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Joice diz que 'PSL raiz' a defende e fala em rever plano diretor de SP

Do UOL, em São Paulo

03/09/2020 12h45

Candidata à prefeitura de São Paulo, a deputada federal Joice Hasselmann (PSL-SP) disse hoje, em participação no UOL Entrevista, que há um racha dentro do próprio partido, e não especificamente em relação à sua candidatura. Segundo ela, o "PSL raiz" defende o seu nome na disputa pela prefeitura da capital paulista.

A candidatura de Joice foi oficializada pelo PSL em meio a pressões da ala bolsonarista do partido para que fosse escolhido um nome mais ligado ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido), que chegou à presidência quando ainda era filiado à sigla. Aliada de primeira hora de Bolsonaro, Joice chegou a ser líder do governo no Congresso Nacional, mas rompeu com o presidente.

"Sempre em época de pré-convenção é aquela confusão, você tem um nome para cá, outro pra lá, não existe unanimidade", disse. "A diferença é que, no meu partido as grandes discussões muitas vezes são da porta para fora. Pessoal não aprendeu ainda discutir da porta para dentro", afirmou Joice em entrevista à colunista do UOL Maria Carolina Trevisan e ao repórter Wanderley Preite Sobrinho.

A deputada declarou, então, que "não é um racha em relação à minha candidatura, é um racha em relação ao próprio PSL". Joice ainda disse que muitos parlamentares que se elegeram pelo PSL acabaram embarcando no "barco furado" do Aliança pelo Brasil, partido que Bolsonaro pretendia criar, mas que até hoje acabou não saindo do papel.

"Esses 'aliancistas' não são o PSL raiz, não são liberais de verdade na economia. É quase uma claque que aplaude qualquer coisa que o governo faz", afirmou. "Esses aí têm que tocar a vida deles, sou a favor que vão pra outro partido. O PSL raiz me apoia. Tanto que fizemos a convenção, dois nomes foram apresentados e o meu foi escolhido por unanimidade".

Escolha do vice

Para compor sua chapa, Joice escolheu como candidato a vice o empresário Ivan Leão Sayeg, gesto que barrou uma possível aproximação da candidatura com a ala mais bolsonarista do partido. Aliado de Bolsonaro, o deputado Luiz Philippe de Orleans e Bragança (PSL-SP) pleiteava a vaga.

"Em relação ao vice, o Ivan tem alguns pontos que convergem muito com as minhas ideias. É um lava-jatista, paulista da gema, conhece a cidade, traz equilíbrio para a minha chapa", disse a deputada, ressaltando que não queria um vice político. "Não estou nem aí se é político, se não é político. Eu quero realmente alguém que traga uma experiência de gestão na área privada para a área pública."

"Houve uma conversa também com o príncipe [o deputado Luiz Philippe], porém, por mais respeito que eu tenha por ele, seria muito desagregador trazer esse pessoal que me atacou tanto como mulher e parlamentar. Há limite para as coisas. A pessoa do príncipe, a figura dele, eu gosto muito, nós temos uma relação super republicana".

Planos para São Paulo

A deputada disse ainda que defende uma revisão do plano diretor de São Paulo e afirmou que uma alternativa para isso seria a realização de parcerias público-privadas —porque, segundo ela, a cidade não tem dinheiro.

"A gente tem que mudar o adensamento. O plano diretor de São Paulo é um Frankenstein, empurra as pessoas para fora, inclusive a classe média", disse. "A gente vai rever e acabou. Quero fazer parcerias público-privadas, tenho conversado com pessoas ligadas ao sindicato da construção".

A deputada disse ainda que propostas direcionadas para as periferias não precisam ser "inovadoras". "Basta [ter] uma proposta", afirmou.

Comparando o tamanho da capital paulista ao de um país, Joice afirmou ainda não ser possível fazer um projeto genérico para as regiões periféricas como um todo. "Você tem que mapear o que aquela periferia precisa, porque o que o extremo sul precisa não é o que o extremo norte precisa. Paraisópolis é uma cidade", disse.

"Que sentido tem alguém sair dali e ficar 3h no ônibus para chegar no emprego? Por que não há centrinhos de comércio nessa região, capacitação de mão de obra?", questionou. Segundo ela, há empresas de fora do Brasil interessadas em "colocar dinheiro" nessas áreas.

A deputada afirmou, no entanto, que projetos desse tipo não são liberados sem o envolvimento de propina. "A prefeitura virou um propinoduto, você não abre uma portinha se não molhar a mão de um fiscal", disse Joice, que defendeu a existência de mandatos para a controladoria do município como forma de combater a prática.

Perguntada sobre a cracolândia e a vulnerabilidade social dos usuários de drogas na capital, Joice disse ser preciso atuar em duas frentes: a prisão dos traficantes e o tratamento dos usuários, tanto pela aproximação com as igrejas como pela internação compulsória. "A cracolândia não foi desmontada coisa nenhuma, estava concentrada em um lugar [e agora] está espalhada pela cidade toda. A solução não pode ser única, tem que ser mista", disse.

"Para o traficante é cana, é operação. O usuário de drogas, qual o nível do vício dele? Se está em um nível em que é possível fazer uma recuperação com tratamento, trazendo as igrejas pra dentro, reaproximação da família. Não vai ser o fiscal da prefeitura, a GCM que vai chegar lá e conseguir dar um abraço nessa pessoa. As pessoas passam e fingem que não enxergam. Para quem está perdendo a batalha, [não há alternativa] a não ser internação compulsória", afirmou.

Centrão vai "violentar" governo

A deputada também afirmou que, desde a sua saída da liderança no Congresso, a "porta foi escancarada" e o Centrão vai violentar o governo.

Sem especificar a fonte do cálculo, Joice disse que a aliança com o Centrão "custou R$ 200 bilhões" e que deve constranger o presidente Bolsonaro, já que muitos que o "achincalhavam" agora posam "abraçadinhos".

"Agora aqueles que ele rotulava de corruptos estão lá do lado, abraçadinhos, rebatizando programas do PT. Fico triste porque se perdeu a autonomia. O governo se colocou no colo do Centrão", disse.

Aborto deve ser debatido por mulheres

A deputada, que se apresentou como conservadora e evangélica, disse ser contrária à legalização do aborto, mas afirmou que esse é um assunto que deve ser debatido por mulheres. Ela ponderou, no entanto, que é a favor da manutenção da legislação atual, que prevê a possibilidade de interrupção da gravidez em caso de estupro.

"Legalizar o aborto eu sou contra. Ponto. Acho que é um assunto que deve ser discutido mais pelas mulheres do que pelos homens. São 77 mulheres [na Câmara dos Deputados] e só os marmanjos que decidem como devemos agir. Tem que ter mais mulheres", disse Joice.

Especificamente sobre a previsão de aborto em casos de estupro, Joice disse que a mulher não pode ser penalizada duas vezes. Por isso, seria cruel exigir que ela levasse a gravidez adiante.

"[Minha posição] É como a legislação prevê, é muito cruel exigir de uma mulher que já passou por toda essa violência. Mulher não pode ser penalizada duas vezes", disse.