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Disputa por cidade litorânea abre racha inédito no maior clã político de AL

Praia do Pontal de Coruripe, em Alagoas; racha em família movimenta eleição na cidade - Divulgação/Prefeitura de Coruripe
Praia do Pontal de Coruripe, em Alagoas; racha em família movimenta eleição na cidade Imagem: Divulgação/Prefeitura de Coruripe

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

27/09/2020 04h00

As eleições no litoral sul de Alagoas têm uma novidade em 2020: a família que comanda mais municípios e tem mais deputados no estado rachou e terá pela primeira vez uma disputa entre si pelo comando da cidade de origem do grupo: Coruripe.

A disputa opõe o administrador Maykon Beltrão (MDB) e o deputado estadual Marcelo Beltrão (PP).

A família governa ininterruptamente Coruripe desde 1997, ou há 23 anos. Já expandiu seu poder para controlar quase todo o litoral sul. Em 2016, os Beltrão fizeram cinco prefeitos na região. Dois anos depois, alcançaram outra marca inédita: elegeram três deputados estaduais e um federal.

Mas agora Marcelo e Maykon iniciam o que marca uma disputa pelo espólio político da família após a morte do patriarca, o ex-deputado João Beltrão, em 2019.

Ambos já foram prefeitos em cidades menores da região: Marcelo em Jequiá da Praia; Maykon em Feliz de Deserto. Mas é Coruripe, cidade de belas praias, o "filé mignon" da região. A cidade tem o maior PIB (Produto Interno bruto) per capita da região e foi apontada como a mais desenvolvida do estado, segundo índice Firjan de 2018.

Marcelo: "Somos família, mas somos dois grupos"

No final do ano passado, Marcelo passou a anunciar o interesse de se candidatar em Coruripe, desrespeitando um suposto acordo da família em torno de Maykon. Era esperado que, ao fim, um consenso familiar prevalecesse. Mas ele surpreendeu, acirrando os ânimos familiares ao se candidatar em Coruripe e indicar sua mulher, Lili, como vice de Felipe Jatobá (PP) —de família rival aos Beltrão— à prefeitura vizinha de Jequiá da Praia.

O deputado estadual Marcelo Beltrão (PP) - Divulgação - Divulgação
O deputado estadual Marcelo Beltrão (PP)
Imagem: Divulgação

Marcelo afirma que os problemas com a família começaram ainda 2018, quando ele diz ter sido "preterido" na escolha do "candidato da família" a deputado estadual na região.

"Eu que ia ser o candidato da família. Estranhamente, após o acerto feito, houve mudança, e a decisão foi apoiar a candidatura do Yvan [Beltrão, que também foi eleito deputado estadual]. Fui tratado como um forasteiro em relação ao grupo, foi uma dificuldade fazer campanha em Coruripe. Ali a gente já tomou um posicionamento independente. Nosso mandato já não tinha ligação com ordenamento do núcleo político do Marx [Beltrão, deputado federal do grupo e irmão de Maykon]. Somos uma família, mas somos dois grupos", diz.

Marcelo disse que, após a eleição em 2018, não houve um afastamento completo da família e se buscou um consenso. Ele diz que isso durou até perceber que seria "preterido de novo."

"O nome do Maykon foi lançado, mas não era o único. Começou a se discutir uma candidatura de consenso. Porém houve uma imposição do Marx [Beltrão], e essa união não se tornou possível. À medida que o tempo foi passando, percebemos que a situação [da prefeitura] não tinha interesse da minha presença e que a oposição não me convocaria. Notei a importância de dar uma opção à população; tenho um projeto de gestão", afirma.

Marx: "Quer desculpa para justificar traição"

O deputado federal da família Marx Beltrão (PSD) é ex-ministro do Turismo no governo Michel Temer e apontado como maior herdeiro político do patriarca João Beltrão.

Marx é um pote de mágoas com a atitude do primo. Ele lembra que ambos fizeram dobradinha na campanha de 2018 e nega que tenha havido racha à época. "Foi santinho, cartaz, propaganda, todo material junto. Pedi voto para ele em tudo o que foi cidade de Alagoas —com exceção de Marechal Deodoro, onde fiz um outro acordo. É mentira que ele foi preterido, nós estávamos juntos toda a campanha, têm vários vídeos mostrando isso. Não sei como ele tem coragem de negar", diz.

