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3 meses

Contragolpe: Estudante anuncia iPhone, percebe golpe e lucra R$ 72 de frete

Heloísa Barrense

Do UOL, em São Paulo

20/01/2022 20h51Atualizada em 21/01/2022 17h38

O estudante de medicina veterinária Liverson Silva, 30, aplicou uma invertida num suposto golpista ao tentar vender um iPhone na plataforma OLX e ainda saiu com um saldo positivo de R$ 72 na conta bancária. O relato da história já passa de 6 milhões de visualizações no TikTok e gerou polêmica entre os seguidores — muitos dos quais desconheciam o golpe do falso pagamento.

Ao UOL, Liverson, residente em Salvador (BA), contou que já está acostumado a esta tentativa de golpe em diferentes plataformas de negociações online. O usuário postou o anúncio do aparelho, modelo Pro Max 512GB, por R$ 8 mil — e já se preparou para expor possíveis golpistas. "Quando pedem para postar no Mercado Livre, é golpe. Fazem a mesma coisa em outras plataformas, além da OLX", conta.

Toda vez que eu costumo postar alguma coisa de valor, sempre aparecem pessoas do Estado de São Paulo querendo aplicar esse tipo de golpe. Aí eu fiz um teste: postei o iPhone na OLX e então sete ou oito números com o DDD 11 vieram querendo negociar.
Liverson Silva, estudante universitário

Liverson Silva aplicou contragolpe em anúncio de celular Imagem: Arquivo Pessoal

No vídeo, publicado no TikTok, Liverson explica que recebeu uma mensagem do golpista pelo Whatsapp pedindo por mais fotos do aparelho e fazendo perguntas sobre o item, como o tempo de uso. A pessoa se mostrou interessada em realizar a compra e pediu para que Liverson publicasse o anúncio no Mercado Livre, justificando que ele pretenderia parcelar a compra e que acreditaria que a plataforma fosse mais "segura". "Esse golpe é velho!", alerta.

O universitário então disse ter dado prosseguimento na negociação e que o suposto comprador teria pedido para que o produto fosse enviado de forma expressa, via Sedex, momento em que o vendedor reagiu. "Agora, você precisa pagar o frete por fora porque eu estou sem dinheiro pra poder postar lá e eu só recebo o dinheiro do Mercado Livre quando você recebe o produto e avalia dentro do prazo", avisou, informando a estimativa da postagem: R$ 72.

Do outro lado, o suposto comprador reclama estar sem dinheiro, mas acaba topando fazer a transferência do valor referente ao frete para São Paulo. Após confirmar o depósito, Liverson diz ter provocado: "Você pensou mesmo que eu iria cair nesse golpe antigo do Mercado Livre?". E conta ainda que a pessoa pede o dinheiro de volta e, então, admite o golpe, alegando já ter conseguido telefones e bicicletas na ação: "Relaxa, você não foi burro, mas tem vários que são. R$ 72 eu consigo fácil com outros idiotas na OLX. Você é um otário, vai se lascar".

Liverson contou o vídeo dele ajudou dois rapazes a conseguirem produtos negociados de volta. Segundo o universitário, o e-mail utilizado pelo golpista para tentar enganar as duas vítimas era o mesmo.

"Um rapaz, ajudei ontem. Ele tinha acabado de sair dos Correios, achando que tinha vendido uma câmera por R$ 2 mil. Quando estava voltando para o trabalho, nos 15 minutos antes de começar, ele entrou no TikTok e viu o meu vídeo. E quando ele viu, caiu a ficha. Ele correu e entrou em contato comigo pelo Instagram; eu averiguei e falei para ele reaver o produto", conta o universitário, acrescentando que o rapaz, de Divinópolis (MG), conseguiu suspender a entrega, que também seguiria para São Paulo.

Segundo Liverson, um segundo espectador, de Goiânia, também teria conseguido suspender a entrega do produto antes do envio. "Era uma máquina de estampar camisas avaliada em R$ 4 mil. Ele pagou o frete de R$ 300, viu o meu vídeo no TikTok, entrou em contato comigo e conseguiu pegar o produto antes da coleta", conta.

O que dizem as empresas

O UOL entrou em contato com a OLX e o Mercado Livre sobre o caso.

Em nota, a OLX informou que bloqueou o usuário identificado e está à disposição das autoridades para colaborar na apuração dos fatos.

Segurança é uma prioridade para a OLX e a plataforma investe constantemente em tecnologia e serviços de orientação ao usuário, com recomendações para manter as conversas pelo chat da plataforma e não entregar o produto sem a confirmação do pagamento. A plataforma esclarece ainda que disponibiliza um espaço democrático em que os usuários possam anunciar e comprar produtos e serviços de forma rápida e simples, sempre com respeito aos Termos e Condições de Uso, com negociação direta entre vendedor e comprador, sem a intermediação da plataforma.

