UOL Notícias Especial Trânsito
 
Andando na contramão da maioria da população de São Paulo, há um grupo de pessoas na cidade que quer - e gosta - que o trânsito pare a cada esquina. Para os vendedores de rua da capital paulista, os congestionamentos e o trânsito caótico são bons: é dali que eles tiram seu ganha-pão.

"Quanto mais trânsito, melhor para nós", disse Reinaldo Francisco de Pontes, 42 anos, que vende alho em um cruzamento. "Sem trânsito tiro uns R$ 100, com trânsito chega a R$ 200", faz coro o vendedor de óculos de sol Brás Correia de Lemes, de 41 anos, 26 deles no farol.

Não há estatística na Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), no IBGE e nem na prefeitura sobre esses comerciantes informais das ruas da cidade. Mas, diariamente, e especialmente nos horários de pico de trânsito, um verdadeiro exército de vendedores vai a campo com seu arsenal de apetrechos e bugigangas, úteis ou não aos motoristas. Se imaginarmos que há 5.700 cruzamentos com semáforo em São Paulo, de acordo com a CET, já dá para se ter uma idéia.

Encontra-se de tudo "à venda" nas ruas e avenidas de São Paulo: balas, chicletes, flores, água mineral, refrigerante, carregador de celular, frutas, bonecos infláveis, bandeiras e camisas de times de futebol, sombrinhas e guarda-chuvas, e até mapas do Brasil. Sem falar nas exibições de malabarismo comuns em alguns cruzamentos, e nos limpadores de vidro, que volta e meia irritam motoristas ao jogar água com sabão no pára-brisas antes de perguntar se o dono do carro aceita o serviço.

Entre os itens mais "exóticos" encontrados pela reportagem do UOL, binóculos e colete inflável para crianças. O primeiro vendido por Fernando Tomais de Aquino, 47 anos, a R$ 40 cada, e o segundo por Valter de Oliveira, 58 anos, por R$ 15 cada. E há quem compre.

Há ainda quem faça de seu próprio corpo uma "vitrine" de produtos. O mais "carregado" era Jorge Murilo dos Santos, 42 anos. Em seu peito, braços e mãos, ele levava clipes para cinto de segurança, carregador de celular, guarda-chuva infantil e diversos pica-paus de pelúcia.

Longe de ser um contingente de sem-teto ou necessitados, todos os vendedores com quem o UOL conversou disseram ter escolhido essa "profissão". A maioria trabalha de segunda a sexta, em horários mais ou menos fixos. Os "ganhos" podem chegar a R$ 1.200. Vale lembrar, livre de impostos.

Alguns pontos de maior movimento, como o cruzamento das avenidas Brasil e Rebouças, têm "donos" e podem até virar herança. Ubiratan Pereira dos Santos, 32 anos, "recebeu" o ponto de seu irmão.

Os lucros do semáforo extrapolaram ainda as fronteiras de São Paulo. Adriano Magno, 20 anos, veio da Bahia há um ano "agenciado" especialmente para trabalhar em um semáforo. Vende cofrinhos que, diz, também vêm da Bahia.

Para o professor da Unicamp e pesquisador do Cesit (Centro de Estudos Sindicais e Economia do Trabalho), Amilton Moretto, esses são indícios de que o tráfego intenso está impulsionando o trabalho no farol e gerando formas de estruturação. Tanto que há vendedores que já têm até um "patrão", que fornece a mercadoria, coordena o ponto e paga uma porcentagem sobre a venda.

"O trânsito complicado é uma demanda potencial para esses trabalhadores. Se está tudo parado, há tempo para vender. Até na marginal, que não tem farol, hoje é possível o comércio. E essas pessoas realmente vendem, senão não estavam ali", analisou. Ambulantes aproveitam a parada nos 5.700 cruzamentos com semáforo da cidade para vender itens que vão de balinha a binóculos e pica-paus de pelúcia

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h16

    -0,05
    3,173
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h23

    1,12
    65.403,25
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host