UOL Notícias
 

13/11/2009

Em 1989, briga da Globo não era com a Record, mas com o candidato Silvio Santos, codinome 'Moinho'

Marcio Pinheiro Do UOL Notícias Em São Paulo

De 1989 para cá, o que mudou na política brasileira?

Naquele começo de novembro de 1989, a dúvida pairava sobre qual nome estaria impresso na cédula eleitoral do segundo turno dali a duas semanas para concorrer contra Fernando Collor (PRN), o mais bem posicionado nas pesquisas. Estava bastante claro que a disputa pela segunda vaga se restringia aos esquerdistas Leonel Brizola (PDT), favorito, e Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Foi quando a bagunça começou.

Silvio Santos ensina eleitor a votar durante propaganda eleitoral em 1989

Sem programa de governo, nem estrutura partidária, muito menos ideias claras sobre os rumos do Brasil, Silvio Santos, apresentador e dono do SBT (Sistema Brasileiro de Televisão), lançou-se candidato à Presidência 15 dias antes do primeiro turno.

"Quinze dias pra mim já é mordomia. Eu ganho essa eleição em uma semana. Eu ganho com o pé nas costas", disse Silvio Santos, segundo relato daquele que foi seu candidato a vice, o atual deputado federal Marcondes Gadelha (PSC-PB). À época, Gadelha era líder do PFL no Senado e integrava o núcleo de apoiadores mais próximos ao governo de José Sarney (PMDB).

De acordo com pesquisa Datafolha realizada entre 6 e 7 de novembro de 1989, Silvio Santos estava empatado com Mário Covas (PSDB) no quarto lugar, embora em algumas pesquisas anteriores já houvesse aparecido como nome mais forte na corrida presidencial.

Silvio Santos era aquele que todos temiam.

Antes de decidir renunciar ao cargo de governador de Alagoas, Fernando Collor fez duas reuniões cruciais. Primeiro, conversou com o presidente do instituto Vox Populi, Marcos Coimbra, que lhe avisou: "Eu garanto que você está no segundo turno se Silvio Santos não for candidato". Ambos disputavam uma faixa comum do eleitorado, especialmente os das classes C, D e E.

Concorrentes na televisão e na política

  • Cícero PR/Folha Imagem

    Roberto Marinho vota na zona sul do Rio de Janeiro

  • Juvenal Pereira/Folha Imagem - arquivo

    Silvio Santos se reúne com a cúpula do PFL em 89

Em seguida, Collor se reuniu com o próprio dono do SBT, na mansão dele em São Paulo. Silvio apresentou a Collor a mulher, Iris, e as filhas. Afirmou, segundo relato de Collor, que elas eram eleitoras do convidado. E negou categoricamente que seria candidato.

Seu nome, no entanto, era sempre levantado como uma possibilidade, numa época em que as regras eleitorais eram bastante mais maleáveis. O candidato Guilherme Afif Domingos (PL) afirma que procurou Silvio, também antes de entrar na corrida eleitoral, e o convidou a ser seu vice. Mais à frente, Silvio inverteria a proposta - sem, no entanto, convencer Afif a abandonar a candidatura.

Roberto Marinho, dono da Rede Globo, não gostava da ideia da candidatura de seu ex-funcionário. Se hoje a preocupação da Globo é com o aumento da audiência da Rede Record, há 20 anos o temor era assistir ao dono da segunda maior emissora de televisão - e, ao mesmo tempo, então acionista da Record - chegar à Presidência e, assim, dominar as outorgas das concessões de todas as TVs abertas no Brasil.

Quando Silvio lançou, na reta final, a candidatura, Marinho já demonstrava, por meio da cobertura da Rede Globo, sua preferência por Fernando Collor, cuja família controlava a TV Gazeta, retransmissora da Globo em Alagoas.

O fator Silvio Santos abalou a antiga amizade entre Marinho e o então presidente da República, José Sarney (PMDB), cuja família controla a TV Mirante, retransmissora da Globo no Maranhão.

"Você diz que não tem nada a ver com a candidatura desse camelô, mas foram seus amigos que fizeram tudo. E isso é uma evidência de sua participação", disse Marinho a Sarney, segundo relato de Arlindo Silva na biografia "A fantástica história de Silvio Santos" (Ed. do Brasil). Dentre esses "seus amigos" um se destaca: Edison Lobão, então senador pelo PFL, hoje ministro de Minas e Energia do governo Lula e sempre ligado à TV Difusora, que retransmite o SBT no Maranhão e é controlada por sua família.

