UOL Notícias
 

18/09/2009 - 10h00

Há mais casas com computadores do que com lavadoras de roupas e freezers no Nordeste

Carlos Madeiro
Especial para o UOL Notícias
Em Maceió
Os dados da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), divulgados nesta sexta-feira (17) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), mostram que há mais lares com computadores do que com lavadoras de roupas e freezers no Nordeste.

A pesquisa aponta, também, que o número de bens duráveis nos domicílios do Nordeste é sempre percentualmente menor que a média nacional (ver lista de itens abaixo).

Bem durávelMédia do NordesteMédia nacional
Telefone 66,8%82,1%
Fogão96,1%98,2%
Filtro49,1%51,6%
Geladeiras81,5%92,1%
Freezer7,0%16%
Máquina de lavar roupa15,5%41,5%
Rádio82,4%88,9%
Televisão91,7%95,1%
Computador15,7%31,2%
Acesso à internet11,6%23,8%
Entre os bens que constam na lista da pesquisa, dois eletrodomésticos destacam-se por marcantes diferenças regionais: a máquina de lavar roupa e o freezer. Os dados apontam também para uma estagnação no número de domicílios com esses itens na região entre 2007 e 2008.

Presente em 59% dos lares do Sul e 54,3% do Sudeste, a lavadora era item de apenas 15,5% dos domicílios no Nordeste em 2008. No caso dos freezers, essa média caiu para 7% (no Sul, o percentual chega a 31%). O percentual de domicílios nordestinos com microcomputadores era de 15,7% (31,2% na média nacional). Nos três casos, a região aparece em último lugar na lista.

Sem máquina em casa, as nordestinas mantêm vivo o hábito de lavar roupa manualmente. Para driblar a falta de água encanada, elas ainda utilizam rios e lagoas existentes na região. E se engana quem pensa que essa situação só é encontrada no interior do Nordeste.

Sem contar com o fornecimento de água em casa, Adriana do Nascimento, 30, todos os dias lava roupas no riacho Pocinho, no bairro da Pescaria, em Maceió. Apesar de ser uma das mais novas entre as colegas, ela conta que já convive com as dores de coluna, causadas pela postura inadequada para lavar roupas e pratos.

"Se nem água em casa tenho, ter uma máquina de lavar é um sonho. Quando trabalhava como empregada doméstica, sempre via a máquina da patroa funcionar. Mas não sabia mexer. Só tinha o trabalho de tirar as roupas para estender", conta.

Enquanto Adriana lava roupa por necessidade, muita gente utiliza os serviços das lavadeiras profissionais. A microempresária Marta Lúcia Gonçalves diz que prefere evitar o trabalho e opta pelo serviço de uma lavadeira. Solteira e sem filhos, para ela, além de mais prático, o serviço é mais econômico. "Como moro só, não sujo muita roupa. Não compensa comprar uma máquina, pagar manutenção, gastar água. Pago R$ 20 por semana e resolvo meu problema, sem ter trabalho", conta.

Mudança de hábito

  • Carlos Madeiro/UOL

    A psicóloga Raquel Covatti mudou-se do Sul para o Nordeste. Acabou mudando também alguns hábitos: "aqui as pessoas fazem comida todo dia, não congelam, como é mais comum no Sul. Hoje, prefiro fazer e ter comida novinha todo dia", conta

Freezer
Os hábitos dos nordestinos também mudaram a vida de quem veio do Sul para a região. A psicóloga Raquel Covatti mora em Maceió há 14 anos e já absorveu o costume do povo da região. Casada com um alagoano desde 2000, ela conta que se acostumou com o dia-a-dia da casa da tia em Alagoas, onde morava, e para a casa nova optou por não comprar um freezer. "Aqui as pessoas fazem comida todo dia, não congelam, como é mais comum no Sul. Hoje, prefiro fazer e ter comida novinha todo dia", conta Raquel.

A psicóloga afirma que deixou de lado o hábito gaúcho de fazer compras para o mês inteiro. Hoje, ela vai ao supermercado em média duas vezes por semana. "A gente acaba pegando mais promoções que acontecem naquele dia", completa.

Já a mãe de Raquel, Eva Covatti, que mora em Sarandi (RS) e está passando férias em Maceió com a filha, acredita que o hábito dos nordestinos torna a conta mais cara. "Se eu vou ao supermercado uma vez ao mês, acabo comprando o que é necessário para aquele período. E com um freezer, posso comprar mais produtos congelados quando estão em promoção. Sem contar que economizo gás e tempo cozinhando menos vezes", ressalta.

Sonho de consumo

  • Márcio Ândrei

    Todos os dias, Adriana do Nascimento, 30, lava roupas no riacho Pocinho, no bairro da Pescaria, em Maceió; ela sonha ter uma máquina de lavar um dia

Baixa renda e questões culturais
Segundo o economista Cícero Péricles, questões culturais e a baixa renda do trabalhador nordestino explicam por que a venda dos dois produtos não emplaca no Nordeste. "Como a renda é baixa, o freezer acabou tendo sua função de conservação de alimentos substituída, em parte, pela própria geladeira", explica.

Péricles também atribui o baixo índice de aquisição de freezers e máquinas de lavar à tradição machista existente na região. "A força cultural tradicional do Nordeste é determinante para a presença exclusiva da mulher nas atividades domésticas", explica Péricles.

Nas lojas de eletrodomésticos do Nordeste, as vendas dos produtos são pequenas, mesmo em época de isenção de IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados). "Vejo que o nordestino tem baixo poder aquisitivo e compra, na maioria das vezes, de forma parcelada. Quando acaba de pagar, entra em outro financiamento, mas sempre optando por outro item essencial, como um sofá, uma TV, um fogão ou uma geladeira nova. Freezer e máquina de lavar vendem pouco", afirma Cândido Nogueira, gerente de vendas de uma loja de móveis e eletrodomésticos.

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