UOL Notícias
 

10/11/2009

Vinte anos depois, Collor canta 'Lula-lá', e petistas e tucanos são inimigos

Haroldo Ceravolo Sereza e Marcio Pinheiro* Do UOL Notícias Em São Paulo

De 1989 para cá, o que mudou na política brasileira?

No dia 15 de novembro de 1989, o Brasil votou pela primeira vez para presidente da República após o fim da ditadura, numa eleição com mais de 20 candidatos na disputa e rivalidades viscerais que eles não tinham o cuidado de disfarçar.

Eleições 1989: 20 anos depois, Collor canta jingle 'Lula-lá'

De lá até hoje, alguns rancores foram mais ou menos superados, novos foram criados, mas nada se compara ao fato de o hoje senador Fernando Collor integrar a base de apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Senado. Collor (ex-PRN, hoje PTB) não apenas apoia Lula (PT) - entrevistado pelo UOL Notícias para este especial, disse não se lembrar de seus jingles de campanha, mas cantou o de Lula, o "Lula-lá" (assista ao vídeo acima).

COLLOR

Aquele coral de atores, atrizes, todas cantando essa música, com aquela bandeira vermelha, a estrela branca tremulando por trás, eu ia dormindo e acordava cantando a música do Lula

A partir de hoje, o UOL Notícias publica uma série de reportagens especiais sobre a eleição de 1989. Foram entrevistados os candidatos a presidente Fernando Collor, Paulo Maluf, Guilherme Afif Domingos, Ronaldo Caiado e Fernando Gabeira, o ex-presidente José Sarney e marqueteiros de Lula e de Collor. Lula disse não dispor de espaço na agenda para atender à solicitação de entrevista.

Lula foi o principal adversário de Fernando Collor, que acabou eleito presidente - em 1992, o PT foi um dos principais responsáveis pelas investigações da Comissão Parlamentar de Inquérito que levaram, após uma série de denúncias de corrupção, Collor a sofrer o impeachment e ser afastado da Presidência.

Collor, por sua vez, atacava duramente o presidente José Sarney (PMDB), que deu um chega pra lá no candidato do seu partido, Ulysses Guimarães (traído por quase todo seu partido, assim como Aureliano Chaves, o candidato do então Partido da Frente Liberal, o PFL, hoje DEM).

SARNEY

Dormi em todas as escolas militares, antes de deixar [a Presidência]. Fui à Academia da Força Aérea, fui a Resende, conversando com os chefes militares sobre a democracia, a eleição e tudo

Leonel Brizola (PDT), o terceiro colocado no primeiro turno - e que por pouco não chegou ao segundo turno -, batia sem dó no dono da Rede Globo, Roberto Marinho, que fez o que pôde para evitar que seu adversário chegasse à Presidência da República, segundo relatos do próprio vencedor, Fernando Collor.

Mesmo os candidatos dos pequenos partidos acreditavam enfrentar quixotescamente seus moinhos de vento. Ronaldo Caiado, então no minúsculo PSD, obteve menos de 1% dos votos, mas hoje relembra: "Meus inimigos eram... o Lula".





COLLOR

No dia seguinte ao debate, eu recebo a notícia de que o Ibope estava divulgando no 'Jornal Nacional' uma pesquisa em que me colocava à frente do Lula apenas um ponto. Quando soube disso, eu disse...
perdi a eleição

A eleição de 1989 foi solteira: ao contrário do que ocorreu a partir de 1994, a eleição presidencial não foi acompanhada de disputas para governador, senador e deputado. Essa situação favoreceu o surgimento de inúmeros candidatos - muitos não interessados na Presidência, mas apenas para tornar o nome e o partido mais conhecidos nacionalmente para disputas posteriores.

Concorreram 22 candidatos, sem contar o empresário Silvio Santos, que, na última hora, tentou entrar na disputa pelo PFL. Sem conseguir, buscou abrigo no obscuro PMB, no lugar de Armando Corrêa, que renunciou à disputa. A candidatura de Silvio, articulada por aliados do presidente José Sarney, acabou impugnada pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral), que encontrou problemas legais no PMB e excluiu o dono do SBT da corrida presidencial.

