! Argentina reajusta tarifas controladas pelo governo - 09/08/2006 - Valor Online
UOL EconomiaUOL Economia
UOL BUSCA


Últimas Notícias


09/08/2006 - 09h55
Argentina reajusta tarifas controladas pelo governo

BUENOS AIRES - Terminada uma bem-sucedida temporada de férias de inverno para o turismo local, o governo argentino decidiu flexibilizar as tarifas controladas pela primeira vez em três anos. O setor beneficiado foi o de transportes. Entre segunda e ontem, as empresas aéreas e de ônibus interurbanos receberam autorização para reajustes escalonados, que vão de 10% a 25%.

Os taxistas de Buenos Aires também acertaram com o governo um reajuste de tarifas.

De acordo com o Diário Oficial, os reajustes de aviões e ônibus se darão em duas fases, uma primeira já e uma segunda daqui a um mês. A justificativa para os aumentos são os crescentes custos com combustíveis e reajustes salariais. De acordo com a medida oficial assinada pelo cúpula da área econômica, as tarifas aéreas vão aumentar 10% a partir de hoje e mais 10% em 30 dias, em percentuais diferenciados de acordo com o trecho. Para os ônibus interurbanos - com trajetos acima de 60 km a partir de Buenos Aires - os aumentos serão diferenciados pela qualidade do serviço (se têm ou não ar condicionado ou poltronas-leito). Não terão reajustes os ônibus comuns - sem esses " confortos " .

Uma viagem de ônibus entre Buenos Aires e Mendoza, importante centro de produção de vinhos, que tem aproximadamente mil quilômetros e custa hoje entre 35 e 47 pesos (R$ 24 a R$ 33), pode passar a pouco mais de 58 pesos (cerca de R$ 40, muito abaixo de um trajeto equivalente no Brasil, como São Paulo-Brasília, que custa de R$ 82 a mais de R$ 200 em ônibus leito). Os taxistas, que realizaram uma paralização na noite de segunda-feira, obtiveram um aumento de 9% das tarifas básicas agora e mais 23% até setembro.

O presidente Néstor Kirchner esperou a hora certa para liberar os reajustes: o final da alta temporada de turismo de inverno. Segundo um boletim divulgado ontem pela Associação de Hotéis e Turismo (AHT, entidade que reúne os hotéis de quatro e cinco estrelas do país), no balanço da temporada que terminou nesta semana, a Argentina recebeu mais de 430 mil turistas desde maio em seus locais mais famosos e preferidos (especialmente por brasileiros), como Bariloche, ajudada por um dos invernos mais frios da história do país. A taxa de ocupação dos hotéis no país todo - que varia de acordo com o destino - ficou em média de 32,7%, atingindo até 80% na província de Buenos Aires. " As cifras de ingresso de turistas superaram todas as expectativas e resultados de temporadas anteriores " , afirmou o presidente da AHT, Guillermo Lavallén.

Além disso, estes são itens que pesam menos nos índices de inflação, afirma o economista Mariano Lamothe, da consultoria Abeceb.com. " O governo escolheu um setor com baixo impacto sobre (o custo da) a cesta básica " , comentou Lamothe. Ele lembra que o governo Kirchner tem adotado um discurso mais flexível com outros setores mais importantes para o comportamento da inflação como os aluguéis, que têm subido fortemente na capital e para os quais a mensagem oficial tem sido de respeito ao mercado. " O governo sabe que se não há preço, não há investimento " , diz Lamothe.

Hernan Fardi, economista da consultoria Maxinver, não acredita que esses aumentos marquem uma mudança de rumo na política de controle de preços e não viu motivos para alterar sua projeção de inflação para este ano que é de 11%. " Como a inflação está sob controle, eles podem permitir ajustes em alguns setores mas não se pensa que haverá um reajuste generalizado a partir de agora. "

Kirchner tem adotado uma política restritiva para controlar a inflação, exigindo de setores produtivos privados a assinatura de acordos de contenção temporária de preços e intervindo com medidas de " força " como as que atingiram o setor agrícola - e agora os fabricantes de vidros -, cujas exportações foram proibidas para garantir a oferta no mercado interno.

(Janes Rocha | Valor Econômico)