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Fernando Rodrigues



05/02/2007
O mito do Congresso pior

Por Fernando Rodrigues
Brasília - DF


É cômodo dizer que a cada quatro anos surge um Congresso pior. Esse mito tem origem no desapreço nacional pela democracia. Se deputados e senadores não prestam, para que tê-los? Daí ser sempre regurgitado, aqui e ali, o desejo de fazer tudo na marra. As abomináveis MPs para o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) nada são além disso.

A realidade destrói o mito. Congressos passados no Brasil foram um amontoado de gente empertigada e incapaz de produzir um regime democrático estável. Discursos beletristas sabiam fazer, mas não resistiam a períodos ditatoriais sucessivos -o último de absurdos e longos 21 anos (1964-1985).

Há também a tese "congressistas de antigamente eram melhores". Mais ou menos. Tome-se o exemplo mais recorrente, Ulysses Guimarães. Nos anos 70, deveria ter combatido o Colégio Eleitoral que escolhia presidentes "manu militari".

Mas a ambição fez de Ulysses um anticandidato que não renunciou à disputa, como combinado. Derrotado, legitimou a farsa. Mais adiante, a dificuldade atroz de Ulysses para atingir intelectualmente o século 20 o impediu de evitar o maior monstrengo legislativo que uma democracia poderia conceber -a Constituição Cidadã (sic), cujo efeito prático foi congelar o abismo entre ricos e pobres, dado o número de privilégios criados para determinadas castas.

Só a corporação dos advogados é citada incríveis 23 vezes no texto. Tudo para dizer ser impossível avaliar com ciência se os Congressos têm sido piores ou melhores. A única certeza é a transparência cada vez maior. Hoje estão à luz do dia muitas das mazelas seculares dos congressistas. Ou alguém imagina que mensalão e sanguessugas não existiam no passado? Existiam. Só eram invisíveis aos eleitores. Achar o Congresso Nacional pior é como ter saudade de algo que nunca existiu.


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