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Fernando Rodrigues



28/03/2009
Simulacro de indignação

Fernando Rodrigues
De Brasília


A empreiteira Camargo Corrêa seguiu à risca a cartilha das horas amargas. A direção declarou-se perplexa. Afirmou ter feito doações a políticos sempre dentro da lei. O Democratas (ex-Arena, ex-PFL) também demonstrou indignação. Em nota, copiou a empreiteira. Disse fazer as coisas "de acordo com as leis do país".

Foram reações à última ação midiática da Polícia Federal, batizada de Operação Castelo de Areia. Camargo Corrêa, Democratas e alguns outros partidos deram azar. Desta vez, foram eles. É tudo obra do acaso. Nenhum partido ou empreiteira neste país está livre para bater no peito e bradar nunca ter entrado no negócio de "recursos de campanha não contabilizados", para usar o eufemismo de caixa dois criado por Delúbio Soares, o ex-tesoureiro de Lula e do PT.

A reação de todos os apanhados nessas situações segue uma lógica milimetricamente idêntica. Mostram-se surpresos em público e juram estar obedecendo a lei. Nenhum nunca se dispõe a fazer o básico: revelar, em detalhes, tudo o que recebeu (ou pagou) de doações políticas. Tome-se o caso da Camargo Corrêa.

A empreiteira diz fazer tudo dentro da lei. Poderia, portanto, divulgar uma lista completa dos dinheiros enviados a partidos e a políticos -desde os candidatos a vereador até a presidente da República. Nada a impede também de exigir dos partidos recebedores a revelação sobre uso dos recursos. Aí sim haveria transparência, e não apenas o simulacro de indignação assistido nos últimos dias.

Já os partidos estão convidados a detalhar como usam as doações recebidas das empreiteiras. Quem fica com cada centavo desse dinheiro? As siglas argumentarão não haver exigência legal para tal tipo de abertura. Ou, como ensina a filosofia delubiana, "transparência demais é burrice". É mais cômodo indignar-se com as ações da PF.


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