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04/03/2010 - 00h02

Piñera dedicará seu governo à reconstrução do Chile

El País
M. Délano e J. R. Marcos
Em Santiago e Concepción (Chile)

Concepción recupera a normalidade em meio a fortes réplicas; 79 pessoas são resgatadas com vida de um edifício em ruínas

O terremoto e o maremoto de sábado passado marcarão a agenda de três dos quatro anos de duração que terá o governo de direita encabeçado pelo presidente eleito Sebastián Piñera, que assumirá o poder dentro de uma semana, na quinta-feira 11. Em uma reunião com o futuro gabinete ministerial, Piñera advertiu seus ministros que o programa de governo deverá se adaptar às tarefas de segurança, abastecimento e reconstrução do país.

Situação complicada em Santiago e região

  • Rodrigo Bertolotto/UOL

    Pessoas passam por restos de fogueiras que à noite iluminam a comunidade de Quilicura, ainda sem luz e sem segurança

  • Rodrigo Bertolotto/UOL

    Mulheres tomam banho em hidrante quebrado, que também causa alagamento no local

  • Rodrigo Bertolotto/UOL

    Entulho se acumula nas ruas de Quilicura, na região metropolitana da capital, e causa atritos entre vizinhos

A cerimônia de transferência de poder na próxima quinta-feira será austera, segundo concordaram em uma reunião a presidente Michelle Bachelet e Piñera. Ambos atuaram sem maiores atritos desde o terremoto, apesar de ter havido alguns entre membros de suas equipes mais próximas.

Bachelet informou à secretária de Estado americana, Hillary Clinton, que o Chile pedirá créditos brandos no futuro para enfrentar a reconstrução, apesar de que esta tarefa não será feita por seu governo. Piñera pediu a seus ministros que moderem as críticas e mostrem um apoio construtivo às tarefas do governo.

Os analistas concordam que Bachelet teve de enfrentar a parte mais complexa das consequências do terremoto, o próprio embate da natureza e as primeiras medidas paliativas, que já causaram algumas críticas pela lentidão nas decisões. Bachelet defendeu-se, alegando a magnitude inédita da crise, sua extensão territorial e humana e os danos causados às infraestruturas e às comunicações.

Piñera, por sua vez, deverá presidir o período da reconstrução com uma economia que conta com recursos suficientes para abordar as tarefas sem desequilibrar as finanças públicas. As inaugurações e cortes de fitas ficarão para seu governo. O presidente eleito deixou a cargo de seu futuro ministro do Interior, Rodrigo Hinzpeter, a maior prioridade, o problema da segurança e do abastecimento de alimentos, água potável e eletricidade. Piñera comentou que é partidário de ampliar para outras regiões o estado de exceção, que permite o uso de tropas, e aplicar o toque de recolher.

Reunidos na quarta-feira com Bachelet, os dirigentes empresariais do país se comprometeram a trabalhar para recuperar a normalidade o mais cedo possível. Os empresários informaram à população que não é necessário estocar víveres, porque existem reservas suficientes, que logo começarão a ser distribuídas com a regularidade anterior à catástrofe.

Justamente essa normalidade é o que se começou a perceber na quarta-feira em Concepción, cidade mais próxima do epicentro e cenário da violência nas últimas 48 horas. Os saques acabaram sob a mão firme do exército e da polícia. Na quarta-feira reabriram dois supermercados, e outros oito começarão a funcionar nos próximos dias. As compras com cartão de crédito podem ser feitas sem problemas.

Uma boa notícia também foi o resgate com vida de 79 pessoas dos escombros de um edifício que desmoronou completamente em Concepción por causa do terremoto. O comandante dos bombeiros, Juan Carlos Subercaseaux, informou que apenas seis pessoas estão desaparecidas, as quais poderiam se encontrar nos 20 apartamentos que ainda não foram revistados no edifício de 15 andares que ficou reduzido a escombros.

"Temíamos que uma centena de pessoas tivessem morrido com a queda do edifício, mas graças a Deus o número é muito menor", disse Subercaseaux, ao detalhar que só encontraram sete cadáveres. O edifício Alto Río, em Concepción, foi um dos imóveis mais afetados pelo terremoto e o posterior tsunami que ele provocou, e que custaram a vida de mais de 800 pessoas no Chile.

Mas o medo continua latente. Na última hora de quarta-feira a cidade viveu uma forte réplica (tremor secundário) e um alerta de tsunami que, embora falso, deixou a cidade em polvorosa durante meia hora. "Para os morros, para os morros", diziam as pessoas. A ministra da Habitação, Patricia Poblete, comentou ontem no centro de Concepción que será preciso demolir vários edifícios. Ao seu lado, o arquiteto Oswaldo Arenas atribuiu o fato de haver tantos edifícios novos afetados ao relaxamento na aplicação das normas de construção antissísmica. "Construiu-se muito no limite das normas", disse.

O general Guillermo Ramírez, chefe máximo da cidade nestes dias, será o encarregado de decidir quando serão feitas as demolições. No quartel da polícia militar, as pessoas esperam para telefonar gratuitamente para seus parentes ou para perguntar pelos detidos durante os saques nas noites passadas. "Por sorte vieram os militares, acabou o tabu chileno", diz o gerente do hotel Almagro, completamente cheio mas sem luz nem água, apesar de o telefone e a eletricidade terem voltado na quarta-feira a uma parte da cidade. Não há água, mas sim "wi-fi". E filas quilométricas de pessoas carregando garrafas para as fontes públicas e os postos de gasolina, estes protegidos por tanques leves do exército.

Ao lado do hotel Almagro, meia dúzia de militares montavam guarda na porta do supermercado Unimarc, arrasado no sábado. A mesma sorte teve o Santa Isabel, uma rua mais acima, e a loja de vestidos La Polar. "O próximo seria eu, mas eles chegaram e a coisa acalmou", diz o gerente, que não saiu do hotel desde sábado. "Dá para notar?", pergunta, tocando a barba. Enquanto fala ocorre mais um pequeno tremor. O solo se move, cai uma figura de gesso no hall. Pouco mais. "Grau 7?", ele aventura, como quem coleciona sismos.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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