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Fernando Rodrigues



29/08/2005
PT tem R$ 3,280 mi de depósitos em dinheiro

Por Fernando Rodrigues
Brasília - DF


  • Só R$ 600 mil têm origem conhecida: funcionários da sigla
  • Outros R$ 2,680 mi não têm identificação
  • Veja aqui os fac-símiles dos extratos bancários do PT

  • A CPI dos Correios atirou no que viu e acertou no que não viu. A não ser que o Banco do Brasil tenha mandado informações erradas, o Partido dos Trabalhadores terá grandes dificuldades para explicar um alto volume de depósitos em dinheiro recebidos no início de 2004, quando estava em pleno vigor a relação entre a sigla e o empresário Marcos Valério de Souza, acusado de ser um dos principais provedores de caixa dois para partidos políticos.

    A intenção da CPI dos Correios era apurar mais detalhes sobre como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva havia quitado um débito seu com o PT. Por essa razão, a CPI requereu os extratos bancários do partido de dezembro de 2003 a maior de 2005, período que abrangeria os pagamentos de Lula à sigla.

    Ainda não está esclarecido como foi exatamente que Lula quitou em 4 parcelas o seu débito de R$ 29.436,26. Mas apareceram dados curiosos: muitos depósitos em dinheiro sem identificação de origem, como mostra a tabela abaixo:

    Depósitos em dinheiro na conta do PT
    Conta 13.000 - Ag. 334 - Banco do Brasil
    datavalor do depósitoportador
    18/12/2003R$150.000,00desconhecido
    23/12/2003R$150.000,00desconhecido
    29/12/2003R$300.000,00Carlos Alberto Timóteo
    6/1/2004R$300.000,00Alex Vieira Costa
    28/1/2004R$300.000,00desconhecido
    11/2/2004R$250.000,00desconhecido
    11/2/2004R$130.000,00desconhecido
    19/2/2004R$60.000,00desconhecido
    26/2/2004R$200.000,00desconhecido
    26/2/2004R$30.000,00desconhecido
    9/3/2004R$90.000,00desconhecido
    11/3/2004R$110.000,00desconhecido
    18/3/2004R$40.000,00desconhecido
    29/3/2004R$160.000,00desconhecido
    30/3/2004R$40.000,00desconhecido
    1/4/2004R$30.000,00desconhecido
    14/4/2004R$160.000,00desconhecido
    14/4/2004R$20.000,00desconhecido
    22/4/2004R$80.000,00desconhecido
    26/4/2004R$110.000,00desconhecido
    12/5/2004R$200.000,00desconhecido
    14/5/2004R$200.000,00desconhecido
    27/5/2004R$170.000,00desconhecido
    R$3.280.000,00
    Fonte: extrato bancário na CPI dos Correios


    Como se observa, são 23 depósitos, todos em valores redondos, variando de R$ 20 mil a R$ 300 mil. O total é de R$ 3,280 milhões. O período do extrato analisado vai de 15 de dezembro de 2003 a 31 de maio de 2004 - na principal conta bancária do PT, a de número 13.000, na agência 3344, do Banco Brasil. É nessa conta que o partido recebe os seus recursos do fundo partidário, o dinheiro oficial a que todas as siglas têm direito conforme o seu desempenho eleitoral.

    O PT prometeu para hoje (29.agosto.2005) uma explicação sobre esses depósitos. As duas únicas operações identificadas foram realizadas por funcionários do partido. A "Folha de S.Paulo" localizou os dois, mas eles se recusaram a falar.

    Há duas hipóteses menos ruins para o PT. Primeiro, o Banco do Brasil errou e esses depósitos foram devidamente identificados e podem ter a origem comprovada. Segundo, o partido recebeu muitas doações em dinheiro, tem os recibos de tudo e provará de onde recebeu tantos recursos.


    Empréstimo de Lula

    Os empréstimos ajudam pouco a esclarecer a dívida de R$ 29.436,26 do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com o PT. Esse débito foi saldado de maneira parcelada, de dezembro de 2003 a março de 2004.

    A análise preliminar da CPI dos Correios indica uma possível operação de reutilização de recursos do próprio PT para saldar a dívida do presidente da República - mas isso não pode ser afirmado de maneira conclusiva.

    Nos dias anteriores aos pagamentos efetuados para quitar a dívida de Lula há também saques realizados em valores semelhantes. Por exemplo, nos dias 24 e 29 de dezembro de 2003, alguém cujo nome não aparece nos documentos sacou duas vezes o valor de R$ 7.000.

    No dia 30 de dezembro de 2003, foram feitos dois depósitos "online". O primeiro, no valor de R$ 12 mil para quitar dívida de Luiz Inácio Lula da Silva. O segundo, de R$ 2.000 para pagar débito atribuído ao senador Aloizio Mercadante (PT-SP).

    O senador petista já declarou que tem como comprovar o saque de sua conta pessoal, em dinheiro, para entregar ao PT e quitar essa pendência. O presidente da República primeiro negou o débito. Depois, disse que o valor se referia a adiantamento recebido do PT, ainda quando não ocupava o Palácio do Planalto, para fazer uma viagem ao exterior. O dinheiro acabou sendo lançando como dívida na contabilidade da sigla.

    No segundo pagamento de Lula, outra coincidência no extrato bancário do PT. Em 28 de janeiro de 2004, aparece um saque no valor de R$ 7.000 da conta do partido. De novo, sem identificação. No dia seguinte, 29 de janeiro, alguém faz um "depósito online", também sem identificação, no valor de R$ 6.000 para quitar outra parcela da dívida de Lula. Nesse caso, o valor sacado ficou R$ 1.000 acima do depositado.

    Em 26 de fevereiro de 2004, entretanto, ocorre um saque de R$ 5.000. No dia seguinte, alguém realiza um “depósito online” de R$ 6.000 e salda mais uma parcela da dívida de Lula.

    Só o pagamento da última parcela do débito presidencial, de R$ 5.436,26, em 30 de março de 2004, não foi precedido de saques em dinheiro na conta do PT.

    O PT ainda não comentou essas coincidências, publicadas na edição de sábado da "Folha de S,Paulo". O partido prometeu um comentário para hoje (25/agosto/2005).

    O Palácio do Planalto tem sempre repetido a mesma versão a respeito da dívida de Lula - o tal adiantamento de verbas para uma viagem ao exterior. Por problemas não conhecidos, o valor acabou sendo lançado como débito na contabilidade do partido.

    A versão mais recente para a quitação da dívida é do presidente do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio a Micro e Pequenas Empresas), Paulo Okamotto. Ele afirma ter pago o débito com recursos próprios. Para tal, teria realizado saques em suas contas bancárias em datas e valores não coincidentes com os das parcelas da dívida de Lula com o PT. O dinheiro teria sido repassado ao PT, disse Okamotto, amigo do presidente.
    Okamotto não guarda recibos dos saques que realizou para produzir o numerário e entregar ao PT. Também diz não se recordar do nome de quem no PT teria recebido o dinheiro.

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