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18/09/2009 - 10h00

Salário do nordestino cresce duas vezes mais que a média nacional, mas região vê concentração de renda aumentar

Carlos Madeiro
Especial para o UOL Notícias
Em Maceió
O trabalhador nordestino conseguiu contribuir para a diminuição das desigualdades de renda entre as regiões em 2008, mas ainda segue com o menor salário das cinco regiões brasileiras. Segundo a Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a renda média mensal do trabalhador no Nordeste chegou a R$ 685 - pouco mais da metade da média nacional no ano, que ficou em R$ 1.036. No Piauí, que apresenta o pior índice entre os Estados, essa renda foi de apenas R$ 586.

  • R$ 685

    é a renda média mensal do trabalhador no Nordeste

Fonte: Pnad/IBGE
Em 2008, o trabalhador da região obteve o maior ganho de rendimentos, de 5,4%, enquanto no país esse aumento foi de 1,7%. Segundo o IBGE, a melhora na renda aconteceu em todos estratos sociais e pode ser explicada, entre outros motivos, pelo maior grau de estudo da população. Em 2008, a região Nordeste foi a que apresentou a maior redução no grupo de um a três anos de estudo dos trabalhadores (-12,9%) e segundo maior ingresso de pessoas no mercado de trabalho com mais de 11 anos de estudo (11,2%), só perdendo para a região Norte (11,9%). No país, esse crescimento foi menor (8,5%).

Mas a pesquisa revela que a concentração de rendimentos entre os que ganham mais cresceu entre 2007 e 2008 no Nordeste, ao contrário do que ocorreu no Sul, Sudeste e Norte. No Centro-Oeste, a Pnad aponta que não houve mudança significativa no índice.

Segundo a pesquisa, a participação dos 10% com maior rendimento no Nordeste cresceu de 45,9% para 46,1%. No país, esse percentual caiu 0,5 ponto percentual e chegou a 42,7%. Mesmo assim, o índice Gini (que mede a desigualdade de renda) do Nordeste caiu um pouco, de 0,528 para 0,525 em 2008 .

Carteira assinada é privilégio

"As razões são muitas. As empresas estão, na maioria, na informalidade e o conjunto de sua mão-de-obra é marcado pela baixa escolaridade e pouca formação profissional. A existência de um conjunto de fatores, mais a precária fiscalização dos órgãos públicos e a frágil mobilização sindical, explicam um índice baixo"

Cícero Péricles, economista
Para o doutor em economia da Ufal (Universidade Federal de Alagoas), Cícero Péricles, os baixos salários do Nordeste ainda são reflexo da pouca qualificação profissional. Embora confirme o aumento da escolaridade nos últimos anos, ele diz que a maioria dos empregos gerados na região paga salário mínimo.

"Esse aumento na renda dos trabalhadores teve impacto maior no segmento dos 10% mais remunerados, que, pesar de pequeno, recebe um volume maior de recursos. Mas, como o crescimento foi geral, o índice de Gini, que mede a concentração de renda, caiu suavemente", explica o economista, ressaltando que, no geral, o aumento da renda pode ser explicado por um aumento nos investimentos do setor produtivo e pelas transferências federais.

"O impacto das transferências diretas de renda [Bolsa Família] e previdência social sobre a economia nordestina é muito grande. Juntas, elas cobrem mais de dois terços das famílias da região. A Previdência Social pagou em julho deste ano R$ 4 bilhões a 7,2 milhões de nordestinos. Desses, 3,8 milhões segurados formam a clientela rural. Já o Bolsa Família pagou em julho R$ 524 milhões a 5,8 milhões de famílias nordestinas. Todos esses recursos melhoram a renda familiar e, claro, vão diretamente para o consumo, gerando impactos na dinâmica regional. No Nordeste, nenhum setor produtivo isoladamente [seja indústria, serviços ou agricultura] engloba um conjunto tão numeroso de pessoas ou produz um volume de recursos tão alto de renda", disse Péricles.

Pnad: o perfil do brasileiro

  • Arte UOL

    Mais domicílios possuem máquina de lavar e microcomputador; veja o quadro do país e por Estado

Os números da Pnad revelam que, em 2008, 39,4% dos nordestinos em idade ativa recebiam até um salário mínimo. Outros 15% informaram ao IBGE não ter rendimento. Segundo a pesquisa, apenas 10% da população recebe mais do que dois salários mínimos.

Informalidade alta
Além dos baixos salários, o trabalhador nordestino ainda tem na informalidade outro grave problema. Em 2008, apenas 39,8% das pessoas que exerciam alguma atividade tinham carteira assinada. Outros 11,4% são servidores públicos civis ou militares. Mesmo assim, o IBGE ressalta que houve pequenos avanços, já que, em 2007, esses índices eram de 38,9% e 11,5%, respectivamente.

O economista Cícero Péricles ressalta que ter a carteira assinada ainda é um privilégio na região Nordeste. "As razões para isso são muitas. As empresas estão, na maioria, na informalidade e o conjunto de sua mão-de-obra é marcado pela baixa escolaridade e pouca formação profissional. A existência de um conjunto de fatores, mais a precária fiscalização dos órgãos públicos e a frágil mobilização sindical, explicam um índice tão baixo", avalia.

  • 48,8%

    dos trabalhadores da região Nordeste não têm carteira assinada, alerta a Pnad

Com 48,8% dos trabalhadores sem carteira assinada, o nordestino que trabalha por conta própria ainda amarga uma remuneração bem inferior ao das demais regiões. Em 2008, a média chegava a R$ 432 (quase três vezes menos que na região Sul, que tem valor estimado de R$ 1.061). A diferença de renda entre homens e mulheres também é evidente: enquanto elas ganham em média R$ 335, eles recebem R$ 478. No país, a média de rendimento para os 'sem-carteira' ficou em R$ 799.

A região também foi a que apresentou o maior índice de trabalho infantil, com 12,3% (1,7 milhão) de trabalhadores com idade entre 5 e 17 anos. No Sudeste, onde foi encontrada a menor média, o percentual foi de 7,9%.

O Nordeste, assim como as demais regiões, ainda registra a migração do campo para a zona urbana. Segundo a pesquisa de 2008, 30,5% da população ativa do Estado trabalhava no campo. Um ano antes, esse percentual era de 32,5%, o que demonstra procura por atividades nas cidades.

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