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14/12/2006 - 14h34

Para evitar efeito cascata em atrasos, Anac quer mudar horários de vôos

BRASÍLIA - Em resposta à crise nos aeroportos, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) pode negociar com as companhias aéreas mudanças na grade de horários para reduzir o " efeito cascata " dos atrasos em vôos. O órgão vai fazer um estudo detalhado sobre a atual malha das empresas, que pode culminar no remanejamento de linhas. No estudo, a agência quer avaliar se há necessidade de diminuir escalas e conexões nas rotas domésticas.

O diagnóstico preliminar da Anac é que, embora grande parte dos atrasos esteja sendo provocada pelos problemas no controle de tráfego aéreo, o modelo de negócios adotado pelas companhias nos últimos anos, para reduzir custos e atrair passageiros, estimula esses atrasos e retarda a normalização dos vôos em dias de crise. Isso ocorre porque as empresas aéreas têm deixado seus aviões no ar durante um período cada vez maior. Na Gol, a média de utilização das aeronaves é de 14 horas por dia, e a TAM superou 12 horas diárias de uso.

A sobrecarga dos aviões dá mais eficiência às companhias, mas, quando começa a haver atrasos, gera freqüentemente um efeito cascata na grade de vôos, com desagradáveis conseqüências para os passageiros. Para a Anac, é importante verificar se não há excesso de escalas e conexões que potencializam esse efeito cascata - por exemplo, com vôos que atrasam sua decolagem devido à espera de passageiros em conexão.

" Queremos ter em mãos um estudo para evitar atrasos (das companhias), a não ser por problemas meteorológicos ou por problemas técnicos ocasionais " , disse ao Valor Leur Lomanto, diretor da Anac. Ele informou que a diretoria colegiada aprovou, terça-feira, a criação de um grupo de trabalho para elaborar o levantamento. Mas ressaltou que é preciso estudar a malha aérea atual com cuidado, sem conclusões precipitadas.

A possibilidade de interferência da Anac na grade de vôos causa preocupação nas aéreas. " No mundo inteiro, cada vez mais se usa a aeronave " , disse o diretor de relações institucionais da TAM, Paulo Castello Branco. " A lei da Anac diz que as empresas têm autonomia para organizar as suas próprias malhas aéreas e com liberdade de tarifa " , completou.

Em audiência pública na Câmara dos Deputados, o diretor-presidente da Anac, Milton Zuanazzi, reconheceu que a situação nos aeroportos brasileiros " ainda não será a ideal " no Natal. Ele ressaltou, porém, que foram tomadas todas as medidas possíveis para amenizar a crise e, em fevereiro, serão incorporados novos controladores de vôo às equipes que monitoram o tráfego aéreo. Zuanazzi também chama a atenção para um fato importante: embora aumente o número de passageiros nos vôos, a quantidade de aviões não cresce durante as festas de fim de ano.

O presidente da Anac pediu tranqüilidade à população e disse que o controle de tráfego " virou a Geni " . " Estamos observando um certo terrorismo no país " , criticou Zuanazzi. Ele citou especificamente os temores gerados a partir da divulgação da existência de uma zona cega na região de transferência do Cindacta-1 (Brasília) para o Cindacta-4 (Manaus). " Não quero tapar o sol com a peneira, dizer que o problema não existe, mas também não tem nenhum sentido afirmar que esse buraco negro é um caos para o espaço aéreo brasileiro " , afirmou. " Se fosse assim, seria um temor cruzar o Oceano Atlântico, que é um mar negro. "

Segundo ele, foi fechado um acordo com as companhias aéreas que fazem vôos fretados (charter) para evitar horários de pico no Natal. Estão programados para o fim do ano 474 vôos charter internacionais para o Brasil, informou. Mas eles atingem pouco a região coberta pelo Cindacta-1.

Na audiência, o comandante da Aeronáutica, Luiz Carlos Bueno, admitiu que os controladores de vôo " mais experientes " monitoravam além de 14 aviões simultaneamente " para agilizar os vôos " . Esse procedimento foi interrompido após o acidente com o Boeing da Gol, que matou 154 pessoas, mas Bueno ressaltou que nunca houve orientação da Aeronáutica para sobrecarregar os técnicos do Cindacta-1. Ele descartou a hipótese de uma operação-padrão dos controladores no Natal.

(Daniel Rittner | Valor Econômico )

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