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06/11/2006 - 07h49

Crise no governo cresce, mas aeroportos ficam calmos

BRASÍLIA - A crise nos aeroportos, deflagrada pela operação-padrão dos controladores de tráfego aéreo, fez recrudescer as divergências e disputa de poder na área militar e pode deflagrar a dança das cadeiras para o segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O desgaste aumentou as apostas na saída tanto do ministro da Defesa, Waldir Pires, cujo desempenho já não vinha agradando ao presidente, como do comandante da Aeronáutica, brigadeiro Luiz Carlos Bueno, que vem divergindo da orientação do ministro no caso dos controladores.


Desde o início da crise, há 10 dias, o clima entre o comandante da Aeronáutica e o ministro da Defesa deteriorou-se porque foi aberta, por decisão de Pires, negociação direta com os controladores - civis e militares. Eles respondiam ao comando da Aeronáutica. Na visão militar, isso significa quebra da hierarquia.


A negociação de gratificação por função estressante, aberta por Waldir Pires, também foi, segundo uma fonte militar, a abertura de um grave precedente. Para piorar a situação, o ministro da Defesa teria impedido, na sexta-feira, que um representante do brigadeiro Bueno participasse de uma reunião com os controladores. Segundo fonte ouvida pelo Valor, que participa das negociações, a ausência de militares de alta patente na reunião de sexta-feira teria sido uma exigência dos controladores, na maioria sargentos da Aeronáutica, com medo de punições pelo movimento que lideraram.


A crise começou em 27 de outubro, quando os controladores, pressionados pelo recente acidente com o Boeing da Gol que matou 154 pessoas, decidiram adotar padrões mais rígidos de segurança. Elevaram a distância entre os aviões e reduziram de 20 para 14 o número máximo de aeronaves vigiadas por cada controlador. Isso provocou muitos atrasos e cancelamentos de vôos, transtornando o deslocamento de milhares de passageiros. Na madrugada do feriado de Finados, o sistema entrou em colapso. Nos aeroportos mais movimentados do país, as esperas foram de até 20 horas.


Além da negociação direta dos ministros Waldir Pires e Luiz Marinho (Trabalho) com representantes dos controladores, irritou o comando da Aeronáutica a possibilidade de esses profissionais passarem a receber uma gratificação por função estressante. Isso porque na rotina dos militares, são inúmeras as atividades com essa mesma característica - e foi aberto um precedente de difícil administração.


O ministro da Defesa defende a desmilitarização do controle de tráfego aéreo. Mas essa é uma posição que, para os militares, representa perda de poder e, tecnicamente, um retrocesso. Segundo os militares, desde os anos 70 o Brasil tem um sistema unificado de defesa do espaço aéreo e controle do tráfego civil, o que seria mais eficiente e barato. Por outro lado, Pires argumenta que nos mercados mais desenvolvidos, o controle aéreo é preponderantemente civil.


Segundo o Sindicato Nacional dos Trabalhadores em Proteção ao Vôo, o controle do tráfego aéreo em todo o país é realizado por 2.112 militares e 594 civis. A jornada é de 144 horas/mês, mas parte desses profissionais civis obteve decisão judicial que reduziu essa carga para 120 horas.


Um dos nome cogitados para substituir Bueno no comando da Aeronáutica é o do brigadeiro José Américo dos Santos, chefe do Estado-Maior do Ministério da Defesa. Trata-se de uma aposta óbvia porque, além de ser próximo de Pires, é desafeto de Bueno.


A situação nos principais aeroportos do país foi tranqüila ontem, segundo o Comando da Aeronáutica. O aeroporto de Congonhas começou a apresentar filas nos guichês à tarde, mas a Infraero considerou o movimento normal para um domingo de feriado prolongado. Em Brasília, até o final da tarde, não houve nenhum incidente no embarque e desembarque de passageiros. Segundo a Infraero, apenas três vôos chegaram com atraso ao longo do dia na capital federal.


(Daniel Rittner e Arnaldo Galvão | Valor Econômico)

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