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Para o professor da Universidade de Brasília Joaquim Aragão, transporte coletivo só entra na agenda do poder público quando está ligado à realização de obras e secretário de transportes é cargo que se dá a "inimigo político". Docente do mestrado em transportes da UnB, Aragão foi um dos convidados de audiência pública na Câmara dos Deputados que discutiu, no final do mês passado, soluções para o trânsito nas metrópoles.

"O transporte coletivo está fora da agenda do governo federal, que há mais de uma década deixou de colocar as cidades na pauta, assim como os governos locais", afirmou. Segundo ele, o tema só é contemplado "quando há emergência de problemas de engarrafamento". Outra motivação para colocar o assunto em pauta, em sua opinião, seriam as obras viárias. "Só que viadutos, pontes, têm mais efeito como obras do que para o transporte."

No encontro, o professor defendeu a abertura do mercado de transporte urbano a empresas internacionais, pequenos empreendedores e investidores de fora do setor. "Não dá pra investir mantendo os mesmos operadores que estão aí", argumentou.

O especialista não poupou críticas às empresas de ônibus. Ele acredita que elas forçam uma renovação de frota que seria "inútil". "Poderiam investir em manutenção", justificou. "Mas priorizam o investimento em capital. Porta do lado esquerdo? Ônibus biarticulado? Piso rebaixado? Não, é complicação demais. Elas preferem simplificar os carros para depois poderem revender para outros países da América Latina."

Aragão reclamou também da falta de informação aos usuários nas paradas de ônibus, da impontualidade, e da pressão das empresas para renovação de contratos com os governos. "Também é difícil implantar o bilhete único, porque há uma resistência das empresas à integração tarifária e à liberação de dados econômicos e financeiros em tempo real para o poder público."

Diante das dificuldades do setor, o professor destacou que "secretário de transportes é cargo que você dá ao seu inimigo político". Citou ainda o caso da ex-prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, que, em sua opinião, fez um bom trabalho no setor de transporte público, que não lhe rendeu votos. "A Marta foi reeleita por causa do investimento em transporte? Não, porque transporte público não dá voto. Se tivesse investido em viadutos, a imprensa a teria festejado como política realizadora. Construir obras viárias dá visibilidade. Por isso a priorização do transporte individual: é só construir."

O engenheiro José Carlos Mello apresentou uma posição contrária ao do acadêmico. Para ele, o transporte público não está na agenda dos governantes porque não é prioridade. "Na última eleição municipal em São Paulo, transporte estava em oitavo lugar. O sujeito no Rio de Janeiro está lá preocupado com transporte público? Ele quer segurança e austeridade fiscal", destacou.

Especialista em trânsito e atual vice-presidente da Gol, Mello expôs uma opinião pessimista ao dizer, com ironia: "Talvez eu tenha sido convidado porque não há mais solução para o trânsito em terra. Somente no ar". Para ele, o problema nas metrópoles brasileiras existe por uma omissão dos homens públicos ao longo da história.

"É impossível às prefeituras e aos Estados ficarem com todo o ônus do transporte público", disse, ressaltando a importância da ajuda do governo federal para a execução de obras como o metrô. "O metrô é um projeto eminentemente público; não atrai a iniciativa privada por exigir grande investimento inicial e ser projeto contínuo."

Sem financiamento público, disse, as opções seriam apenas medidas "paliativas". "Bicicleta, placa ímpar - placa par, faixa exclusiva de ônibus, tudo isso que é visto como novidade, mas que já existe há anos. No Brasil, ser moderno é voltar no tempo."

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