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Fernando Rodrigues



07/03/2009
413 linhas em 3.000 páginas

Fernando Rodrigues
De Brasília


É reveladora da alma do governo a decisão de censurar 413 linhas nas 3.000 páginas das atas do extinto Conselho de Segurança Nacional. Os documentos foram enviados para consulta pública no Arquivo Nacional.

As atas do CSN foram produzidas de 1934 a 1988. Depois, o órgão foi extinto. Eram ocasiões onde os principais ministros, chefes militares e o presidente da República discutiam a conjuntura. O general Jorge Armando Felix, chefe do Gabinete de Segurança Institucional, justificou a censura. As tarjas pretas sobre o texto encobrem "expressões jocosas e ofensivas". Algumas dessas frases são dos anos 30. Outras, do período da Guerra das Malvinas (1982).

"Se alguma coisa pode causar constrangimento, nós estamos protegendo", disse o general. Para não parecer implicância, é justo reconhecer que nos últimos anos tem sido inédito o volume de material oficial remetido pelo governo para o Arquivo Nacional. Para por aí a boa vontade. Prevalece em certos bolsões da administração Lula (como também era o caso na de FHC) a estratégia de fazer diplomacia com sigilo dos fatos. Como se os argentinos não soubessem o que se fala deles no Planalto. Os focos de resistência são alguns jecas-tatus inflados de poder no Itamaraty. Têm o raciocínio enroscado na Guerra Fria.

Um país desenvolvido não precisa temer a divulgação de ofensas proferidas há mais de 60 anos. Tarjas pretas em 413 linhas de 3.000 páginas podem parecer pouca coisa. Não são. Mostram a covardia atávica do governo quando se trata de permitir ao país olhar para o seu passado. Expõe outra vez uma cultura arraigada de não-transparência. Até porque, pior do que as tarjas pretas é não haver prazo específico para a sua retirada. Ficarão lá, para sempre. Essa turma gosta mesmo é de sigilo eterno.


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