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Fernando Rodrigues



07/09/2009
Memórias de Heliópolis

Fernando Rodrigues
De Brasília


Vivo em Brasília há mais de uma década por dever de ofício, mas passei parte considerável de minha infância e adolescência no ABC, em São Caetano do Sul, o "C" da região do ABC.

Nos anos 70, a diversão dos meninos sem opção de lazer nas poluídas tardes sulsancaetanenses era subir até o "barrocão", o morro separando São Caetano de São Paulo. Só existia um edifício, o hospital Heliópolis. Em volta, vários campos de futebol de terra. Era chegar e jogar.

O ambiente bucólico oferecia também uma mina de água. Os anos foram passando. Os campos, rareando. Chegaram os barracos. Depois, as horrendas microcasas populares construídas por Jânio Quadros. E alguns prédios malfeitos, como pombais, edificados sobre os antigos campinhos.

Hoje, Heliópolis é a maior favela de São Paulo. Na apuração de Laura Capriglione, ontem na Folha, pode ter até 125 mil habitantes. Dá a impressão, errada, de estar ali há um século. Há 35 anos quase não existia. Como toda favela, floresceu no vácuo da ausência do Estado.
Uma garota de 17 anos morreu baleada em Heliópolis num tiroteio envolvendo policiais de São Caetano. A população reagiu. Incendiou carros. Alguns enxergaram nos atos o dedo de traficantes.

É raro no Brasil haver manifestações coletivas iradas. Quando os protagonistas são de baixa renda, logo alguém atribui o fato ao crime organizado. Como se pobre não soubesse reclamar sozinho. Muitos, certamente a maioria dos moradores de Heliópolis revoltados, eram só cidadãos de bem incomodados com o descaso do Estado. Protestos violentos são sempre condenáveis. Manifestações de repúdio podem ser pacíficas e vigorosas ao mesmo tempo. Os campinhos de terra não voltam mais na divisa entre São Paulo e São Caetano, mas o Brasil ficará melhor quando mais brasileiros se indignarem como os de Heliópolis.


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