A empresa ainda informou que, caso o usuário perceba comportamento suspeito, ele pode denunciar a irregularidade por meio do site, onde também é possível encontrar dicas de segurança digital.

O Mercado Livre, mencionado pelo e-mail falso das vítimas em questão, informou em nota que orienta que 'toda comunicação e transação entre usuários seja realizada dentro da sua plataforma", assim como "as transações de pagamento sejam realizadas via Mercado Pago, assegurando que os usuários estarão cobertos pelo Compra Garantida, o programa de proteção a compradores e vendedores da plataforma".

Além disso, a empresa orienta seus usuários a nunca compartilhar dados pessoais e, no caso dos vendedores, a sempre confirmar através do site ou do aplicativo a venda e o pagamento antes de enviar um produto ao comprador. Outra orientação é sempre verificar o remetente de e-mails recebidos e, diante de qualquer suspeita, consultar todos os dados da transação na plataforma ou imediatamente acionar os canais de atendimento oficiais pelo site ou aplicativo. Todas essas recomendações estão disponíveis nos Termos e Condições de Uso da plataforma, que investe continuamente na segurança dos seus ambientes e serviços digitais, a fim de oferecer a melhor experiência aos seus usuários.

Golpe do falso pagamento

O que Liverson chamou de "Golpe do Mercado Livre" independe de plataforma. O esquema criminoso é um dos mais frequentes aplicados na internet no Brasil. Como já explicou Tilt, plataforma de tecnologia do UOL, o fraudador elabora um falso comprovante de depósito, com os dados da vítima, e envia por e-mail ou WhatsApp para finalizar uma transação de venda de um produto.

O vendedor acredita que o valor já foi depositado e entrega o produto. Quando percebe o golpe, o golpista já sumiu do mapa: ele já está com o produto em mãos e deixa de responder às mensagens.

Os fraudadores costumam pedir para que o anúncio seja realizado em uma plataforma diferente da que o produto foi originalmente publicado por diversas razões, inclusive sob o argumento de necessidade de parcelamento do pagamento. Na conversa com a vítima, eles também pedem pelo e-mail dela para que possam enviar uma mensagem falsa confirmando a negociação.

Na comunicação falsa, os fraudadores utilizam a logo e o nome da empresa onde hipoteticamente a negociação foi realizada para enganar o usuário. No entanto, é possível observar que os e-mails geralmente costumam vir por meio de um endereço que não é corporativo e que até mesmo erros de português podem ser encontrados.

Um estudo realizado pela OLX com a AllowMe, plataforma de proteção de identidades digitais desenvolvida pela Tempest, apurou que o "golpe do falso pagamento" representa 42% das fraudes no mercado digital. De acordo com a pesquisa, o prejuízo estimado ficou em cerca de R$ 6 milhões, apenas no 1º semestre de 2021. A maioria dos produtos visados são os aparelhos eletrônicos, que representam 78% dos alvos: Celulares estão no topo da lista, com 47%, seguido por videogames (19%) e computadores (13%).

A pesquisa ainda desmitifica que as atividades cibernéticas criminosas estejam relacionadas a fatores como "navegador Tor" (famoso por ser utilizado para acessos à deep web) ou e-mails descartáveis, já que, a cada 10 mil contas falsas criadas, apenas uma é feita a partir do Tor (0,01%) e 14 utilizam caixas de e-mail temporárias (0,14%).

Como se prevenir

As empresas sempre aconselham a manter as conversas nos canais das plataformas e não passar dados pessoais, como e-mail, celular ou conta bancária.

No estudo da AllowMe, os especialistas levantaram as principais dicas para evitar este tipo de problema. Confira:

  • Negocie sempre pelos chats das plataformas de compra e venda e evite aplicativos de mensagem. Fraudadores preferem ambientes digitais onde não poderão ser rastreados e não gostam de deixar rastro de suas atuações;
  • Recebeu um comprovante de pagamento por mensagem ou e-mail? Desconfie, confira diretamente no banco ou na carteira digital se o valor já foi computado, e confira o status da transação na plataforma onde está negociando;
  • Só entregue o produto após a confirmação do pagamento;
  • Desconfie de compradores apressados, essa é uma das táticas utilizadas para que a pessoa entregue o produto antes da confirmação do pagamento;
  • Fique atento aos e-mails recebidos dos sites. E-mails oficiais da empresa normalmente usam o nome da marca e não informações genéricas ou domínio de emails gratuitos.
  • Empresas também costumam ter o whatsapp verificado, quando aparece um selo de confirmação que aquela conta é idônea. Se não tiver o selo, desconfie.

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