UOL Notícias Especial Retrospectiva 2008
 

16/12/2008 - 07h00

Barack Obama, o primeiro presidente negro dos EUA, é eleito em ano marcado pela crise

Fernanda Brambilla
Do UOL Notícias
Em São Paulo
"Esta noite, nós provamos mais uma vez que a verdadeira força da nossa nação não provém da potência das nossas armas nem do tamanho das nossas riquezas, mas sim do poder das nossas idéias: a democracia, a liberdade, as mesmas chances para todos e a esperança inabalável. Lá está a verdadeira genialidade da América: a América é capaz de mudar".

O discurso proferido (leia na íntegra) pelo então presidente recém-eleito Barack Obama na madrugada do dia 5 de novembro, resumiu em palavras o fim de uma era de oito anos de um país que sofreu transformações profundas e se vê à espera de uma nova fase. Após uma campanha vitoriosa e milionária, que levou participação recorde às urnas e arrebatou surpreendentes votos em redutos até então tradicionalmente republicanos (confira o mapa eleitoral), a expectativa que paira é: Obama será capaz de perpetuar tantas promessas de revolução?

"Yes, we can"
O cenário para tantas mudanças não é convidativo. Com a queda de popularidade de Bush, os Estados Unidos viram seu status de superpotência ser abalado com o agravamento da crise do subprime - empréstimos hipotecários de baixa qualidade -, que começou em 2007 e eclodiu em setembro de 2008 com a falência do banco de investimento Lehman Brothers, como uma grande bola de neve no pior colapso financeiro desde a quebra da Bolsa de Nova York em 1929. Mais afetados, estabelecimentos financeiros e o setor automobilístico reivindicam ajuda do governo para sobreviver. Vários países entram em recessão, entre eles EUA, Japão, Reino Unido, Alemanha e Itália. Somente em novembro, mais de 500 mil norte-americanos perderam o emprego, número que não se via desde 1974.

ANÁLISE: LUIZ FELIPE DE ALENCASTRO

  • "Obama é presidente dos EUA, não reformador do mundo"
A herança de Bush na economia é um orçamento com déficit recorde de US$ 438 bilhões, que levou à criação de um pacote de estímulo econômico no valor de US$ 700 bilhões. Mas o ano que tinha tudo para ser um ano devastado pela crise, 2008 foi tomado por uma súbita onda de esperança com a eleição de Obama. O cenário fez o eleitorado escolher um senador inexperiente, em seu primeiro mandato, filho de um queniano, ligado ao islamismo, de sobrenome Hussein e em Washington desde 2005.

Seu concorrente, o herói da guerra do Vietnã John McCain, 72, fez de tudo, sem sucesso, para conter a "onda Obama" (assista ao vídeo em que McCain admite a derrota). O senador pelo Arizona surpreendeu ao anunciar a governadora do Alasca, Sarah Palin, de 44, como sua vice. Praticamente desconhecida da cena política americana, a "pit-bull de batom" conseguiu mobilizar a base republicana e chegou a ameaçar, por algum tempo, a popularidade de Obama. Mas o "efeito Palin" passou rapidamente, deixando o campo livre para o democrata. Além disso, Obama deve sua vitória, em parte, à mobilização inédita das minorias: negra, mas também hispânica, em um país no qual as últimas leis discriminatórias foram abolidas apenas nos anos 60.

ANÁLISE: SÉRGIO DÁVILA

  • "Obama e a crise: Após 'ensaio' em 2008, 2009 será de 'ação'"
Mudar a imagem do país frente ao mundo é também tarefa para Barack Obama, o primeiro presidente negro dos Estados Unidos da América. Por onde começar, com tanto a fazer? O historiador Luiz Felipe de Alencastro, professor na Universidade de Paris 4 e colunista do UOL, lembra que a missão messiânica saudada pelos "obamistas" se mostra uma difícil realidade.

"Obama está muito ocupado em salvar a economia americana. Afinal, é por isso que ele foi eleito, para pôr fim a essa crise. Mas ele é presidente dos Estados Unidos, e não reformador do capitalismo no mundo inteiro", diz Alencastro.

