UOL Notícias
 

17/12/2009 - 07h00

Lula já esperava depoimento de ex-namorada sobre aborto, diz marqueteiro; campanha de Collor defende ataque à vida privada

Marcio Pinheiro e Haroldo Ceravolo Sereza
Do UOL Notícias
Em São Paulo

De 1989 para cá, o que mudou na política brasileira?

Faltavam cerca de dez dias para o encerramento do horário eleitoral do segundo turno da eleição presidencial de 1989 quando um boato chegou ao comitê eleitoral do PT: pessoas ligadas ao candidato Fernando Collor de Mello (PRN) estavam negociando com a enfermeira Miriam Cordeiro, ex-namorada do petista Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a gravação e exibição de um depoimento bombástico.

Naquela reta final do segundo turno, Lula começou a diminuir a vantagem de Collor.

O polêmico 2º turno entre Collor e Lula

  • Acima, os marqueteiros dos candidatos Collor e de Lula, respectivamente Chico Santa Rita e Paulo Tarso Santos, comentam o uso do depoimento de uma ex-namorada de Lula sobre um suposto pedido do petista para que ela abortasse

  • Na entrevista acima, marqueteiros de Collor e Lula revelam os batidores da campanha eleitoral de 1989

Pesquisa Datafolha realizada em 22 de novembro de 1989 apontava o candidato do PRN com 48% da preferência do eleitorado, enquanto o petista alcançava 39%. Entre 12 e 13 de dezembro, essa diferença era de apenas um ponto: 46% para Collor, 45% para Lula (confira os números na cronologia da disputa de 1989).

Os petistas sabiam que, se houvesse o depoimento, ele seria sobre Lurian, a filha que Miriam e Lula tiveram fora do casamento. "O Lula disse que, se isso entrasse no ar, ele não responderia. Ele dizia que a Lurian era resultado de um ato de amor", afirma Paulo Tarso Santos, publicitário do PT em 1989.

O boato se materializou num depoimento usado na última semana do horário eleitoral de Collor. Na TV, Miriam Cordeiro contou que Lula a deixara após o início da gravidez e que o então metalúrgico pediu que ela fizesse um aborto, em 1974.

Collor, eleito presidente da República há exatamente 20 anos, diz que o depoimento foi um erro (veja entrevista ao Especial 1989 do UOL Notícias), mas o responsável pela campanha collorida defende o episódio mais polêmico e controverso da campanha presidencial de 1989.

"A vida do homem público é pública", justifica Chico Santa Rita, responsável pela campanha de Collor no segundo turno. "Nunca ninguém teve a ousadia de dizer que havia uma mentira ali, que a fita era mentirosa e que a fita contava uma inverdade."

Santa Rita diz ainda que numa disputa eleitoral "o limite ético é a verdade". Já Paulo Tarso, publicitário do PT, diz que o conteúdo do depoimento de Cordeiro "é uma ilação que não há como comprovar, é uma conversa entre os dois [Lula e Miriam]".

O ex-presidente tenta aliviar sua participação na decisão de pôr o programa no ar. "Eu não tomei conhecimento", afirmou. "O candidato é o que menos sabe o que vai ao ar no programa gratuito."

Paulo Tarso classifica ainda o ataque como "baixaria" e diz que o fato de Miriam Cordeiro ter recebido dinheiro da campanha de Collor desqualifica o depoimento.

Em depoimento recente ao site ABC de Luta - dos metalúrgicos de São Paulo -, o presidente Lula diz entender "o ódio" de Miriam Cordeiro.

"Eu até compreendo o ódio que a Miriam Cordeiro tem de mim porque ela estava grávida de seis meses. A gente estava até procurando casa. Mas quando eu conheci a Marisa eu me apaixonei e falei: 'Bom, eu vou largar de tudo o que eu tenho'. Aí, eu larguei da Miriam Cordeiro e com seis meses eu casei com a Marisa", afirma Lula. (Clique aqui para ler o depoimento completo)

Polêmicas restritas aos bastidores
O nível da campanha poderia ter sido ainda mais baixo, segundo os dois publicitários envolvidos na disputa. Chico Santa Rita conta ter vetado o uso de uma fita que recebeu de Fernando Collor. Na imagem, Lula assistia a prisioneiros cubanos sendo fuzilados. Tratava-se de uma montagem.

Do lado petista, diante do ataque com o depoimento de Miriam Cordeiro, discutiu-se esquentar o caso Ana Lídia, uma jovem assassinada nos anos 70 em Brasília. "Na verdade, o que nós tínhamos era uma especulação em torno da participação do Collor no assassinato", afirma Paulo Tarso.

A campanha do PT decidiu abrir uma investigação paralela sobre a morte, comandada por Hélio Bicudo. "O fato verdadeiro era que isso não tinha base no real. Nós teríamos que montar um caso artificial como eles montaram a Miriam Cordeiro. E nós optamos por não montar", diz Paulo de Tarso.






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