! Vencedor do referendo em todo o país, " não " tem melhor desempenho no Rio Grande do Sul - 24/10/2005 - Valor Online
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24/10/2005 - 08h26
Vencedor do referendo em todo o país, " não " tem melhor desempenho no Rio Grande do Sul

SÃO PAULO - O voto " não " no referendo pela proibição da venda de armas e munição foi o vencedor. Até o momento foram apuradas 99,85% das urnas e a opção " não " tem 63,92% dos votos válidos, ante 36,08% do " sim " . De acordo com o TSE, a abstenção ficou em cerca de 20% dos 123 milhões de eleitores registrados, equivalente à registrada nas eleições presidenciais de 2002.

A vitória foi acachapante: em nenhum Estado da federação o " sim " conseguiu maioria dos votos. No Rio Grande do Sul, a diferença foi de 86,83% para o " não " contra 13,17% do sim, contados 99, 92% do total. O melhor resultado obtido pelo desarmamento foi Pernambuco. Com 97,96% dos votos apurados, o " sim " obteve 45,44% ante 54,56% do não.

Do ponto de vista político, a opção pelo " não " contraria a escolha feita pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, os governadores de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB) e Rio de Janeiro, Rosinha Garotinho (PMDB), o prefeito de São Paulo, José Serra (PSDB) e a CNBB. A vitória do " não " faz com que permaneça permitida a venda de armas e munições para as pessoas autorizadas a usá-las, oito categorias descritas nos artigos 6 e 10 do Estatuto do Desarmamento.

A força do " não " no Rio Grande do Sul deve-se à condição de Estado que, historicamente, sempre atuou na defesa das fronteiras do país. Também ficam no Estado duas das grandes indústrias de armamentos do país, a Taurus e a Rossi. Além disso, a historiadora Sandra Jatahy Pesavento, professora da Universidade Federal do Rio Grande do sul (UFRGS) atribui o resultado a uma mensagem de protesto contra o governo federal no Estado que nos anos recentes havia garantido as maiores conquistas políticas e eleitorais do PT no país . A especialista afirma que o referendo transformou-se em um julgamento local do governo, que se engajou na campanha a favor do desarmamento. " A desilusão foi maior porque o Rio Grande do Sul também tinha vínculos mais fortes com o partido " , diz.

Outro fator que pesou a favor da derrota da proibição da venda de armas e munição foi a lógica adotada pela população das regiões mais afastadas, no interior do Rio Grande do Sul. Lá, segundo a historiadora, o que prevaleceu foi o princípio da defesa das terras em áreas onde as forças de segurança pública enfrentam limitações ainda maiores de atuação. " É um processo que autoriza este tipo de comportamento " , entende ela. No Rio Grande do Sul, há 348 mil armas registradas, de acordo com o Sistema Nacional de Armas da Polícia Federal (Sinarm), no dia 3 de outubro deste ano.

No Rio , com 100% dos votos apurados, o " não " obteve 61,89% dos votos , contra 38,11% do " sim " , ligeiramente abaixo portanto da média nacional. Das mais de 7,6 milhões de armas registradas em todo o País, desde julho de 2004, a campanha do desarmamento recolheu apenas 4% das armas registradas no Rio.

Em São Paulo, tanto o governador Geraldo Alckmin quanto o prefeito da capital, José Serra, ambos tucanos, apoiaram o voto " sim " , mas de maneira cada vez mais discreta, à medida que o " não " progredia. Com 99,17% dos votos apurados, o voto contra a proibição obteve 59,6% do total, ante 40,4% do voto " sim " , diferença também menor do que a nacional.

O voto no referendo foi extremamente regionalizado. Além do Rio Grande do Sul, o voto " não " ficou acima da média em Santa Catarina (76,64% contra 23,36%) e Paraná (73,15% ante 26,85%) e nos Estados da região Norte, em que a população é dispersa e o uso de armas no campo é usual. No Amapá, com 100% dos votos apurados, o " não " obteve 73,48% . Em Tocantins, com 99,67% do total contado, o " não " conseguiu 75,95% e o " sim " , 24,05%.

Já na região Nordeste, as diferenças foram menores e o voto " sim " conseguiu melhor desempenho. Depois do Ceará, o segundo melhor resultado do " sim " foi em Pernambuco, com 45,34%, depois de apurados 96,45% das urnas. O Estado foi o terceiro do país em armas arrecadadas durante a campanha do Desarmamento.

(Valor Econômico )