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Fernando Rodrigues



16/05/2007
Padrões de perfeição

Por Fernando Rodrigues
Brasília - DF


A Folha aqui em Brasília está em frente a um edifício chamado "Venâncio 3000". O prédio é horrível. Em três blocos, assemelha-se a grandes caixas de sapatos alinhadas. Do lado de fora, uma reforma de quase meia década tenta dar uma maquiada no lugar. Outro dia choveu. As entradas do estacionamento ficaram alagadas. Alguém esqueceu de fazer um bueiro para as águas pluviais.

O Venâncio 3000 é mais ou menos como o Brasil: está melhor do que antes da reforma, mas há uma sensação de trabalho malfeito combinado com falta de planejamento. Cedo ou tarde a maquiagem se vai e teremos problemas sérios.

Não é esse o entendimento do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre o país. Na sua entrevista coletiva ontem, o petista ontem só faltou colocar o Brasil à frente da Suécia ou de outro país estável do Primeiro Mundo. Não só o Brasil. Lula também se acha em excelente estado. Uma de suas frases: "Eu já estou atingindo a minha perfeição".

É um padrão curioso de perfeição. Lula parece confundir situação melhor com excelência. Beneficiou-se de uma fórmula engenhosa e eficaz: o crescimento medíocre conjugado à inflação baixa (para padrões brasileiros). Reeleito, passou a acreditar ter encontrado uma espécie de "santo graal" para a administração do país. Nunca a expressão "conceder uma entrevista" foi tão verdadeira.

Ontem, era o comandante supremo fazendo uma concessão -não um homem público cumprindo o dever de prestar contas. As réplicas dos jornalistas eram inúteis. A respostas vinham, em regra, desprovidas de objetividade.

Mesmo talvez detestando a maioria dos presentes, Lula sorria para os perguntadores. Buscava uma cumplicidade cordial. Emulou à perfeição -aí, sim- o estilo dissimulado descrito por Sérgio Buarque de Holanda em "Raízes do Brasil".



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