AFIF

Fizemos uma análise, numa linguagem de marketing, de que era uma eleição mais de produto que de fabricante

A ausência de grandes coligações, bem como uma economia desorganizada pela hiperinflação no final do governo Sarney, construiu um cenário em que os partidos tradicionais - como PMDB e PFL, que dominavam as políticas federal e estaduais - racharam, abrindo espaço para novos nomes. O eleitor queria novidade.

A disputa de 1989 renovou, consolidou e fez surgir personagens nacionais na política brasileira - seja na atuação como protagonista ou coadjuvantes.

Vinte anos depois, o segundo colocado Lula é presidente da República. Sarney ocupa, pela terceira vez no período democrático, a presidência do Senado. Collor é senador da base de apoio a Lula.

GABEIRA

Foi uma eleição
completa

Brizola, morto em 2004, apoiou Lula no segundo turno de 1989 e foi candidato a vice do petista em 1998. O partido dele, o PDT, integra o governo e controla o politicamente importante Ministério do Trabalho.

Mário Covas (PSDB), quarto colocado, foi eleito governador de São Paulo duas vezes, em 1994 e 1998. Os tucanos apoiaram Lula ostensivamente no segundo turno em 1989, mas, a partir de 1994, passaram a polarizar com o PT a política nacional, tratando-se, muitas vezes, como inimigos.

Maluf (PDS, hoje PP), que em 1985 disputou a Presidência numa eleição indireta, deixou o posto de protagonista para virar coadjuvante deputado da base de Lula (que não cansa de "espetar", embora goste de elogiar a ministra Dilma Rousseff, da Casa Civil, provável candidata do PT à sucessão), assim como Guilherme Afif Domingos (ex-PL, hoje no DEM), secretário de governo do tucano José Serra, em São Paulo. Afif, que havia sido um dos colaboradores de Maluf no governo do Estado, liberou seus apoiadores, mas não apoiou Collor no segundo turno em 1989. Um dos coordenadores da campanha de Afif naquele ano é o hoje prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM).

Os nanicos de 1989 Ronaldo Caiado e Fernando Gabeira, que obtiveram menos de 1% dos votos em 1989, lideram as bancadas, respectivamente, do DEM e do PV na Câmara dos Deputados.

  • Jorge Araújo/Folha Imagem

    Militantes 'colloridos' e apoiadores de Lula entram em confronto em Osório (RS)

Tensão eleitoral
Foi uma eleição tensa, com forte troca de acusações entre os candidatos, gritarias em debates e muita promessa de moralização.

MALUF

O Lula de 1989 não
tem nada que ver com o Lula de 2009. Ele impunha um
medo

Collor fez campanha associando Lula ao mundo comunista, aproveitando-se da queda do Muro de Berlim, menos de uma semana antes do primeiro turno. No segundo turno, a campanha de Collor exibiu no horário eleitoral na TV o depoimento de Miriam Cordeiro, ex-namorada de Lula, acusando o petista de tê-la pressionado para abortar a filha que esperava do então metalúrgico.

Collor considera hoje um erro ter colocado o depoimento. E Lula justifica a aproximação com o ex-rival.

Caiado

Collor nunca foi a nenhum debate [do primeiro turno]

"Minha relação com o Collor é a de um presidente com um senador da base (...) Não tenho razão para carregar mágoa ou ressentimento. Quando o cidadão tem mágoa, só ele sofre. Quando se chega à Presidência, a responsabilidade nas suas costas é de tal envergadura que você não tem o direito de ser pequeno", afirmou o petista em entrevista à Folha de S.Paulo no mês passado.

*As entrevistas foram concedidas aos jornalistas Haroldo Ceravolo Sereza (Collor, Maluf e Afif), Fernando Rodrigues (Sarney), Piero Locatelli (Caiado) e André Naddeo (Fernando Gabeira). Colaborou na edição Rodrigo Bertolotto

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