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Cotidiano

Agressores identificados e vídeo: o que se sabe da morte do congolês no Rio

Marcela Lemos e Lola Ferreira

Colaboração para o UOL e do UOL, no Rio

02/02/2022 04h00

O congolês Moïse Mugenyi Kabagambe, 24, foi espancado até a morte na noite de 24 de janeiro em um quiosque na orla da Barra da Tijuca, na zona oeste do Rio, onde trabalhava servindo mesas.

Três homens identificados como os agressores foram detidos ontem pela Polícia Civil, que informou que pedirá à Justiça a prisão deles pelo homicídio. Veja a seguir o que se sabe sobre o crime que chocou o país.

Quem era Moïse Mugenyi Kabagambe?

Moïse chegou ao Brasil como refugiado quando tinha 11 anos. Atualmente, trabalhava informalmente servindo mesas em quiosques do posto 8 na Barra da Tijuca.

O jovem congolês Moïse Mugenyi Kabagambe - Reprodução/Facebook - Reprodução/Facebook
O jovem congolês Moïse Mugenyi Kabagambe
Imagem: Reprodução/Facebook

Ele tinha seis irmãos —cinco moram no Brasil e outro na França. Morava com a mãe, irmãos e primos em um bairro da zona norte do Rio. O pai morreu em situação de guerra no Congo.

Moïse era pago por dias trabalhados e, segundo a família, o quiosque Tropicália —onde foi assassinado— devia a ele R$ 200, referentes a duas diárias por serviços prestados.

Quando Moïse foi assassinado?

Moïse morreu na noite de 24 de janeiro após ser brutalmente agredido por três homens com um pedaço de madeira no quiosque onde trabalhava.

A vítima chegou a ter pés e mãos amarrados com uma espécie de corda depois de sofrer uma série de agressões. O rapaz foi atendido pelo Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) no local, mas não sobreviveu.

Segundo a Polícia Militar, ele foi encontrado no chão, com as mãos e pés amarrados.

Qual a causa da morte?

Um laudo do IML (Instituto Médico Legal) diz que Moïse morreu em decorrência de traumatismos no tórax, com contusão pulmonar causada por ação contundente.

O laudo diz ainda que os pulmões apresentavam áreas hemorrágicas de contusão e também vestígios de broncoaspiração de sangue.

Os agressores foram identificados?

A Polícia Civil do Rio informou na noite de ontem que pedirá à Justiça a prisão temporária dos três agressores por homicídio duplamente qualificado (impossibilidade de defesa e meio cruel). Eles foram localizados e, na noite de ontem, eram ouvidos pela polícia na Delegacia de Homicídios da Capital.

Os agressores foram identificados a partir de um vídeo registrado por uma câmera de segurança do quiosque (veja as imagens no início da reportagem). Segundo a polícia, eles não são funcionários do quiosque Tropicália.

Somente dois deles tiveram os nomes revelados pela polícia —Fábio Silva, detido em Paciência, na zona oeste do Rio, na casa de parentes, e Alisson Cristiano Fonseca, que se entregou mais cedo e disse que não tinha a intenção de matar.

O que dizem as investigações?

A arma do crime foi apreendida pela polícia —um taco de beisebol, achado numa mata perto do quiosque, onde fora descartado pelos agressores.

A polícia informou que a motivação do crime será apresentada ao final da investigação.

Mais de oito pessoas já prestaram depoimento à DH (Delegacia de Homicídios da Capital), entre elas, o responsável pelo quiosque. A defesa do homem —que não teve a identidade revelada— negou envolvimento dele no caso e disse que ele havia deixado o local antes do crime.

Os advogados negam que os homens que aparecem nas imagens sejam funcionários do Tropicália. O responsável pelo quiosque afirmou desconhecer os agressores e negou que devesse diárias a Moïse.

Ontem, Alisson Cristiano Alves de Oliveira, 27, apresentou-se na delegacia de Bangu, na zona oeste, e afirmou ser um dos agressores do congolês. Ele disse que não tinha intenção de matar Moïse.

