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08/03/2010 - 07h30

Saqueadores arrependidos fazem "devolução voluntária" para evitar prisão no Chile

Rodrigo Bertolotto
Enviado especial do UOL Notícias
Em Concepción (Chile)

Imagens dos equipamentos saqueados

  • Natacha Pisarenko/AP

    Em Concepción, Michelle Bachelet, presidente do Chile, verifica centenas de ítens devolvidos por saqueadores ou recuperados pela polícia

No lugar de carros, duas geladeiras descem o asfalto de uma ladeira até serem abandonadas em uma quadra poliesportiva. Um matagal é pontilhado de TVs de plasma e computadores. Um beco é palco de um congestionamento de lava-roupas. Essas cenas surgiram no bairro de Palomares, no subúrbio de Concepción, cidade mais afetada pelo terremoto do sábado (27) e pelos saques do comércio nos dias posteriores.

O "recall voluntário" foi uma reação à ofensiva da polícia chilena para recuperar os produtos rapinados de lojas e depósitos e prender os envolvidos. Ajudou para o arrependimento deles a veiculação da notícia de que mais de 90 estão presos pelo crime, além dos alto-falantes anunciando uma operação pente-fino nas casas da região.

“Agi muito mal. Estou totalmente arrependido, e esse é o sentimento de todos os meus vizinhos. Não sei o que se passou pela minha cabeça”, disse Hector Céspedes, que devolveu à polícia uma moto elétrica que dera a seu neto.

Outra moradora estava revoltada com a situação. “Eu tenho raiva e vergonha do que essa gente fez. Sujou a imagem de nossa cidade e nosso bairro”, disse Margarida Rojas. Como ela, várias pessoas denunciaram os vizinhos usurpadores.

“Em toda minha vida, nunca tinha visto a pressão que aconteceu na sociedade. O nosso trabalho está sendo facilitado pela denúncia das pessoas”, disse o delegado de Concepción, Hector Espinoza.

Até a presidente chilena, Michelle Bachelet, foi conferir na cidade do sul a recuperação das mercadorias. “Nossa legislação vai ser dura com eles. O que fizeram não tem nada a ver com necessidade. Tem a ver com um apodrecimento moral de quem quer lucrar com a dor dos outros”, discursou a mandatária, que foi fotografada entre sofás e fogões recuperados.

Quem devolve os produtos tem uma atenuante, mas continua processado. Quem é pego com o subtraído tem prisão preventiva decretada por três meses até ser julgado. Quem se nega a devolver é incriminado como assalto em zona de catástrofe, o que é um agravante.

O ginásio e as delegacias de Concepción viraram verdadeiros centros de logística, com tantos eletrodomésticos e móveis depositados. O valor do que foi achado passa dos US$ 2 milhões em quatro dias de operação. Só no bairro de Palomares saíram 20 caminhões cheios.

Saiba mais sobre o Chile

  • População: 16 milhões

    Religião: Católicos (70%), evangélicos (15%), outros (6,7%), ateus (8,3%)

    Expectativa de vida: 77 anos

    PIB per capita: US$ 14.700

“Falamos com os líderes comunitários e passamos pelas casas, avisando que era melhor devolver do que a gente fazer uma batida e encontrar coisas. As pessoas se conscientizaram”, disse o policial Hermes Soto, sobre a técnica de devolução.

As cenas que se viram em Concepción após o sismo assustaram uma população que não imaginava que iria acontecer na nação com melhores índices sociais da América Latina o mesmo que ocorreu no tremor do Haiti, o mais pobre do hemisfério.

Grupos arrombavam portas de comércio e levavam de tudo. Teve gente que chegou de camionete para recolher as mercadorias. Idosos carregavam em carrinhos de supermercado computadores. Pais e filhos davam entrevistas para as TVs com o produto do roubo nos braços --e não eram os chamados gêneros de primeira necessidade.

As fotos e vídeos dos saques correram o mundo e foram parar inclusive na delegacia local --as imagens serão usadas para identificar os envolvidos. Operações similares são levadas a cabo também nas localidades de Coronel e Talcahuano.

O canal TVN chegou a entrevistar um senhor que deixou geladeira, fogão e lava-roupas no meio da rua. Mas, ao microfone, ele desconversou: “deixaram na minha porta. Estou só trazendo aqui. Para mim, os saques são horrendos.”

Os militares estão ajudando a carregar e armazenar os itens. As lojas e magazines irão identificar que produtos são os seus, mas muitos voltaram já personalizados, com distintivo de clube ou adesivos de bandas de rock.

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