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08/03/2007 - 08h00

Combustível é renovável, mas há dúvidas sobre impacto ambiental

Da Redação
Em São Paulo
O uso de um produto de origem vegetal para a substituição de combustíveis fósseis ainda gera certa polêmica, com defesas e críticas apaixonadas de lado a lado sobre a viabilidade econômica e ambiental da adoção da alternativa.

AVALIANDO O ÁLCOOL
É renovávelCientistas questionam eficiência energética
Emite até 25% menos poluentes em relação à gasolinaQueimadas afetam o ambiente
Ao crescer, cana reabsorve grande parte do CO2 emitido na queima do álcoolExige uso de poluentes na produção, como fertilizantes e pesticidas
Emprega mais genteEmprega mão-de-obra pouco qualificada
Reduz consumo do petróleo em 200 mil barris/diaGeração de subprodutos poluentes na produção, como o vinhoto
VantagensDesvantagens

A grande vantagem do álcool (ou etanol) em relação a seu principal concorrente, a gasolina, está na forma como o combustível é obtido. No caso do álcool, trata-se de uma fonte renovável, isto é, que pode ser produzida indefinidamente desde que haja condições mínimas, como a disposição de sol, chuvas e terra para a plantação.

Já a gasolina é derivada do petróleo, um recurso mineral finito, que, segundo alguns especialistas menos otimistas, pode se esgotar em cerca de 50 anos.

Nesse quesito, o Brasil possui grandes vantagens, por dispor de vastas porções de terra agriculturáveis e por estar situado em uma posição geográfica que permite a exploração de plantas como a cana-de-açúcar, ideais para ao produção do etanol.

Só na forma como produz seu etanol o Brasil já tem larga vantagem em relação aos Estados Unidos, seu grande concorrente e possível parceiro a partir da visita do presidente e George W. Bush ao Brasil.

Cana X Milho
O etanol extraído da cana-de-açúcar tem custo de 30% a 40% menor que o produzido a partir do milho, como é o caso dos EUA.

Entre os fatores que geram essa diferença, estão a necessidade de uma etapa a mais no processo de produção do etanol a partir do milho (na qual os carboidratos são transformados em açúcar para ser extraído o etanol, fase inexistente no caso da cana); ou o uso de energia alternativa no processamento da cana, com base na queima do bagaço ou palha do próprio vegetal (nos EUA, os produtores dependem de fontes externas de energia).

Mas há outro ponto positivo para o produto norte-americano: "Eles têm a vantagem de que o milho pode ser estocado, o que permite fazer um plano de produção contínuo ao longo do tempo. No caso da cana, ela só pode ser estocada por até 72 horas. Depois disso, perde o poder de geração de álcool. Assim, tudo o que colhemos temos que produzir imediatamente", afirma Alfred Szwarc, consultor da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica).

Pesquisas atuais buscam alternativas para possibilitar a extração do etanol a partir da celulose, o que pode abrir mais o leque de fontes vegetais para a produção do combustível. No Brasil, o novo processo possibilitaria retirar o combustível do bagaço ou da palha da cana, que são descartados ou queimados para geração de energia atualmente.

Há também a questão da emissão de gases poluentes na queima de combustíveis, que, no caso do álcool é, em média, 25% menor que no da gasolina. Além disso, ao crescer, a planta da qual é extraído o etanol absorve grande parte do gás carbônico (CO2) emitido na queima desse combustível.

Questionamentos
Por outro lado, um dos principais questionamentos dos críticos à adoção do etanol como alternativa energética é a necessidade de uso de grandes extensões de terra para a produção vegetal.

O uso dessas terras afetaria indiretamente a produção de outros vegetais, principalmente de alimentos, podendo encarecer consideravelmente tais produtos e ampliando problemas como a fome nos países produtores.

Esse fenômeno é notado especialmente em relação ao preço do milho, que é uma commodity agrícola internacional. O aumento da produção de etanol a partir deste vegetal nos EUA fez setores essenciais (como as indústrias de rações animais e alimentícia) terem de arcar com custos mais altos do milho.

Além disso, no Brasil, em especial, considera-se que a mão-de-obra empregada na cultura da cana-de-açúcar é profundamente explorada pela falta de oferta de condições seguras de trabalho, exploração além dos limites da capacidade física dos trabalhadores e por pagamento de salários muito baixos.

Hoje, no país, há o debate sobre como resolver esse problema social, já que, além de toda a exploração existente, a mecanização avança e deve eliminar quase por completo o emprego de mão-de-obra na colheita da cana.

Questão ambiental
Também há preocupações com relação à sustentabilidade da produção do etanol, principalmente no que se refere à eventual necessidade de novos desmatamentos para ampliar as áreas de plantio visando o atendimento da demanda mundial crescente; ou à degradação ambiental causada pelo uso de fertilizantes e pesticidas na lavoura da cana e pelo manejo de dejetos gerados na produção, como o vinhoto.

Pelo menos no curto prazo, não há temor evidente de um aumento desenfreado do consumo de etanol que venha a mexer significativamente com o mercado do produto.

Mesmo assim, grandes empresas, como a Petrobras, estão se preparando para a dinamização do mercado do etanol. Um dos exemplos é a parceria firmada pela estatal brasileira com a trading japonesa Mitsui na prospecção de negócios na área de produção do combustível.

No Brasil, a estimativa de produção de álcool na safra 2007/2008 é cerca de 2 bilhões de litros superior (11,4%) à de 2006/2007 (de 17,5 bilhões de litros).

Segundo Alfred Szwarc, consultor da União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica), "o mercado de álcool está relativamente equilibrado este ano", o que afasta, pelo menos temporariamente, o risco de desabastecimento interno e alta galopante do preço do álcool nos postos de combustíveis.

A grande questão que fica é relaciona às perspectivas de um futuro mercado internacional de etanol, no qual o Brasil já se candidata como grande provedor do combustível alternativo: qual será o custo desse processo de transformação em termos ambientais, sociais, políticos e econômicos e quem estará disposto a arcar com eles? A resposta só deve vir com o tempo.

(Reportagem de Carlos Brazil)

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