Obama e os lobos
A volta dos democratas ao poder depois de oito anos do governo Clinton (1993 - 2001) traz lembranças vivas do passado. Braço-direito de Obama, a ex-primeira dama e concorrente direta pela candidatura democrata Hillary Clinton terá papel fundamental como secretária de Estado, escolha que gerou as primeiras críticas sobre o pulso firme do presidente eleito.



CORRIDA PRESIDENCIAL

  • AFP

    Convenção democrata confirmou o candidato Obama a uma multidão

  • AFP

    Doutrina Bush derrubou o herói de guerra republicano John McCain

  • EFE/AFP

    Vices: desconhecida Sarah Palin se contrapôs ao experiente Biden

  • AFP

    Obama reuniu 200 mil pessoas em discurso em Berlim, Alemanha

  • Reuters

    Principal mudança de Obama será mudar rumos da política de Bush

Mas Obama já tem discurso ensaiado. "Sei que há uma certa impressão em Washington de que nós estamos reciclando o governo Clinton. Mas o que nós vamos fazer é combinar experiência com pensamento novo", definiu. "Entenda de onde virá a visão de mudança, em primeiro lugar e de maneira mais importante: de mim."

Para o colunista do UOL Sérgio Dávila, a escolha de seu alto escalão, no entanto, pouco inspira inovação. "Obama escolheu Hillary Clinton pra ser o rosto do governo dele para o regime dos aiatolás no Irã, para os irmãos Castro em Cuba, para Hugo Chávez na Venezuela. Não sabemos quanto tempo ela vai levar para mudar relacionamentos encalacrados dos EUA, nem mesmo se ela é a mulher certa para o cargo", questiona Dávila, e alerta para a dificuldade de um presidente jovem e inexperiente se impor em meio a políticos da "velha guarda" de Washington.

"Só há velhos lobos do mar da política cercando o gabinete de Obama. Hillary Clinton está na política há 30 anos e em Washington desde 1992; Robert Gates está há dois anos no governo Bush e na política desde a década de 70; o general reformado James Jones, indicado para assessor conselheiro de segurança nacional, está no Pentágono desde criancinha", lembra o colunista. "Se um político novato cercado por um ninho de cobras terá personalidade forte o suficiente para implantar a sua visão de fazer política, isso ficará claro nos 100 primeiros dias de governo."

Para Alencastro, Obama tem sido bem prudente. "Tanto no âmbito militar como no econômico os perfis são de gente conservadora, ligados a Clinton e até ao governo Bush", diz o historiador, que enumera, entre os fatores, a dimensão da crise. "O país está envolvido em duas guerras, o que não é pouca coisa."

Segundo Alencastro, o cuidado do novo presidente pode demonstrar outras intenções menos claras. "Obama pode estar jogando uma estratégia de dois mandatos. Nesse primeiro ele conserta o que estiver ao alcance, e deixa uma reforma social mais profunda para os anos seguintes."

O historiador aposta, no entanto, em mudanças pontuais a curto prazo para atender às pressões dos jornais que impulsionaram sua campanha. "Do ponto de vista político, a mais importante é fechar Guantánamo. Há indícios de que isso está sendo estudado. É uma encrenca muito grande, uma vez que o governo Bush praticamente autorizou a tortura e isso é um escândalo para a mídia."

Outros pontos delicados para Obama são o embargo comercial a Cuba e a reforma do sistema de saúde pública, apontado como o terceiro maior problema dos EUA, depois da guerra e da economia.

Terra arrasada
A seu favor, Obama assumirá o posto na Casa Branca para substituir o presidente mais impopular da história dos EUA, com menos de 30% de aprovação. "A comparação o favorece, já que qualquer movimento que ele fizer será distante do que a dupla Bush-Cheney vem fazendo há oito anos. Devemos ver mudanças no cenário da política externa", prevê Sérgio Dávila.

As primeiras intervenções do presidente já esboçam sinais de transição. Em novembro, Washington e Bagdá acertaram um acordo de segurança que prevê a retirada total das tropas americanas, no país desde 2003, até o final de 2011.

Favorecido pela maioria democrata, Obama planeja implantar um novo plano de reaquecimento da economia, que poderá custar até US$ 1 trilhão. Na política externa, Obama tem como desafio pôr fim à ameaça do terrorismo; além da guerra no Afeganistão, ele terá de enfrentar um Paquistão instável, um Irã ameaçador e uma Rússia revigorada.

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