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11/03/2010 - 08h05

Marinha brasileira atende a infartados e crianças no subúrbio de Santiago

Rodrigo Bertolotto
Enviado especial do UOL Notícias
Em Santiago (Chile)

Marinha brasileira monta hospital assistencial em Santiago, no Chile

“Como disse? Fotografia?”, pergunta o marinheiro brasileiro. “No, le dije radiografia”, responde a idosa chilena, mancando. “Entendi agora, radiologia. Por acá, por favor”, encaminha o atendente em portunhol.

A Marinha do Brasil enviou ao Chile um hospital de campanha para ajudar no resgate em zonas de catástrofe ao sul do país, mas acabou sendo montado no subúrbio de Santiago para suprir uma unidade de saúde abalada pelo terremoto. “A ideia inicial era ir para Concepción, onde o terremoto destruiu mais, mas chegando o ministro de Saúde do Chile [Álvaro Erazo] pediu para ficarmos aqui”, relata o almirante Sérgio Pereira, que já esteve em Angola fazendo trabalho similar.

Aposentadas e mulheres com crianças estão sentadas em cadeiras plásticas no meio de quadras poliesportivas que viraram um hospital com 14 toneladas de equipamentos trazidos em cinco aviões.

“Estamos funcionando como uma emergência da cidade, atendendo aos casos comuns que acontecem em qualquer metrópole. Tem infarto, AVC, tentativa de suicídio, crise de hipertensão, diabete descompensada. Foi uma adaptação, nos transformamos de hospital de trauma em hospital assistencial. Não é um hospital de conforto, não tem mármores ou luzinhas, mas garantimos o atendimento”, sintetiza Carlos Eduardo Araújo, capitão de fragata médica e responsável pela unidade provisória brasileira encravada no subúrbio da capital chilena.

Um apito longo soa. É a típica da comunicação da Marinha, usada nos barcos. O som avisa que alguma autoridade está chegando. Para o prefeito de Cerro Navia, Luis Plaza, Araújo elogia o bom relacionamento com os enfermeiros e médicos chilenos. O político local aproveita para fazer uma brincadeira: “Acho que chilenos e brasileiros se dão bem porque não temos fronteira.”

Imagens do atendimento da Marinha brasileira aos chilenos

  • Rodrigo Bertolotto/UOL Notícias

    Médica da marinha do Brasil atende idosa com resfriado

  • Rodrigo Bertolotto/UOL Notícias

    Integrante da marinha brasileira faz atendimento de mãe e bebê na comuna de Cerro Navia

  • Rodrigo Bertolotto/UOL Notícias

    A aposentada Clotilde Mena espera para fazer radiografia e elogia a rapidez

 

A diplomacia levou esse hospital militar brasileiro para essa rua suburbana de Santiago. Antes, estava de prontidão para ir também para o estremecido Haiti. Não foi porque já havia uma unidade por lá servindo à ONU.

“A função desse hospital é cuidar dos marinheiros e fuzileiros nos exercícios militares, mas já fizemos muito trabalho social. Isso nos ajudou no trabalho aqui no Chile”, afirma Araújo, que lembra as ações no Rio – em 2008 durante o surto de dengue e em 2005 na crise da saúde que viveu o Estado.

A aposentada Sonia Tobar aproveitou que mora a cinco quarteirões do hospital itinerante e foi lá cuidar de um resfriado. “Foi rápido e bom o atendimento, mas eu queria medicamentos para meu resfriado, vou ter de comprar na farmácia. Só me deram medicamento para a pressão.”

Outra aposentada, Clotilde Mena esperava para fazer um raio-x da perna fora de uma barraca. “Os hospitais daqui são péssimos. Aqui com os brasileiros está melhor. Espero que fiquem por um bom tempo aqui”, afirmou.

A missão tem prazo inicial de dois meses, mas depende da recuperação do hospital Felix Bulnes, comprometido pelo sismo de 27 de fevereiro.

Os brasileiros chegaram no dia 3 de março, apenas 48 horas depois do presidente Lula ordenar a ajuda ao Chile. O contingente naval, formado por 46 do grupo de saúde e 57 fuzileiros, veio com unidade para cirurgias de médio porte, sala de dentista, laboratório, farmácia (com remédios grátis), caixas d´água, gerador, purificador de água e até uma ambulância com tração nas quatro rodas, especial para resgates em terreno adverso. E os computadores trazidos do Brasil já estão interligados com o sistema de saúde chileno.

“Vamos fazer até cirurgias eletivas, como as de hérnia, porque a fila desse tipo de operação chega a ser de três anos aqui”, revela Araújo.

Desde o sábado passado, quando tudo ficou pronto, já foram atendidas mais de 800 pessoas, algumas encaminhadas pelo hospital fechado, mas muitas por conta própria. Uma barraca exclusiva para pediatria de emergência será montada, afinal, o hospital clausurado era especializado nisso.

 

Chega ao local um garoto com o braço quebrado. Nada a ver com o terremoto. Ele se machucou jogando futebol. Depois um senhor com uma ferida no olho. Uma garota com um bebê que tem febre.

Os militares brasileiros dormem em barracas ao fundo do clube esportivo. Uma das barracas é das mulheres da missão. Uma delas é a doutora Simei Abreu. “Os chilenos são muito carinhosos. Ainda não deu saudade de casa. Além do mais, todos aqui são amigos”, conta, tendo nas mãos uma sacola com o rancho do almoço: a brasileiríssima mistura de abóbora e carne seca.

Os jalecos brancos dos médicos se misturam com o uniforme camuflado dos militares. “Vamos falando em portunhol ou pelo próprio olhar, mas as coisas estão saindo bem com os profissionais chilenos. Chegou um paciente com parada cardíaca. E a gente conseguiu ressuscitá-lo e levá-lo a um hospital especializado”, relata Araújo.

Destino semelhante tiveram dois hospitais de campanha que a Argentina enviou e foram para nas cidades de Parral e Curicó (ao sul de Santiago), para substituir prédio hospitalar comprometido pelo tremor.

No total, dez hospitais chilenos foram destruídos e 29 sofreram danos e tiveram que fechar (14 deles com queda de mais 75% de sua estrutura). Os mais atingidos foram as construções que tinham mais de 50 anos de existência.


 

 

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