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Para os defensores da bicicleta como meio de transporte na cidade, só um trajeto merece o nome de ciclovia em São Paulo: o da Radial Leste, batizado pelo governo de Caminho Verde.

Essa é a posição, por exemplo, de André Pasqualini, organizador do Desafio Intermodal, que pôs bicicletas, carros, motos e até helicópteros numa espécie de corrida na semana passada em São Paulo (deu bicicleta, aliás). "As outras ou são pequenas demais, ou foram desativadas ou não têm manutenção", afirma - caso, por exemplo, da ciclovia da avenida Sumaré, que tem graves problemas de manutenção, reconhecidos pela subprefeita Soninha. A Prefeitura afirma que São Paulo tem 35 km de ciclovias, 19 km dentro de parques.

O primeiro trecho da ciclovia da Radial Leste foi inaugurado em 27 de setembro de 2008, ou seja, há um ano, ligando a estação Guilhermina-Esperança à Estação Itaquera. Era metade do trecho total, planejado para ter 12,2 km.

A SEMANA SEM CARRO

O UOL Notícias publica nesta semana, marcada pelo 22 de setembro (o Dia Mundial Sem Carro), uma série de reportagens mostrando as cinco opções de deslocamento sem ser o transporte individual sobre quatro rodas. Além do texto desta segunda sobre os trens da Grande São Paulo e a desta terça sobre bicicletas, a série trará até sexta matérias sobre viagens de ônibus, metrô e a pé.

Atualmente, há um outro trecho quase pronto, entre Tatuapé e a Guilhermina-Esperança, interrompido por um viaduto próximo à estação Vila Matilde. A obra já foi licitada e, segundo a Secretaria Estadual de Transportes Metropolitanos, o prazo para a entrega é março de 2010.

Até lá, os ciclistas que desejam passar de um trecho para o outro acabam precisando atravessar algumas pistas da Radial e passar por caminhos improvisados, correndo riscos - o que está claramente sinalizado na ciclovia.

Se para quem está na zona leste a ciclovia da Radial é incompleta e oferece dificuldades de circulação, mais difícil ainda é, para quem está em outras regiões da cidade, chegar até a via. Antes de percorrê-la, o repórter do UOL Notícias, saindo da zona oeste e usando apenas transportes públicos, precisou pegar ônibus e metrô. Na volta, usou o trem.

O trânsito de bicicletas na ciclovia é bastante leve, especialmente quando se tem ao lado a grande fila de carros da Radial, mas não chega a ser desprezível. Alguns a usam para o lazer, mas muita gente tem na bicicleta o meio de transporte que leva ao trabalho.

O percurso da reportagem

14h58Sai a pé do UOL e pega, rapidamente, ônibus até o metrô Anhangabaú. Vai sentado
15h24Entra no metrô Anhangabaú. Fica em pé só uma estação
15h43Desce no metrô Carrão e segue até o posto de aluguel de bicicletas da estação
15h54Atravessa a Radial Leste com uma bicicleta alugada, após preencher o cadastro e comprovar o endereço, e chega à ciclovia. Percebe que as mudanças de marcha não funcionam. Como o capacete era pequeno, teve de usar o próprio e carregar o alugado
16h05Após retornar e trocar a bicicleta, chega de novo à ciclovia da Radial e começa o percurso em direção a Itaquera
17h30Chega a Itaquera - após algumas paradas para entrevistas e fotos. Entrega a bicicleta e paga R$ 2 no cartão de crédito (o que é obrigatório; não é possível pagar em dinheiro)
18hApós mais algumas entrevistas, pega o trem (Expresso Leste) em direção à Luz
19h17Depois de fazer baldeações (sempre de trem) na Luz, Barra Funda e presidente Altino, desce na Estação Rebouças, na Linha 9. Faz todo o percurso em pé, mas nunca "espremido"
19h32Chega, a pé, ao UOL
É o caso do faxineiro Gilberto Paulo Ignácio, que desde janeiro percorre numa bicicleta nova mais de 50 km por dia entre a sua casa e o condomínio em que trabalha, no Tatuapé.

