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10/03/2010 - 09h30

Semana Santa será entre escombros em um Chile com história apagada por terremoto

Rodrigo Bertolotto
Enviado especial do UOL Notícias
Em Santiago (Chile)

Imagens da destruição no Chile:

  • Rodrigo Bertolotto/UOL Notícias

    Fachada de casa desmoronada no centro histórico de Talca, região atingida pelo terremoto

  • Rodrigo Bertolotto/UOL Notícias

    Metade de palacete no bairro Brasil, em Santiago, veio abaixo com o terremoto de 27 de fevereiro

Imagine a cidade de Paraty bombardeada, o Pelourinho de Salvador acabado para o turismo, Olinda com igrejas e casarões despencados no meio da rua? Pois, o terremoto de dez dias atrás apagou grande parte da história do Chile.

Igrejas, palácios, casas de fazenda, centros históricos, balneários antigos viraram escombros. E muitos deles serão demolidos porque suas estruturas não resistem.

Os que ainda podem ser restaurados devem esperar, já que a prioridade agora são as pessoas desalojadas – mais de 20 mil casas provisórias de madeira serão entregues antes da chegada do inverno rigoroso. O cálculo é que o gasto com a reconstrução de moradias atinja os US$ 20 bilhões.

Só depois da recuperação das indústrias e da infraestrutura viária e portuária é que as autoridades devem dar atenção à questão patrimonial. “O problema é que no Chile o provisório vira o definitivo e as coisas podem ficar assim. Poucas construções que foram destruídas no terremoto de 1985 foram recuperadas. A mesma coisa deve acontecer agora, mesmo com o aumento da consciência histórica”, opina o padre Gabriel Guarda, presidente da comissão de bens culturais da Igreja.

A Semana Santa no Chile será entre escombros. Em Santiago, 70% das igrejas foram danificadas, enquanto na região mais atingida, em Concepción e Talca, essa porcentagem sobe para 90%. São imagens de santos em cacos, torres inclinadas, abóbodas desabadas sobre as naves centrais.

Mas o que mais dá pena ao padre do patrimônio são as pequenas capelas rurais das regiões de O´Higgins, Maule e Biobio. Muitas viraram pó, afinal, eram feitas de adobe, argamassa de argila, areia e palha -- que era base da construção até o século 19 no Chile. “Eram joias da típica arquitetura que os jesuítas trouxeram para o Chile. Perdeu-se”, contou Guarda. O cenário com parreiras e a cordilheira dos Andes perdeu os campanários e os casarões que complementavam o quadro.

Em La Torina, está em frangalhos uma igreja de 1767, obra do arquiteto Joaquin Toesca, o mesmo que projetou o palácio do governo chileno, a Casa De La Moneda. Em Guacarhue, cidade declarada zona típica, uma igreja de 1779, que é monumento nacional, também está para cair.

Toda a arquitetura de adobe não resistiu ao sismo de 8,8 graus na escala Richter do dia 27 de fevereiro. A cidade de Peralillo, no meio da região dos vinhos, virou pó, com a igreja, a prefeitura e até o cemitério vindo abaixo. Da mesma forma, o bucólico centro histórico de Talca também desapareceu, e a prefeitura deve terminar a derrubada com escavadeiras entrando pelas casas comprometidas.

Do mesmo material, sedes de fazenda da época colonial também tombaram no mau sentido. Muito visitada, a de Pintué está com o telhado todo no chão, e sua ampla varanda caiu como um dominó. Outro exemplo é a casa grande de Cunaco, desenhada pelo arquiteto italiano Edoardo Prosolien e atualmente rachada ao meio. Também os bairros Brasil e Yunguay, em Santiago, viram as suas fachadas antigas caírem, com suas ornamentações neoclássicas, góticas e belle époque.

“Montei um museu e agora está tudo destruído. As peças caíram no chão e estão danificadas. As perdas são incalculáveis”, afirmou o empresário Carlos Cardoen, sobre a exposição permanente em Colchagua de peças incas que colecionou a partir da fortuna que confessou com fabricação de armas e agora com a exportação de vinhos.

Veja o relato dos surfistas brasileiros:

Já o tsunami que veio após o terremoto estragou balneários tradicionais, com edifícios do século 19. Foi o caso de Constitución, praia frequentada pela alta sociedade do país no começo do século 20. Também Pichilemu, onde caiu um belvedere, e o hotel Ross, todo em metal estilo art nouveau, teve a estrutura danifica.

Os chilenos já estão acostumados a perder sua historia periodicamente. Desde 1575, o país registra terremotos e destruição na cidade de Valdivia, arrasada pela última vez em 1960. Atingidas também agora, Chillán e Concepción já foram reconstruídas em dois lugares: quando desabava um, ia para o outro. Em 1939, a catedral de Concepción teve as torres dinamitadas porque ameaçavam cair.

Personagens da história mundial presenciaram in loco a fúria da terra chilena. O biólogo Charles Darwin testemunhou o terremoto de 1835 em Valdívia. O pintor Paul Gauguin experimentou em 1877 um sismo em Iquique, norte do país.

A literatura chilena também é recheada de referencias a terremotos. Pablo Neruda fez poemas sobre os desastres de Valparaíso. A compositora Violeta Parra, autora do clássico “Gracias a la Vida”, compôs a canção “Puerto Montt está tremendo”, após experimentar nessa cidade os reflexos do sismo com epicentro em Valdivia em 1960.

Com o terremoto, caíram também casas de figuras da história chilena como o herói naval Arturo Prat e o mártir da independência Manuel Rodríguez. Basta saber se vai se repetir com o passado do Chile do futuro presidente Sebastián Piñera o que está acontecendo com a cidade italiana de L'Áquila, que sofreu tremor no início de 2009: seu centro está ainda em ruínas e a população, em locais provisórios e Silvio Berlusconi não parece muito engajado de fazer o contrário.
 

 

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