito complexos, planctônicos, eles vivem suspensos, flutuando na superfície do mar, carregados pelas correntes e têm uma forte associação com correntes de águas frias. É por isso que acabam vindo parar no Sul e Sudeste, durante o verão. Temos entrada de águas frias vindas das Malvinas, na Argentina, e isso favorece a sua chegada à nossa costa. Como eles ficam à mercê dos ventos e dos movimentos marítimos, acabam indo parar nas praias, que é onde ocorre a maioria dos acidentes.

O risco do acidente com um desses organismos é a necrose, elucida Cobo. Isso porque o ferimento se parece com uma queimadura, mas, na verdade, os tentáculos da colônia injetam substâncias químicas tóxicas ao contato com a pele.

De qualquer forma, ele avisa que não há registros de óbitos na costa brasileira relacionados a esses indivíduos, mas que as pessoas devem ser cuidadosas ao avistar esses organismos, seja no mar ou na areia.

Quando alguém é ferido por um desses organismos, uma coisa que pode ser feita de emergência é lavar com vinagre a lesão deixada na pele. O vinagre tem capacidades bioquímicas de anular a toxina transmitida pelos tentáculos das caravelas.

"Se estiver na praia, pode pedir para alguém num desses quiosques de lanche. Outra solução para aliviar a dor é lavar com água quente. Agora, se a extensão da lesão for muito grande, a sugestão é procurar o pronto-socorro, para os devidos cuidados médicos", disse o professor.

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