O deputado federal também afirma que Marcelo mente ao dizer que houve imposição do nome do irmão à candidatura em Coruripe. "Ele quer é uma desculpa para justificar a traição", diz.

O administrador Maykon Beltrão (MDB) - Divulgação - Divulgação
O administrador Maykon Beltrão (MDB)
Imagem: Divulgação

Marx afirma que o acordo para que a família lançasse Maykon à Prefeitura de Coruripe foi feito ainda em 2018 e com a anuência de Marcelo. Isso ocorreu porque Maykon seria candidato a deputado federal no lugar de Marx, que planejava ser candidato a senador.

"Como a conjuntura política me obrigou a recuar e retomei a candidatura de deputado federal, ficou certo que Maykon não se candidataria e iria trabalhar a partir dali para a disputa da prefeitura em 2020. Marcelo participou disso. O plano inicial era para ele ser o candidato a federal da família, mas ele não quis, preferiu a Assembleia", diz.

Ainda segundo Marx, o grupo comandado por ele tentou até o último instante costurar um acordo com Marcelo neste ano, inclusive oferecendo a ele a opção de indicar o vice.

"A gente debateu todo um cenário, das cidades no litoral sul que seriam de apoio a um ou a outro. Foi tudo dividido. Foram várias reuniões. Eu tive diálogo, tentei, esperei até o último momento, e ele não teve coragem de vir a mim dizer a sua decisão. Eu só soube por terceiros. E ele ainda juntou com todo mundo que faz oposição não só a mim, mas a todos nós [da família], na verdade."

Se ele queria ser prefeito de Coruripe, que esperasse a vez dele, mas não era agora! Que ele concluísse o mandato que o povo lhe deu e depois isso viria
Marx Beltrão, ex-ministro do Turismo

Família domina Alagoas

O racha da família, porém, não trará uma disputa equilibrada do ponto de vista de apoios. Dos 15 vereadores de Coruripe, 14 estão com Maykon. O prefeito Joaquim Beltrão (MDB) e o governador Renan Filho (MDB) também o apoiam. "Eu só tenho um vereador. Também não tenho lideranças, só alguns amigos. Será uma luta de Davi contra Golias", compara Marcelo.

Para a disputa, Marcelo conta com apoio apenas do núcleo mais próximo dele: os prefeitos de Penedo, Marcius Beltrão, que é seu irmão; e a prefeita Feliz Deserto, Rosiana Beltrão, que é sua madrasta.

Sobre Maykon, Marcelo diz que ele é um camarada "gente boa", mas fez uma má administração em Feliz Deserto e por isso não deveria ser o candidato da família. "A minha campanha não vai ter ataque pessoal. Vou para o campo das ideias, tenho experiência em gestão pública para mostrar", diz.

Já Maykon também promete uma campanha propositiva, mas eleva o tom quando fala em defesa da família. "Não sou eu que tenho que dar explicações à população sobre me unir aos maiores opositores da família Beltrão em Coruripe e Jequiá da Praia. Não fui eu que busquei apoio dos adversários. Não estarei no palanque que sempre foi oposição ao meu grupo político. Estou do lado que eu sempre estive desde que meu pai foi prefeito. É o mesmo grupo político que permanece unido", afirma.

Para ele, a saída de Marcelo do grupo pode ser encarada como uma ingratidão. "Foi João Beltrão que elegeu todos da família nas cidades de Coruripe, Jequiá da Praia, Feliz Deserto, Piaçabuçu e Penedo. Graças a ele que hoje a família Beltrão é conhecida em todo o estado. O meu grupo político continua unido e respeitando o que sempre foi defendido pelo líder João Beltrão."

Marcelo, por sua vez, diz que a disputa política não deveria ser levada para o lado pessoal. "Não vejo como um racha [da família]. Não tenho o sentimento de ruptura da família, mas apenas de uma discordância de candidatura que não contemplava os anseios da comunidade. Não foi algo de cunho pessoal, foi de cunho político diante de tanta imposição", afirma.

Já o Marx Beltrão não esconde a ferida com a decisão de Marcelo e diz que nem mesmo uma renúncia da candidatura agora o reaproximaria do primo. "Eu fiz tudo até o último minuto para estarmos juntos. Olha, claro que, se souber que alguém vai fazer o mal a Marcelo, eu não vou deixar. Mas não quero mais estender a mão a ele; jamais quero pegar na mão dele de novo. Foi uma covardia muito grande não só comigo, mas com tios, meu irmão, meu pai."