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18/09/2009 - 10h00

Migração cresce entre os brasileiros com 60 anos ou mais, mostra Pnad

Ana Sachs
Do UOL Notícias
Em São Paulo
A Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) relativa a 2008, divulgada nesta sexta-feira (18) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), mostrou um cenário diferente com relação às faixas etárias que mais migram no país. O percentual de pessoas com 60 anos ou mais que mudaram de Estado ou de cidade foi o único que subiu na média geral do país e em todas as regiões do Brasil. Tanto na mobilidade entre os Estados, quanto na a migração intermunicipal, o aumento foi de 0,9 ponto percentual em 2008 em comparação com 2007.

Pnad: o perfil do brasileiro

  • Arte UOL

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Para Frédéric Monie, professor do departamento de geografia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), esse fenômeno é similar ao que acontece em muitos países. "É a migração de gente aposentada, que escolhe um novo lugar ao sol para viver o resto da vida. Tem gente que muda querendo fugir dos engarrafamentos, buscando mais qualidade de vida. Outros fogem da violência", avalia.

O fato de a população brasileira estar envelhecendo ano a ano - hoje, são mais de 21 milhões com 60 anos ou mais - também tem contribuído para engordar essas estatísticas.

Todas as demais faixas etárias apresentaram queda nas médias nacionais de migração entre Estados e entre municípios, inclusive a faixa considerada economicamente ativa, que vai dos 18 aos 39 anos - caiu 1,3 ponto percentual entre os migrantes interestaduais e 0,8 ponto percentual entre os intermunicipais. A única exceção foi a população entre 40 e 59 anos, cuja mobilidade entre Estados subiu 0,6 ponto percentual.

Apesar da queda, a faixa etária entre 18 e 39 anos ainda possui os maiores percentuais de migrantes do país: 35,9% deixaram o Estado em que nasceram e 36,4%, a cidade, em 2008. Entre os que têm 40 e 59 anos, os percentuais também são bastante elevados: 35% mudaram-se do seu Estado de origem e 33,2%, de sua cidade.



Brasileiros mudam menos de Estado
A média nacional de pessoas que mudaram de Estado se manteve estável entre 2007 e 2008 em 15,7% do total da população - o que equivale a 29.905 pessoas -, mas cresceu entre cidades do mesmo Estado: foi de 39,8% para 40,1% - o que equivale a 76.186 pessoas. Ou seja, os brasileiros estão mudando menos de Estado e mais de cidades dentro de um mesmo Estado.

O Centro-Oeste e Sudeste foram as únicas regiões que apresentaram aumento no número de migrantes de outros Estados (0,9 e 0,3 ponto percentual, respectivamente).

Analisando os dados da Pnad, é possível notar que as mulheres mudam-se mais que os homens: 40.359 saíram da cidade em que nasceram, contra 35.827 homens; e 15.612 deixaram o Estado de origem, contra 14.292 homens.

Segundo Monie, essa é uma tendência mundial. "A migração sempre foi fenômeno antes de tudo masculino, mas nas últimas duas décadas as mulheres passaram a migrar mais. Isso se deve ao elevado nível de qualificação, que as leva a sair em busca de melhores oportunidades de trabalho. Elas também deixaram de ser submissas aos seus maridos, o que favoreceu a mobilidade", explica.

O cárater essencialmente econômico das migrações é reforçado pelos dados. Ao todo, 72.460 pessoas com 10 anos ou mais mudaram de cidade no Brasil, sendo que dessas, 28.805 também mudaram de Estado. Dos que mudaram de cidade, 46.729 trabalhavam - contra 25.732 que não exerciam nenhuma atividade -, e entre os que deixaram também o Estado em que nasceram, 18.769 eram economicamente ativos - contra 10.036 que estavam parados.

Em todo o país, a única região em que a proporção de migrantes é maior do que a população natural é o Centro-Oeste (54,2%). Essa região também tem o maior percentual nacional de pessoas que vivem em cidades onde não nasceram (35,6%).



Nova face econômica
São Paulo está deixando cada vez mais de ser um polo de atração de migrantes no país. Na última Pnad, o Estado apresentou percentual estável em 23,4% de cidadãos oriundos de outras Unidades da Federação no comparativo entre 2007 e 2008, além de queda no número relativo de pessoas não naturais do município (de 45,9% para 45,7%) no mesmo período. "Durante 30, 40 anos o que fez a força de São Paulo foi o desenvolvimento industrial. Hoje são os setores mais avançados, como as empresas de tecnologia e internet, que precisam de gente criativa e especializada, e não mão-de-obra operária", explica Moine.

Para o especialista, essas mudanças indicam que "o mapa econômico do Brasil está mudando". "Temos a mineração na Amazônia, as montadoras na Bahia, o turismo no litoral do Nordeste. O eixo econômico do país está deixando de ser centrado em São Paulo, Rio e Belo Horizonte. Hoje, os fluxos migratórios estão muito mais complexos do que há 40 anos atrás, quando tradicionalmente vinham pessoas do Nordeste para São Paulo", avalia.

Outra mudança significativa aconteceu no Amapá, Estado que perdeu o maior contingente de habitantes oriundos de outros Estados entre 2007 e 2008. O percentual baixou 9,6 pontos percentuais - de 27,9% para 18,3%. Também caiu 8,8 pontos percentuais o número de cidadãos que viviam no Amapá em municípios que não o que nasceram - o que equivale a um contingente de 49 mil pessoas.

