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Responsabilidade Social e Ética
Por Engel Paschoal
23/04/2007 - 14h26
Brincar, mesmo com videogames, ajuda a criança a aprender
Jogar bola, brincar de esconde-esconde, pique, "sargento-está-quem-não-está?", mata-mata com bolinha de gude. Aos 7, 8 anos, eu era feliz e não sabia. Depois que voltava da escola, tinha a tarde e parte da noite para brincar. Não havia lição de casa para ser feita porque o período na escola era suficiente para o professor ensinar e nós, aprendermos. Não sabia que brincar ajudava a aprender, nem imaginava que um dia ia ter pesquisa para provar.

Divulgada no fim de fevereiro, pesquisa feita para o Instituto Unilever com crianças de 6 a 12 anos de 77 cidades brasileiras em todo o País reafirmou o que até eu agora já sei: brincar faz bem. Intitulada "A Descoberta do Brincar", estudou o desenvolvimento de crianças para mostrar a relação entre o brincar e a educação, revelando que meninos e meninas se tornam mais aptos a desenvolver, positivamente, os aspectos psicológico, emocional, cognitivo e social quando brincam.

Segundo a canadense Ann Marie Guilmete, presidente da Associação para o Estudo do Brincar (The Association for the Study of Play - Tasp), a importância entre o ensino e a brincadeira está diretamente relacionada: "Uma criança que apenas cumpre obrigações e deixa de brincar não será um adulto criativo, capaz e completo" (Jornal de Brasília, 5/3/07).

A pesquisa -- foram feitas 1.014 entrevistas, representando cerca de 31,5 milhões de pais e 24,3 milhões de filhos de todas as classes sócio-econômicas -- traz dados das brincadeiras preferidas das crianças brasileiras e o grau de participação dos pais. Revelou que apenas 53% dos pais brincam com os filhos diariamente. Mas o dado que mais chamou a atenção de especialistas é que somente 14% dizem que brincar com os filhos é uma das atividades que mais lhes dão prazer.

Sem ter com quem brincar, a criança passa a maior parte do seu tempo em frente à TV. "Mesmo diante da TV, a criança precisa do acompanhamento dos pais, que podem selecionar os programas. Caso contrário, ficam expostas à violência e ao consumismo. E o adulto perde uma grande oportunidade de ensinar valores", diz Marilena Flores, presidente da Associação Brasileira pelo Direito de Brincar (IPA), que participou das análises dos dados da pesquisa (O Globo, 25/2/07).

Já há algum tempo temos notícias sobre a relação entre brincar e aprender. "Brincando também se ensina. Foi com este pensamento que o Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento (CPCD) criou uma tecnologia social capaz de transformar os árduos deveres de casa em atividades lúdicas e agradáveis. O Bornal de Jogos, como é chamada, é uma sacola que possui 90 jogos adaptados, ou criados, para uso educacional" (site Cidadania-e, 1/8/02). O CPCD é uma ONG fundada em 1984, em Belo Horizonte, MG.

"Abolimos o conceito de 'reforço escolar' e, em troca, instituímos o 'aprender brincando e brincando de aprender'", contou ao site a diretora do Centro, Doralice Mota. O primeiro Bornal nasceu da necessidade de ajudar crianças e adolescentes, de 7 a 14 anos, que participavam do Projeto Ser Criança, do CPCD.

Como as crianças tinham dificuldades de aprender e não conseguiam fazer os deveres da escola, os educadores da ONG começaram a adaptar jogos conhecidos e usá-los com as crianças. O jogo de damas, por exemplo, foi transformado em "damática", para ensinar matemática.

Especialistas em ludoeducação vão mais longe: "Eles acham que qualquer brinquedo -- mesmo os de forte apelo comercial [aí incluídos os videogames] -- pode ser boa ferramenta para que a criança desenvolva suas potencialidades, se não ocorrer o uso abusivo e exclusivo". É o que dizia a matéria "Brincadeira levada a sério" do extinto suplemento Sinapse (nº 5, 26/11/02), da Folha de S.Paulo.

Vale a pena reler trecho da matéria: "Cada vez mais, os pais, tendo em vista a competitividade que seus filhos enfrentarão, preferem as atividades educativas, transformando as crianças em miniexecutivos. Mas os especialistas advertem para a necessidade de um equilíbrio, de modo que não seja restringida a oportunidade de as crianças fazerem descobertas por si próprias e desenvolverem a criatividade elaborando suas próprias brincadeiras. Jan Van Gils, diretor do Centro de Pesquisas sobre Infância e Sociedade da Bélgica e presidente da IPA [International Association for the Child's Right to Play, associação internacional para o direito da criança de brincar], ilustra tal entendimento com um exemplo próximo da realidade brasileira. Para ele, 'o Brasil produz jogadores tão bons em alta escala porque a maioria das suas crianças brinca de futebol, enquanto, nos outros países, elas jogam futebol'".

Infelizmente, de modo geral hoje o ensino em nosso país "é brincadeira", para usar expressão que significa bem o contrário. Mas sem dúvida ensinar -- e aprender -- não deve ser sinônimo de tortura para ninguém.


Engel Paschoal é jornalista, especialista em assuntos relacionados ao chamado terceiro setor, e realiza cursos e palestras sobre responsabilidade social. Este artigo somente poderá ser reproduzido ou publicado com autorização prévia do autor. E-mail: engelpaschoal@uol.com.br


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