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Especial Enem

24/08/2007 - 00h00
Um ponto esquecido do Enem: a leitura da imagem

Paulo Ramos*

A leitura da imagem -isso mesmo, leitura da imagem- faz parte de uma das cinco competências que fundamentam o teste do Enem.

O aluno, dizem os responsáveis pela prova, deve dominar a norma culta da língua portuguesa e diferentes linguagens, a artística entre elas.

É por isso que o exame pede questões com obras de arte e histórias em quadrinhos.

Algumas levavam ao extremo a necessidade da leitura visual. Mostravam a imagem e pediam ao estudante que indicasse a alternativa correta com base no que leram. As palavras só apareciam nas alternativas a serem preenchidas.

Tudo fica mais fácil com exemplo. Vamos a um deles, da prova de 2004:



Antes de tudo, o contexto de produção. A tira cômica, um dos gêneros das histórias em quadrinhos, é da personagem Mafalda, criada pelo argentino Quino. As histórias críticas dela não são mais publicadas, mas estão entre as preferidas dos exames vestibulares.

Mafalda é a menininha que aparece no meio nos três primeiros quadrinhos e com mais destaque no último.

Ela lança a pergunta aos colegas: "Para onde vocês acham que a humanidade está indo?" Os dois meninos transformam a resposta, "para a frente", numa disputa verbal. Nenhum cede à possibilidade de a "frente" do outro.

Esse desfecho inesperado é o que provoca o efeito de humor da tira, assim como ocorre com as piadas (meu doutorado na Faculdade de Letras da Universidade de São Paulo foi exatamente sobre esse tema).

O Enem propunha ao aluno cinco alternativas, que deveriam completar esta frase: "A conversa entre Mafalda e seus amigos..."

a)revela a real dificuldade de entendimento entre posições que pareciam convergir.
b)desvaloriza a diversidade social e cultural e a capacidade de entendimento e respeito entre as pessoas.
c)expressa o predomínio de uma forma de pensar e a possibilidade de entendimento entre posições divergentes.
d)ilustra a possibilidade de entendimento e de respeito entre as pessoas a partir do debate político de idéias.
e)mostra a preponderância do ponto de vista masculino nas discussões políticas para superar divergências.

E aí? Você responderia o quê?

Em cada frase, há uma palavra-chave ou expressão que desqualifica a alternativa, com base no lido -em palavras e imagens- no texto da tira. Não se trata desvalorização (na "b"), de possibilidade de entendimento (na "c" e na "d"), de ponto de vista masculino (na "e").

O que nos leva à alternativa "a". As opiniões caminhavam para a convergência quando teve início o impasse entre os dois meninos.

Na mesma prova de 2004, havia outras duas questões com tiras (de "Frank & Ernest" e de "Hagar"), mais uma na proposta de redação (de "Pescoçudos") e uma série de pinturas numa questão sobre trecho de texto de Cândido Portinari (1903-1962).

Demorou muito tempo para que o elemento visual fosse incluído no conteúdo pedagógico. Isso ainda não ocorreu como deveria. Existe resistência de alguns em inserir a imagem na sala de aula, talvez por entender que ela não seja tão relevante quanto a palavra.

É uma visão estreita. Em muitos casos, ela é até mais complexa de ser compreendida do que a palavra.

O Enem inclui sabiamente a imagem em suas questões. E também a leitura dela, dentro do texto em que está inserida. Texto é palavra, elemento verbal escrito. Mas é também imagem, entendida dentro de um contexto de produção.

Tenha isso em mente domingo.

Leia mais:
  • Antes de fazer o Enem, saiba o que é texto

    *Paulo Ramos é jornalista, professor universitário e doutor em Língua Portuguesa pela USP. Ele é também consultor de português do grupo Folha/UOL.