UOL Notícias Especial Trânsito
 
Para o professor Ronaldo Guimarães Gouvêa, coordenador do Nucletrans (Núcleo de Transporte da Escola de Engenharia da UFMG), o transporte clandestino persiste na região metropolitana e em algumas áreas de Belo Horizonte em razão da ineficiência do setor público em gerir o transporte público de forma adequada.

"O perueiro existe porque há um nicho de mercado, que é atendido pelo transporte clandestino. Ele não existiria se esse nicho estivesse sendo atendido de forma adequada pelo poder público. É obvio que a sociedade está procurando formas diferenciadas de transporte como forma de escapar de um transporte coletivo de baixa qualidade", disse.

As razões pelas quais essa fatia da população prefere utilizar o perueiro, segundo Gouvêa, são, primordialmente, a rapidez oferecida pelo transporte clandestino (tanto no deslocamento quanto na frequência), a falta de confiança do usuário no cumprimento dos horários dos ônibus regulares, a tarifa cobrada sem contrapartida no serviço prestado e o conforto aos passageiros.

"Apesar de não existir nenhuma garantia de segurança no transporte clandestino, o sistema regular também não é confiável, o indivíduo não tem certeza de que poderá chegar ao ponto de embarque e tomar o ônibus no horário anunciado pela empresa que explora o trecho, não há programas estabelecidos na tentativa de baixar o custo da passagem e o conforto que poderia fixar o usuário, pelo menos no horário de pico, é inexistente. As pessoas ficam entulhadas", afirmou.

Ele diz não ter como precisar o número de pessoas que abandonaram os ônibus convencionais e passaram a se locomover por vans clandestinas em Belo Horizonte e na região metropolitana, mas faz um alerta.

"A fatia de pessoas que andam em peruas e vans piratas, se formos olhar o bolo de passageiros que são embarcados somente na capital, que hoje gira em torno de um milhão e quatrocentos mil por dia, não é muito alta, mas é uma coisa latente, que está aí, presente, e pode retornar com força", teoriza.

O professor diz ter detectado uma inércia dos governantes em ofertar alternativas a um público considerado por ele como diverso e heterogêneo.

"O poder público tapa o sol com a peneira e simplesmente tenta coibir o perueiro colocando a polícia em cima, mas não oferece nada em troca. O governo não vê que a sociedade se transformou, não dá mais para enquadrar todo mundo em um modelo engessado de transporte público. As pessoas são multifacetadas, desde os que podem pagar mais por um serviço diferenciado até os que necessitam de isenção como forma de sair de uma situação desfavorável", exemplificou.

Levantamento do DER revela que o número de passageiros transportados de forma legal por ano em todo o Estado de Minas Gerais caiu de 380 milhões de pessoas por ano há dez anos para 300 milhões.

Para Lindberg Ribeiro Garcia, assessor técnico da Subsecretaria de Transporte do Estado, órgão ao qual o DER está subordinado, o transporte pirata não absorveu a totalidade dos passageiros que deixaram de utilizar o meio regular, mas foi o principal causador da evasão.

"É claro que não podemos atribuir aos perueiros a totalidade da diminuição de pessoas, mas eles são responsáveis por pelo menos 80% da perda de passageiros", afirmou.

Questionado se ineficiência do transporte público teria sido uma das causas para a preferência de usuários em usar o serviço dos perueiros, Garcia discorda.

"Os perueiros não andam a não ser com lotação completa, muitas vezes com pessoas em pé, até uma no colo das outras, como já foi flagrado. Então, não existe essa lenda de que o perueiro veio para desafogar um sistema de transporte regular saturado. Eles não dão conforto para ninguém. É pura e simplesmente uma atividade pirata. E o pior, a população desavisada aceita isso com naturalidade. Já pegamos até motoristas armados", diz.

Para Ronaldo Gouvêa, da UFMG, a questão do transporte coletivo suplanta a questão do perueiro e deveria haver uma mudança na concepção do serviço e no relacionamento com o cidadão.

"As prefeituras têm de para de gerir o transporte coletivo como um mercado meramente econômico e passá-lo a enxergar como um fator social de desenvolvimento. Se o desempregado não tem dinheiro nem para se locomover no transporte público, como ele vai encontrar trabalho? Uma autoridade que gerencia o trânsito na capital me afirmou que cerca de 30% de possíveis usuários do transporte público não o utilizam por falta de dinheiro", disse.

Para baratear a passagem cobrada, ele indica a isenção de imposto sobre o serviço e a criação de uma câmara de compensação tarifária.

"Parcela da Cide (contribuição cobrada sobre combustíveis) poderia ser utilizada na composição dessa câmara e, por exemplo, parcelas de transações de aluguel de imóveis ou de vendas deles também poderiam compô-la. Não dá mais para colocar somente no ombro do usuário o custo do transporte", diz.

Em relação aos táxis de outros municípios que fazem transporte irregular de passageiros na capital, Gouvêa atribui a culpa também aos governantes. "Muitos prefeitos do interior, por meio de políticas populistas, distribuem concessões de táxis acima do que a cidade comporta. O taxista se vê obrigado a cometer a infração para conseguir uns trocados", disse.

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h09

    -0,80
    3,132
    Outras moedas
  • Bovespa

    16h15

    1,09
    64.455,22
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host