Ignácio conta que pagou, em janeiro, R$ 150 de entrada por sua magrela e que, atualmente, arca com uma prestação mensal de R$ 34,99 - serão dez, no total. Para ele, compensa: seriam cerca de R$ 130 mensais com metrô, contabiliza. "Tô achando que a bicicleta vai ser o transporte do futuro."

A Secretaria Estadual de Transportes Metropolitanos afirma não ter dados atuais sobre o número de usuários da ciclovia. A zona leste, no entanto, segundo a pesquisa de Origem e Destino do Metrô, é a segunda que mais usa bicicleta na cidade, perdendo apenas para o centro de São Paulo.

São 49 mil viagens que tem como origem a região por dia, cerca de 16% de um total de 305 mil. Esses números, identificados em 2007, portanto antes da implementação da ciclovia da Radial Leste, significaram um aumento de quase 100% em relação às 160 mil viagens de bicicleta que eram realizadas por dia dez anos antes.

Dez anos atrás, Ronaldo Francisco Pereira já usava bicicleta para fazer o trajeto entre o bairro da Parada 15, onde mora, e a região da Anália Franco, onde fica o depósito da metalúrgica em que trabalha - os dois bairros ficam na zona leste, e a ciclovia só facilitou as coisas.

"Levanto às 5h, saio às 6h, chegou às 7h", resume. Sua bicicleta, a quarta desde que começou a usar prioritariamente o meio de transporte, tem um ano e custou R$ 548. Por mês, calcula, gasta R$ 30 em manutenção. Ele sai equipado: tem bomba, material para pequenos reparos e equipamento de sinalização.

O diretor do CEU (Centro Educacional Unificado) Azul da Cor do Mar Luiz Tarcísio Botelho de Souza conta que usa a ciclovia sobretudo para se exercitar.

Alguns anos atrás, ele enfrentava uma crônica hérnia de disco. Passou a andar de bicicleta e melhorou progressivamente. Hoje, faz trilhas de até 150 km. Tem duas bicicletas e, todos os dias, pedala pelo menos 20 km.

Embora elogie a existência do trajeto, Botelho de Souza se queixa do piso, "cheio de buracos, todo remendado", e reconhece que o número de ciclistas aumentou muito desde que a ciclovia foi inaugurada.

Ele também critica o crescimento de vegetação sobre a pista e reclama do fato de a ciclovia não fazer parte de um sistema, mas estar isolada. "Faltam interligações", completa.

Projetos
Um trabalho feito pelo militante pró-bicicleta Henrique Boney, reproduzido abaixo, aponta as ciclovias e as rotas ciclísticas (trechos não necessariamente exclusivos, mas sinalizados e em vias seguras para ciclistas) que estão previstas nos Planos de Regionais Estratégicos das subprefeituras de São Paulo, elaborados em 2004.

Além de ter ficado longe de prover os 275 km levantados nos PREs por Boney até 2006 (identificados em vermelho; em azul estão outros 92 km que deveriam ficar prontos até 2012), o levantamento mostra que a ciclovia da Radial Leste não fazia parte dos planos.


Fonte: levantamento realizado pelo cicloativista Henrique Boney a partir dos Planos Diretores Estratégicos
em vigor, elaborados para cada uma das subprefeituras da cidade de São Paulo Visualizar mapa maior


Procurada pelo UOL Notícias, a Secretaria de Transportes Metropolitanos afirmou que, "pelo convênio assinado com a Prefeitura, o Metrô é responsável pela manutenção paisagística e esclarece que o serviço de poda é realizado periodicamente, estando programada nova poda para os próximos dias".

Ainda segundo a secretaria, o Metrô estuda assumir a manutenção da pista, que hoje é de responsabilidade da Prefeitura.

O governo do Estado também afirma que, além da ciclovia da Radial, vai implantar uma ciclovia, com cerca de 20 km, ao longo da linha 9-Esmeralda da CPTM, na marginal Pinheiros, entre as estações Jurubatuba e Ceasa, perto do Parque Villa-Lobos. "No momento, a CPTM realiza o estudo para a implantação da ciclovia, o qual deverá indicar os prazos para início e conclusão da obra."

A Prefeitura de São Paulo, por sua vez, anunciou em agosto que no segundo semestre de 2010 entregará 45 km de vias para ciclistas nos bairros Jardim Helena (leste), Jardim Brasil (norte) e Grajaú/Cocaia (sul).

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