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20 anos da queda do Muro de Berlim

09/11/2009 - 19h51

Filho do prefeito de Berlim relembra cenário da construção do muro

Do UOL Notícias
Em São Paulo
Há exatos 20 anos era derrubado na Alemanha o muro de Berlim, símbolo da divisão de uma cidade, da separação arbitrária entre pessoas, mas também prova visível de que todo o mundo na época da Guerra Fria era divido em dois.

Essa impressão, para os berlinenses, era erguida em concreto. "Exatamente aqui entre nós, as grandes forças políticas do mundo estavam frente a frente", recorda o escritor Lars Brandt, filho do Nobel da Paz Willy Brandt, que era prefeito de Berlim no momento em que o muro foi construído.

Lars tinha 10 anos de idade quando o muro nasceu e viu a parte da cidade que seu pai governava ser completamente cercada da sua outra metade - e do resto do país. Berlim ocidental tinha sido "hermeticamente" fechada, como ele mesmo conta.

Em entrevista ao UOL Notícias, Lars comenta o cenário em que o muro surgiu, recorda sua impressão quando 28 anos mais tarde Berlim voltou a ser uma só e revela como foi escrever um livro sobre seu pai.



UOL Notícias: Entre 1957 e 1966, seu pai foi prefeito de Berlim Ocidental. Como foi essa época?
Lars Brandt:
Aquilo que sobrou da Alemanha após a barbárie nazista (e a guerra que eles instigaram) acabou dividido em um conflito entre Leste e Oeste. No Leste, os soviéticos instalaram uma ditadura comunista, no Oeste cresceu uma ordem democrática, segundo as normas da civilização ocidental. Meu pai, antifascista, passou o período nazista no exílio e então retornou para o país destruído para trabalhar na reconstrução.

UOL Notícias: Como foi o trabalho de Willy Brandt em uma cidade que convivia com um muro?
Lars Brandt:
Berlim Ocidental foi uma ilha por 20 anos, até a reunificação, separada da área da Alemanha Oriental. A cidade estava ela mesma dividida em Leste e Oeste - a Berlim do Leste como capital da porção comunista da Alemanha. Meu pai, a partir de 1957, foi prefeito, cargo político dirigente na Berlim do Oeste. Como cada vez mais pessoas fugiam da Alemanha comunista entrando na porção Ocidental de Berlim, as autoridades da Alemanha Oriental decidiram erguer um muro para fechar hermeticamente a fronteira. Junto com seus colaboradores, meu pai trabalhou - nos anos seguintes à construção do muro, como prefeito de Berlim, e mais tarde como chanceler (premiê) alemão - para desenvolver uma política de entendimento em toda Alemanha Ocidental, que no começo foi duramente criticada, mas que depois foi seguida pelos governos que o sucederam. O objetivo dele era, em pequenos passos, melhorar a realidade europeia - uma política que levou à dissolução das tensões e finalmente ao fim da divisão na Europa e no nosso país.

UOL Notícias: Em 1963, John F. Kennedy fez uma visita histórica a Berlim, onde disse que ele mesmo era um berlinense. Como você se recorda dessa visita?
Lars Brandt:
A visita do presidente Kennedy em 1963 serviu para fortalecer os ânimos dos berlinenses da parte ocidental. O muro cercava a parte livre de Berlim - e sem a presença nítida dos aliados ocidentais (com os Estados Unidos na liderança) os berlinenses do oeste não teriam aguentado a pressão do leste. Eu me lembro do entusiasmo agradecido com o qual muitos berlinenses receberam Kennedy nessa ocasião.

UOL Notícias: Sua geração conviveu com um muro. O que isso significou para vocês?
Lars Brandt:
Após o desabamento moral perpetrado pela ditadura de Hitler, o mais importante de tudo, para uma parte da juventude esclarecida, era conseguir erguer uma Alemanha pacífica, um Estado de Direito, no qual o voto e a imprensa livre são premissas fundamentais. Isso era possível, em certa medida, apenas na parte ocidental. Nós vivíamos conscientes do perigo de uma guerra nuclear entre Leste e Oeste - e exatamente aqui entre nós, as grandes forças políticas do mundo estavam frente a frente. A decisão da reunificação não era uma decisão dos alemães apenas. Até 1989, até a queda do muro, a preocupação era aliviar a vida das pessoas com várias tentativas pragmáticas - e esse conceito foi incorporado por parte da minha geração. Eu fico contente que meu pai tenha sido parte importante desse processo.

UOL Notícias: Quando Berlim voltou a ser uma só Berlim, qual foi sua impressão?
Lars Brandt:
Que eu podia viver minha cidade novamente como um todo, e não estava restrito à porção ocidental dela, onde eu nasci e cresci. Eu e minha esposa adoramos Berlim.

UOL Notícias: Você escreveu um livro sobre seu pai. Como foi escrever este livro?
Lars Brandt:
O livro traz o título "Andenken" [ou lembrança, em tradução livre], em referência à memória de meu pai. Escrever esse livro foi conferir uma certa forma literária àquilo que eu vivi com Willy Brandt e àquilo que eu trazia em mim. Mais do que esconder os rompimentos e contradições no nosso relacionamento, o livro deu expressão a isso. Por isso o livro se constrói alinhando, como facetas de uma imagem cubista, miniaturas concisas de nossa vida. O que eu vi como elemento válido para se contar é diferente daquilo sobre o que se debruçam cientistas políticos e historiadores, daquilo que eles poderiam saber ou gostariam de saber. É um livro radicalmente pessoal sobre um relacionamento, marcado por uma grande proximidade - e por uma grande distância [entre o autor e o tema], que inclui também conversas e leituras sobre Willy Brandt que durante anos eu mantive.

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