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Rio: 'Ele morreu a facada, não tiro', diz irmão de jovem morto em chacina

Mototaxista Washington Patricio Ferreira, 29, perdeu irmão de 16 anos em operação policial na Vila Cruzeiro Imagem: Herculano Barreto Filho/UOL

Herculano Barreto Filho

Do UOL, no Rio

26/05/2022 12h46Atualizada em 27/05/2022 19h16

Em frente ao IML (Instituto Médico Legal) com a certidão de óbito do irmão de apenas 16 anos em mãos, o mototaxista Washington Patricio Ferreira, 29, sentou em um dos degraus da escada que dá acesso ao local onde é feita a liberação de corpos, colocou as mãos no rosto e chorou.

Ele relembrava dos últimos momentos ao lado de João Carlos Arruda Ferreira, que o acompanhava justamente em uma manifestação para pedir pelo cessar-fogo da operação policial desta terça-feira (24), que deixou ao menos 23 pessoas mortas na Vila Cruzeiro, zona norte do Rio de Janeiro. Horas depois, foi encontrado em uma área de mata na região com um ferimento no peito compatível com uma facada.

O garoto, que cursava o 6º ano do ensino fundamental, será enterrado no começo da tarde de hoje no Cemitério do Caju, zona norte carioca. O UOL procurou a Polícia Militar para questionar as denúncias de violações de direitos humanos, mas ainda não obteve resposta.

João Carlos ainda tinha sinais vitais quando foi encontrado por volta das 18h, segundo relatou um mototaxista que o encontrou. De lá, foi levado à UPA do Complexo do Alemão, mas não resistiu aos ferimentos.

Em entrevista ao UOL, Washington, irmão de João Carlos, disse ter sido informado por um funcionário do IML que a morte ocorreu em decorrência de um ferimento causado por arma branca.

"Meu irmão morreu com facada, não foi de tiro. Tinha 16 anos, o rapaz estudava. Não era bandido. Mas todo mundo na comunidade é tratado como se fosse".

"Eram 12h quando o motoboy disse ter se perdido do irmão em meio ao protesto. "Meu irmão subiu com a carreata e me perdi dele. Eu não fui porque estava tendo muito tiro", contou.

Falam que ele [jovem morto] estava no momento errado e na hora errada. Eu discordo. A minha casa fica perto da mata na comunidade. Você acha que eu não queria morar na zona sul? Mas eu moro na comunidade. Vou ser sempre esse trabalhador que vocês estão vendo. Não vou poder virar a minha mente
Washington Patricio Ferreira

João Carlos era de uma família com sete irmãos, filhos de pais diferentes. Ele ainda estava na barriga da mãe quando o seu pai morreu devido a problemas de saúde. Há 12 anos, uma tragédia levou a sua irmã, que se segurou em uma barra de ferro em um dia de chuva e morreu eletrocutada.

Com a morte da mãe há apenas 3 anos, também em decorrência de problemas de saúde, Washington assumiu a criação do irmão. "Fiz de tudo pra esse rapaz ter uma vida melhor", desabafou o mototaxista, que buscou consolo no abraço da tia, a auxiliar de serviços gerais Vanessa Silva, 35, enquanto aguardava a liberação do corpo no IML.

Vanessa Silva, 35, consola sobrinho Washington Patricio Ferreira, que perdeu irmão em chacina no Rio Imagem: Herculano Barreto Filho/UOL

'Vamos enterrar mais um irmão'

Enquanto consolava o sobrinho, Vanessa criticava a ação das forças de segurança na favela.

"Nem todo mundo que mora na comunidade é do tráfico. Tem pessoas que trabalham lá também".

Ela critica o que cita como impunidade em ações com mortes de inocentes. "É mais uma vítima dessa guerra sem fim. Pro Estado, dentro da comunidade só tem bandido. E estamos aqui pra enterrar mais um irmão".

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