Na versão dele, o congolês teria tentado agredir o funcionário dentro do quiosque e três pessoas intercederam para evitar, o que deu início ao espancamento. As imagens da câmera de segurança do quiosque mostram contudo que os três agressores batem na vítima mesmo estando ela imobilizada no chão.

O que mostrou a câmera de segurança do quiosque?

As imagens mostram ao menos 20 minutos de agressões. Todo o episódio aconteceu enquanto o quiosque operava normalmente, com um atendente no balcão. O funcionário disse, segundo sua defesa, que ele não acionou a polícia porque estava sem telefone celular.

Foram inúmeras agressões com uma brutalidade absolutamente desproporcional e, mesmo se verificando que ao final das agressões se busca uma tentativa de reanimar a vítima, isso não apaga a brutalidade das ações realizadas anteriormente."
Henrique Damasceno, delegado titular da DH

O vídeo começa com Moïse —que segura uma cadeira— e um homem não identificado com um pedaço de madeira. Ambos dão voltas dentro do quiosque —ora avançando ora recuando.

Essa dinâmica se mantém por cerca de 2 minutos, quando os outros três homens surgem nas imagens. O que segue a partir deste momento é uma sessão de espancamento.

Os homens cercam e derrubam Moïse ao chão. Um homem de camiseta vermelha prende o pescoço da vítima com as pernas. Depois disso, outro homem espanca Moïse com um pedaço de madeira.

Ao todo, a vítima recebeu ao menos 26 pauladas —foram 11 agressões enquanto ele ainda estava em luta corporal e mais 15 quando ele já estava caído no chão.

Após a sessão de espancamento, os homens tentam reanimar Moïse, sem sucesso. Com uma garrafa de água tirada do freezer, um deles molha os pulsos e o pescoço do congolês. Moïse não reage.

A PM informou que não foi acionada. A ocorrência foi identificada após uma viatura policial em patrulhamento avistar uma ambulância do Samu no quiosque.

O que diz o relatório da PM sobre o caso?

De acordo com o relatório da PM, um funcionário do quiosque relatou que o congolês foi perseguido pela praia e agredido por dois homens —a participação do terceiro agressor foi omitida.

No relato, o funcionário confirmou que um dos agressores chegou a desferir uma chave de perna no pescoço de Moïse para imobilizá-lo, enquanto outro batia com o pedaço de madeira nas costas da vítima —o que se confirmou nas imagens.

As imagens contudo contradizem essa versão. Moïse já estava no quiosque antes de ser agredido, discutindo com o funcionário, quando começou a ser agredido.

O que diz a família de Moïse?

A família afirma que o que levou ao espancamento do congolês foi a cobrança pela vítima de R$ 200 no quiosque de praia por duas diárias de trabalho.

Mamu Idumba Edou, 49, tio de Moïse, disse ao jornal Folha S.Paulo que um colega do sobrinho que estava no local foi ameaçado de morte, caso falasse sobre o caso. Ele então fugiu e avisou a família do amigo que Moïse estava morto na praia.

"É muita covardia. A gente sabe que não terá o Moïse de volta, mas a gente quer justiça", afirmou o tio.

Ao jornal O Globo, a mãe da vítima disse: "mataram meu filho aqui como matam em meu país". A família morava em uma área de guerra na República Democrática do Congo. A região vive uma guerra tribal entre os hemas e os lendu.

A quem pertencem os quiosques?

Os quiosques são administrados pela concessionária Orla Rio que suspendeu o funcionamento do Tropicália e do quiosque ao lado, que são terceirizados, até o esclarecimento dos fatos.

"A concessionária esclarece que aguarda o resultado da investigação policial para tomar qualquer medida que se faça necessária junto aos mesmos. Caso um dos operadores seja legalmente considerado culpado pelo crime, a Orla Rio informa que vai rescindir unilateralmente o contrato que tem com ele, com a consequente retomada de posse do quiosque, bem como o ingresso de ação judicial própria para reparação das perdas e danos."

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