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Uma semana sem carro. Um mês, um ano, uma década, ou melhor, uma vida sem carro. E também quase sem outros meios motorizados. A empregada doméstica Maria Dolores só pega ônibus quando sua patroa dá o dinheiro da passagem para ela não se ensopar em dia de chuva forte.


  • Rodrigo Bertolotto/UOL

    No Capão Redondo, mulheres preferem subir ladeira pela rua e não pela escada de pedestres

"Ando uma hora para ir trabalhar e outra para voltar para casa. Só assim tenho dinheiro para colocar em casa", diz a moradora do bairro Piraporinha que ganha R$ 180 mensais trabalhando em uma residência do Jardim Maracá, outro bairro da Zona Sul de São Paulo. Se pegasse ônibus, deixaria por mês cerca de R$ 102 na catraca e não gastaria com sua família, marido e dois filhos adolescentes, que também só contam com as pernas para se locomover.

Pessoas como Maria Dolores são comuns à beira da estrada do M`Boi Mirim, principal via de acesso a bairros como Capão Redondo e Jardim Ângela, sinônimos paulistanos da exclusão social.



Manoel Pereira está prestes a se aposentar e faz um bico a 25 minutos a pé de sua casa no Jardim Imbé. "Como estou com uns problemas no coração, essa caminhada serve como meu exercício diário", se conforma o pedreiro.

Pena que a calçada estreita da avenida não seja um dos locais mais saudáveis da cidade, afinal, a frota de caminhões, ônibus e carros velhos cospe uma fumaça escura em quem se aventura por essa trilha.

É o caso de Jônatas de Sousa, que vai para a escola no Capão também a pé. "Só não gasto a sola do tênis quando meu irmão empresta a moto para dar rolê no domingo", conta o estudante do ensino médio, em meio ao ronco da avenida que está entre os dez locais que mais apresentam atropelamentos em São Paulo (as campeãs são as marginais Tietê e Pinheiros).

Longe dos flâneurs ou dos "andarilhos urbanos", essas pessoas estão à margem do sistema de transporte, mas estão esquadrinhadas em estatísticas como a pesquisa de Origem-Destino, feita pelo Metrô de São Paulo.

Atualmente, 33% dos deslocamentos feitos na cidade são a pé, ou seja, 1/3 do total - esse número inclui até caminhadas para o almoço. Esse número já chegou a 36% nos levantamentos feitos em 1987 e 2002.

Mas a porcentagem ultrapassa dos 60% para quem ganha até R$ 400 mensais e gira em torno de 50% entre os que têm vencimentos até R$ 800, segundo a pesquisa de 2002 (a última, de 2007, não esquadrinhou a categoria menos privilegiada da região e englobou tudo no subgrupo "até R$ 760").



ARTE UOL
O UOL Notícias publica nesta semana, marcada pelo 22 de setembro (o Dia Mundial Sem Carro), reportagens mostrando opções de deslocamento sem ser o transporte individual motorizado.

Na média, essas viagens com tração humana gastam 16 minutos - muito menos que casos extremos como o da empregada doméstica Virgínia Maria Santos, que ganhou as páginas de jornal ao percorrer 11 quilômetros diários e gastar 2h50 para ir de sua casa na divisa de Guarulhos até seu serviço no Mandaqui (e, pasmem, o mesmo tanto para retornar).

O estudo do Ministério das Cidades intitulado "Como anda São Paulo" apontou que o preço da condução (R$ 2,30 do ônibus e R$ 2,55 dos trens e metrôs) é o principal motivo pela escolha deste meio entre os entrevistados que recebem até quatro salários mínimos.

"O aumento das viagens curtas e a pé entre os mais pobres certamente vem refletindo a dinamização dos espaços periféricos e a forte heterogeneidade social que se acentuou na periferia nos últimos anos", afirma o relatório.

"A análise dos motivos que levam aos deslocamentos a pé, quando as distâncias não são curtas, vem esclarecer muitas das inadequações da oferta de transporte coletivo para este segmento e explicar grande parte das carências desse setor", explica o documento.

Essa parcela da população não se beneficiou nem com a implantação de sistemas como o "bilhete único", que evitou gastos maiores com a baldeação de um ônibus para o outro. "O trânsito às vezes é tanto aqui no M`Boi Mirim que é mais rápido ir a pé mesmo. Depois eu faço um caminho que é um atalho. Chego em menos tempo", conta Maria Dolores sobre sua maratona diária.

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