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6 meses

Estorninho: Pássaro considerado praga é agressivo, comilão e imita humanos

Maurício Businari

Colaboração para o UOL, em Santos

09/12/2021 11h43Atualizada em 09/12/2021 19h18

A chegada do estorninho (Sturnus vulgaris) ao Brasil preocupa pesquisadores, já que a espécie é considerada agressiva, voraz e concorrente de pássaros nativos dos habitats em que se desenvolve. Apesar de comerem de tudo, seus bandos preferem ficar próximos das fazendas, onde devastam plantações, transmitem doenças e modificam habitats. Mas, para além de suas características que os colocam na lista de pragas, os estorninhos têm características curiosas, como a capacidade de imitarem sons complexos, como os da fala humana.

Natural da Europa, Ásia e norte da África, o estorninho chegou ao Brasil pela fronteira com o Uruguai, que já havia sido invadido por bandos que migraram da Argentina, onde se espalharam a partir de Buenos Aires. Nos EUA, a situação é mais complexa: cerca de 200 milhões de estorninhos já se estabeleceram em diversos estados, provocando estragos e prejuízos.

O estorninho é um risco potencial para as lavouras, onde chega a atacar as colheitadeiras das fazendas para se alimentar - Reprodução/WikiCommons/Pierre-Marie Epiney - Reprodução/WikiCommons/Pierre-Marie Epiney
O estorninho é um risco potencial para as lavouras, onde chega a atacar as colheitadeiras das fazendas para se alimentar
Imagem: Reprodução/WikiCommons/Pierre-Marie Epiney

Apesar de parecer inofensivo, sua fama de comilão e "durão" o precede. Ao ponto de agricultores dos países invadidos por eles precisarem contratar serviços especializados em controle de pragas para salvarem suas lavouras.

O biólogo e biomédico Carlos Peçanha, presidente da Feprag (Federação das Associações de Empresas de Controle de Vetores e Pragas), é diretor técnico de uma multinacional que já atendeu diversas chamadas de agricultores preocupados com os danos causados por essa espécie de pássaro.

"Recebemos diversas chamadas de agricultores, principalmente nos EUA, nos pedindo para combater as invasões nas lavouras", disse o biólogo ao UOL.

Os estorninhos atacam as colheitadeiras, reunidos em bandos, para se alimentarem nas pilhas de cereais colhidos. Isso gera um prejuízo muito grande, não só pela perda dos cereais que eles comem, mas também porque eles defecam sobre toda a colheita, contaminando tudo e inutilizando o alimento.

Os estorninhos também são um problema para as zonas urbanas. Segundo Peçanha, a substância excretada pela cloaca é corrosiva, por conta da quantidade de ureia presente. Quando um carro fica coberto desses excrementos, se não for lavado na hora, acaba sofrendo corrosão na pintura.

Imagine isso em larga escala. É por meio dos excrementos que essas aves acabam transmitindo doenças.

Comunicação eficaz e oferta de alimentos

Em um artigo publicado na WSU Insider, revista acadêmica da Washington State University (EUA), o ecologista de vida selvagem Rodney Sayler diz que o estorninho é capaz de imitar outras espécies de pássaros e sons complexos, desde alarmes de carros a uivos de coiotes e até mesmo a fala humana — uma habilidade notável que é mais evidente na primavera, pois é quando os machos buscam atrair parceiras e defender territórios.

A espécie é capaz disso devido a um órgão presente nas aves, que se chama siringe. Esse aparelho, na forma de um "Y" invertido, fica localizado na extremidade terminal da traqueia e se liga aos dois brônquios primários. As aves que emitem sons provocados pela siringe são denominadas aves canoras. O estorninho é uma ave canora. O canto é um tipo de comunicação entre as espécies.

A siringe é o aparelho fonador dos pássaros, é o órgão onde eles reproduzem sons e melodias - Reprodução/Internet - Reprodução/Internet
A siringe é o aparelho fonador dos pássaros, é o órgão onde eles reproduzem sons e melodias
Imagem: Reprodução/Internet

"Até os pássaros não canoros possuem padrões de som cuja função é a comunicação entre os indivíduos de sua espécie. A voz dos pássaros é sua assinatura", afirmou ao UOL Beloni Terezinha Pauli Marterer, mestre em ciências biológicas pela Universidade Federal do Paraná.

"É por isso que, para identificarmos um pássaro, utilizamos um sonograma", explica Beloni, referindo-se ao gráfico que representa os componentes acústicos (duração, frequência e intensidade) dos sons gerados pelos pássaros. "Se a identificação fosse apenas visual, poderia haver confusão. Há espécies que se parecem muito fisicamente".

Os repertórios de sons usados pelos pássaros na comunicação podem ser um diferencial importante na adaptabilidade do estorninho como espécie invasora no Brasil.

Porém, aliado a outros fatores, como a oferta de locais para os ninhos, habilidade para o acasalamento e até mesmo as condições climáticas. Mas há um fator que o Brasil, que já foi considerado o "celeiro do mundo", tem de sobra: a oferta de alimentos.

"Pouco se sabe ainda sobre o comportamento do estorninho ao se adaptar ao habitats do Brasil, caso isso ocorra", afirma a bióloga, que se dedicou por muitos anos à área da ornitologia, o estudo dos pássaros.

Porém, podemos afirmar que ele deve repetir por aqui a experiência vivenciada em outros países nos quais ele foi bem-sucedido. Aqui ele será muito favorecido pela abundância de alimentos. Lembrando que ele é onívoro, come de tudo. Se ele se espalhar, vai ser motivo de muito transtorno. A não ser que se descubra algo que possa ser identificado como uma barreira.

Andes e Floresta Amazônica

Peçanha explica que estorninho não é considerado uma ave migratória de longas distâncias, como a andorinha, que viaja milhares de quilômetros sobre o oceano em busca de terra firme. Por essa razão, ele pode enfrentar dificuldades em se adaptar a habitats mais complexos e de difícil dispersão na América do Sul, como a região andina e a floresta amazônica.

"Sabemos que ele vai acompanhar as áreas em que a agricultura floresce, pois a oferta de alimentos é muito grande. Mas ele pode encontrar uma barreira nesses habitats mais peculiares. Sabemos que ele não possui predadores naturais no Brasil, mas a floresta amazônica é muito adensada e diversa, o que dificultaria sua busca por comida.

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