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28/10/2008 - 16h40

Estudar para virar funcionário público é profissão em Brasília

Juliana Doretto
Em Brasília

De fato, a arquitetura é diferente, as ruas lembram autopistas e o sol do cerrado castiga. Mas não é apenas por essa combinação que Brasília se distingue de outras cidades do país. Na capital federal, é tão fácil se deparar com um prédio do arquiteto Oscar Niemeyer quanto achar gente que largou tudo e foi estudar para concurso, para virar servidor público.

As bibliotecas dos órgãos públicos estão sempre ocupadas, não só de servidores em busca de informações a serem usadas em serviço, mas principalmente por concurseiros: denominação para aqueles que, no momento, tem como profissão passar em uma prova e virar funcionário do governo. Em Brasília, eles parecem proliferar.

José Gonçalo/Divulgação
Ala dos Estudantes, em Brasília
Juliana Doretto
Os amigos Rogério Dourado, Aline Matos, Hugo Bittencourt e Alex da Silva
A explicação para isso pode estar nos números. Segundo o Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos), em agosto deste ano, cerca de 8% das pessoas com trabalho na região metropolitana de São Paulo estavam empregadas no setor público. No Distrito Federal, o número sobe para cerca de 16%.

Além disso, pesquisa da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), de São Paulo, indica que os salários dos funcionários do setor privado com carteira assinada correspondem, em média, a apenas 62,6% dos salários dos servidores públicos estatutários.

"Aqui não tem muita empresa privada, não tem indústria, mas temos a opção de ter muita vaga de servidor. Além disso, tem a estabilidade. Se o seu chefe estiver de mau humor, ele não pode mandar você embora", conta Ligia Franco, 31, que já entrou na faculdade de direito pensando em ser delegada da PF (Polícia Federal).

A bacharel em direito largou o emprego em agosto do ano passado, após ter juntado dinheiro e feito o que ela chama de sua "bolsa" de estudos. E quando a verba acabar? Aí, o apoio da família entra em ação.

"Aqui é comum o pai dar subsídio para os filhos prestarem concurso", diz o administrador Rogério Dourado, 28, que estuda dez horas por dia em média e foca em concursos do Judicário.

Superlotação na biblioteca
Há, entre as bibliotecas da cidade, aquelas que são mais disputadas. Enquanto no Ministério das Relações Exteriores apenas três mulheres ocupavam as mesas durante a visita do UOL Empregos, na Ala dos Estudantes, na sede da LBV (Legião da Boa Vontade), chega a haver filas.

Nem é de graça estudar ali. A entidade cobra R$ 1 por dia e diz que é para a manutenção do prédio. Mesmo assim, é comum os estudantes perguntarem à atendente da recepção: "Tem lugar, hoje?". Os concurseiros dizem que é um dos ambientes mais quietos para estudo na cidade -- de fato, não se houve nem uma caneta caindo no chão -- e que o barulho da fonte que há no espaço ajuda a se concentrar. Para entrar, é preciso ter cadastro; e são 4.214 com ficha.

Mas por que sair de casa para estudar? "Aqui em Brasília, isso é muito comum. Pouca gente consegue estudar em casa. Você vem para cá todo dia. É como se fosse um trabalho", diz Daniela Camargo Meira, 31, que estudava na biblioteca do Senado, não apenas para o concurso do próprio órgão mas também para o da Abin (Agência Brasileira de Inteligência), que teve a prova aplicada no dia 12.

André Ferreira, 28, que estuda desde fevereiro e é freqüentador da Ala dos Estudantes, diz que começou estudando em casa, mas um dia contabilizou todos os minutos em que faz paradas maiores -- para "beber um café", por exemplo -- e percebeu que, mesmo ficando oito a dez horas se dedicando aos estudos, passava apenas duas ou três concentrado de fato.

Nas mesas das quietas bibliotecas, tem até paquera. "A gente dá aquela olhadinha", diz Ligia Franco. Mas sem perder o foco. Ela não exagera na saída com os amigos e não deixa de estudar nem depois de uma prova.
Isso porque, enquanto o concurso para delegado da PF não chega, ela vai prestando outros exames. Prática, aliás, comum entre os concursandos. "Você vai ganhando ritmo de prova", diz. E conta que, mesmo se passar em uma seleção mais fácil, não vai desistir da Polícia Federal.

Concurso mais simples não quer dizer nível educacional mais baixo. Aline Matos, 28, formada em biblioteconomia, fez as duas provas do Tribunal de Justiça do DF: para analista, que exige nível superior, e técnico (nível médio). Os salários eram, respectivamente, de R$ 5.484,08 e de R$ 3.323,52; o segundo posto teve quase 16 mil candidatos a mais que o primeiro, com número de vagas praticamente igual.

Para analista, ela foi classificada entre os 20 primeiros; no segundo cargo, ocupava posição na casa dos 2.000. "As provas do nível médio são cada vez mais aprofundadas. A banca quer selecionar os melhores candidatos. Quem passa em geral tem curso superior."

Ajuda do chefe
Enquanto na iniciativa privada é exceção contar ao chefe que está participando de outro processo seletivo, no funcionalismo, o superior até incentiva os estudos.

Lianna Tsuno, 27, já é funcionária do Ministério da Saúde, mas não é concursada (tem contrato de um ano). Para não perder o trabalho, ela vai participar do novo concurso do órgão, cujos aprovados vão provalvelmente substituí-la. Sua chefe flexibiliza seu horário para que ela possa freqüentar as aulas do cursinho preparatório. E o estudo não se limita aos dias úteis. Pode haver aulas de sábado, domingo e feriados. E com casa cheia.

E a vocação? Tem lugar para ela? Alex José da Silva, 25, diz que chega a ficar 18 horas por dia debruçado nos livros. Para isso, abandonou a profissão de DJ. "Quero ser agente da PF. O DJ será uma diversão. É uma profissão que dá dinheiro e não ocupa muito tempo. Mas e quando eu tiver 50 anos? Eu quero estabilidade."

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