Percentual de migrantes intermunicipais por região

Centro-Oeste54,2%
Sul44,0%
Norte 43,3%
Sudeste41,3%
Nordeste31,8%


Roraima é o segundo Estado que mais perdeu migrantes vindos de outras Unidades da Federação. Em 2007, eles correspondiam a mais da metade da população (50,4%) do Estado, mas em 2008 somavam 45,9%, uma queda de 4,5 pontos percentuais ou 15 mil pessoas. Houve ainda queda de 1,9 ponto percentual no número de residentes de cidades que não a que nasceram em Roraima. "Isso pode estar relacionado a questão da produção de arroz. Muitos tiveram que deixar as áreas produtoras inseridas em terras indígenas", acredita Monie.

Santa Catarina também perdeu um número significativo de migrantes de outros Estados, tendo diminuído de 15,7% para 17% (ou 69 mil pessoas) o percentual de pessoas que vieram de outros Estados. "Santa Catarina continua sendo um Estado dinâmico economicamente. Essa queda pode estar relacionada com as recentes catástrofes", avalia o especialista.

Já Sergipe, com aumento de 10,1% para 11,8% (ou 37 mil pessoas) e Rio Grande do Norte, com acréscimo de 8,6% para 9,9% (ou 46 mil pessoas), foram os Estados que mais receberam cidadãos de outras Unidades da Federação.

Os Estados de onde as pessoas mais migraram foram: Minas Gerais (4,3 milhões), Bahia (3,4 milhões) e São Paulo (2,7 milhões). Já Roraima (19 mil), Amapá (76 mil) e Acre (90 mil) foram os Estados de onde as pessoas menos migraram.

Percentual de migrantes interestaduais por região

Centro-Oeste35,6%
Norte21,9%
Sudeste18,0%
Sul12,0%
Nordeste7,4%


Petróleo e pré-sal
O Estado do Rio de Janeiro teve o maior aumento do país - 3 pontos percentuais - de pessoas que moram em municípios que não o seu, indo de 31%, em 2007, para 34%, em 2008. O Rio também teve um crescimento de 1 ponto percentual de pessoas vindas de outros Estados.

Para Frédéric Monie, esse fenômeno pode estar relacionado à produção de petróleo. "No Rio, tudo é relacionado ao petróleo. Ele atrai muitas pessoas ao norte do Estado, onde há a operação da Petrobras. Há canteiros de obras da Petrobras que empregam mais de 3.000 operários. Vem gente de todo o Brasil", diz.

Questionado sobre a possibilidade de o pré-sal influenciar os fluxos migratórios do país, o geógrafo afirmou que, futuramente, pode haver mudanças. "O próprio governo faz uma propaganda enorme, que vai ter emprego para todo mundo. Mas para extrair petróleo não precisa de muita gente, mas de muito dinheiro", frisa.

Monie aproveita para alertar sobre problemas futuros. "Esses grandes empreendimentos atraem mais gente do que precisa. Cidades como Macaé, no norte fluminense, sofrem muito com isso. As pessoas pensam que o petróleo vai criar um novo Eldorado, mas precisa ter um elevado nível de qualificação para trabalhar em plataformas, por exemplo. Vão para lá pensando em encontrar emprego e como não encontram, acabam formando favelas, aumentando a criminalidade e a violência", avalia.

Mobilidade no Brasil

EstadoPopulação totalNaturais do EstadoNão naturais do EstadoPercentual de migrantes (em %)
Rondônia1,5 milhão 817 mil 702 mil46,2
Acre692 mil 620 mil 72 mil 10,4
Amazonas3,3 milhões 2,9 milhões 480 mil 14,1
Roraima421 mil 228 mil 193 mil 45,9
Pará 7,3 milhões 6 milhões 1,3 milhão 18,3
Amapá626 mil 483 mil 142 mil 22,7
Tocantins1,3 milhão 883 mil 420 mil 32,2
Maranhão6,4 milhões 5,8 milhões 575 mil 9,0
Piauí3,1 milhões 2,8 milhões 267 mil 8,4
Ceará8,4 milhões 7,9 milhões 481 mil5,7
Rio Grande do Norte3,1 milhões 2,8 milhões 314 mil9,9
Paraíba 3,7 milhões 3,5 milhões 247 mil6,5
Pernambuco 8,7 milhões 8 milhões 663 mil7,6
Alagoas3,1 milhões 2,9 milhões 220 mil6,9
Sergipe2 milhões 1,7 milhões 240 mil11,8
Bahia14,5 milhões 13,6 milhões 935 mil6,4
Minas Gerais19,9 milhões 18,3 milhões 1,5 milhão8,0
Espírito Santo3,4 milhões 2,8 milhões 624 mil18,1
Rio de Janeiro15,6 milhões 13 milhões 2,6 milhões16,8
São Paulo40,7 milhões 31,2 milhões 9,5 milhões23,4
Paraná10,6 milhões 8,6 milhões 1,9 milhão18,0
Santa Catarina6 milhões 5,1 milhões 954 mil15,7
Rio Grande do Sul10,8 milhões 10,4 milhões 449 mil4,1
Mato Grosso do Sul2,3 milhões 1,6 milhões 687 mil29,0
Mato Grosso3 milhões 1,7 milhão1,2 milhão41,4
Goiás5,8 milhões 4,1 milhões 1,6 milhão28,7
Distrito Federal2,5 milhões 1,2 milhões 1,2 milhão51,1

Esses indicadores são medidos pela proporção de pessoas que não haviam nascido no município ou no Estado onde residiam no ano em que foi realizada a pesquisa

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