  • Reprodução

    Revista trata da candidatura do apresentador

"Lobão foi um dos principais articuladores [da candidatura de Silvio Santos]. Eu diria que foi a peça chave, pela aproximação dele com o Sarney", explica Gadelha. E completa: "O Sarney era, no começo, muito simpático à candidatura do Silvio Santos, estimulou a candidatura de Silvio Santos".

PFL fecha a porta para "Moinho"
A ideia era lançar o apresentador pelo PFL no lugar de Aureliano Chaves, que patinava nas pesquisas. Mas foi dessa legenda que partiu a puxada de tapete. "Os principais coordenadores desse movimento eram Antonio Carlos Magalhães [líder do PFL baiano, que foi ministro das Comunicações de Sarney e depois um dos principais apoiadores da candidatura do tucano Fernando Henrique Cardoso, em 1994] e Roberto Marinho", resume Gadelha.

"Eles foram direto a Aureliano, se louvaram da amizade, fizeram promessas e todo o tipo de mecanismo de aliciamento foi usado para convencê-lo a renunciar."

Aureliano recuou, aceitou os apelos e permaneceu candidato. As portas do PFL se fechavam para a chapa Silvio-Gadelha. "Aí, saímos batendo as portas de todas as legendas e não conseguíamos a legenda porque esse grupo [anti-Silvio Santos] tinha cercado todo o sistema", afirma o vice.

Gadelha conta que, naquele período de negociação da candidatura, sofria com os telefones grampeados. "Foi nessa época que nós começamos a usar codinomes. Por exemplo, Silvio Santos era 'Moinho'. Eu era 'Jacaré'", lembra o hoje deputado.

Sem o PFL, a chapa "Moinho-Jacaré" tentou emplacar a candidatura pelo PPB, do candidato Antônio Pedreira, que teria proposto desistir de disputar se recebesse dinheiro. Silvio não aceitou. A peregrinação terminou em 31 de outubro, quando o pastor evangélico Armando Corrêa, do obscuro PMB, renunciou à candidatura em favor de Silvio Santos.

"Tivemos que fazer esse entendimento de madrugada, na calada da noite, lá no apartamento que Edison Lobão tinha em Brasília." Gadelha alega que era preciso discrição, para que o acordo não vazasse à imprensa.

Como o horário eleitoral gratuito já estava no ar e sem tempo de trocar o nome de Corrêa pelo de Silvio Santos na cédula, o apresentador usou o bloco de dois minutos e meio de propaganda para ensinar o eleitor a votar nele próprio (veja vídeo acima).

  • Maurício Paiva/Folha Imagem - 05.dez.2001

    Capa da Folha de S. Paulo em 10 de novembro de 1989, dia seguite à cassação da candidatura

Silvio corria contra o tempo. Numa tacada só, em duas horas, gravou os oito programas do horário eleitoral do primeiro turno nos estúdios do SBT na Vila Guilherme, em São Paulo. E só demorou esse tempo porque era necessário trocar a roupa, uma diferente por programa, lembra o editor Paulo Tadeu, integrante da campanha de Armando Corrêa, que chegou perto de trabalhar para Silvio.

Segundo Tadeu, todas as falas eram improvisadas, sem roteiro nem teleprompter. Encerradas as gravações, Silvio o convocou imediatamente para a uma reunião. "Preciso conversar com você sobre o segundo turno", disse Silvio, de acordo com relato de Tadeu.

Mas a aventura não chegou nem ao primeiro turno. No dia que caiu o Muro de Berlim, o Tribunal Superior Eleitoral punha abaixo em Brasília a candidatura de Silvio Santos, em 9 de novembro de 1989.

Por sete votos a zero, o TSE impugnou a chapa. A justificativa: o partido não realizou convenções em pelo menos nove Estados e nem em um quinto dos municípios de cada Estado, conforme obrigava a lei.

Silvio Santos se recolhia ao auditório do SBT, onde se encontra até hoje, e pouco falaria sobre a aventura fracassada de disputar, na base do improviso, a Presidência da República.






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