! Sem dinheiro em caixa, Varig pode paralisar operação - 05/04/2006 - Valor Online
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05/04/2006 - 08h20
Sem dinheiro em caixa, Varig pode paralisar operação

RIO e BRASÍLIA - A solução para evitar a paralisação da Varig caiu mais uma vez no colo do governo. A proposta de compra da companhia aérea feita ontem pela VarigLog, ex-subsidiária de transporte de cargas e logística da Varig, foi mal recebida pelos credores, e a Justiça do Rio de Janeiro já admite a possibilidade de a empresa parar até amanhã, por falta de caixa.

A companhia não tem honrado o pagamento às empresas de leasing e à VEM, ex-subsidiária de manutenção, vendida para a portuguesa TAP, assim como descumpriu o acordo informal fechado no fim da semana passada com a Infraero.

Hoje, a estatal vai dar um ultimato à Varig. Se ela continuar ignorando a cobrança de R$ 900 mil por dia, a Infraero exigirá o depósito das tarifas em cada aeroporto, à vista e em dinheiro, para autorizar os vôos.

O novo agravamento da crise acendeu a luz amarela no Palácio do Planalto e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva já tomou conhecimento da situação.

"Nós precisamos salvar a Varig de qualquer jeito", disse o presidente, repetidamente e em tom de advertência, a pelo menos uma das pessoas que estiveram em seu gabinete, na segunda-feira.

Segundo interlocutores de Lula, o presidente da empresa, Marcelo Bottini, enviou uma correspondência à cúpula do governo, na última sexta-feira, alertando para a iminente paralisação da Varig a partir de amanhã, se o quadro não for revertido. A assessoria de imprensa da companhia nega o envio da carta.

A juíza da 2ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro, Márcia Cunha, uma das responsáveis pelo processo de recuperação judicial da Varig, afirmou ao Valor que a situação da aérea é "grave". "Sem caixa, a empresa não tem jeito", afirmou Márcia. "Ou os credores aceitam a proposta da VarigLog, ou o governo terá que acenar de alguma forma para colocar recursos na companhia. O Judiciário não pode fazer nada."

A proposta apresentada ontem aos credores pela VarigLog prevê um corte significativo do número de funcionários, redução da frota e a criação de uma empresa sem dívidas.

Pela proposta, a "nova" Varig ficaria nas mãos da VarigLog, hoje controlada pela Volo do Brasil, que tem como sócios o fundo americano de investimentos MatlinPatterson e os brasileiros Marco Antonio Audi, Marcos Haftel e Luiz Eduardo Gallo.

O passivo da empresa, de cerca de US$ 7 bilhões, ficaria concentrado na "antiga" Varig. Segundo um dos credores presentes ao encontro, os representantes da VarigLog não indicaram uma solução para o problema. O fundo também pede a prorrogação das concessões da Varig por 20 anos.

O mercado desconfia que a Volo seja efetivamente controlada pela MatlinPatterson, o que faria a operação esbarrar no limite constitucional de 20% para o controle de empresas aéreas por estrangeiros.

Há quem defenda uma flexibilização dessa exigência. "O importante é que ela (Varig) funcione bem, preserve os seus slots (horários de pousos e decolagens nos aeroportos) e encontre um bom comprador, desde que seja uma empresa constituída no país, não importa se com capital estrangeiro", afirmou o ministro do Turismo, Walfrido dos Mares Guia.

Para a presidente do Sindicato Nacional dos Aeroviários, Selma Balbino, a proposta prejudica todos os credores, principalmente os trabalhistas, na medida em que metade dos 10 mil funcionários seriam demitidos. A frota da Varig também encolheria de 71 para 48 aviões.

O presidente do fundo de pensão Aerus, Odilon Junqueira, já adiantou que a oferta da VarigLog não será aceita. "A Varig tem um plano de recuperação aprovado e que precisa ser seguido. Essa oferta da VarigLog deixa o Aerus no deserto.", disse Junqueira.

O representante do MatlinPatterson, Lap Chan, afirmou ontem que, dos US$ 350 milhões oferecidos pela VarigLog para a compra da Varig, US$ 200 milhões seriam destinados para gastos correntes, US$ 100 milhões para manutenção dos aviões e outros US$ 50 milhões para rescisões trabalhistas.

Hoje, os credores se reúnem em assembléia para definir o gestor do Fundo de Investimentos em Participação (FIP-Controle). Uma fonte que acompanha as negociações, no entanto, lembrou que a viabilidade do plano está ameaçada pela falta de caixa da aérea.

(Valor Econômico)