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Fernando Rodrigues



17/10/2009
Hipocrisia contra hipocrisia

Fernando Rodrigues
De Brasília


Lula e Dilma estão em campanha eleitoral aberta. Numa caravana de três dias pelo interior do país, esbaldaram-se em comícios e posando para fotos. Um avião foi colocado à disposição de jornalistas. É escrachado o caráter eleitoreiro da "vistoria" da transposição do rio São Francisco.
Em Brasília, a oposição anunciou a intenção de entrar na Justiça. Demandará uma punição contra a "campanha eleitoral antecipada". Faz parte do jogo. Está na lei.

Essa devoção postiça à ética e aos bons costumes da oposição já foi um dia do PT. O jogo se inverte conforme há alternância no poder.
Quando FHC fez a campanha em comemoração aos oito anos do Plano Real, em 2002, o PT usou o mesmo argumento hoje apropriado pelo PSDB e pelo DEM. Esse intercâmbio de posições não é apenas um campeonato mundial de hipocrisia. Trata-se de um sintoma explícito da obsolescência do modelo político adotado no Brasil.

Para resumir, a lei obriga os políticos a mentirem nos três anos e meio antes da eleição. Precisam negar interesse em disputar cargos públicos. Quando faltam seis meses para o pleito, à meia-noite, opera-se um milagre patético. Milhares de políticos passam a assumir publicamente suas candidaturas.

Essa regra só serve para favorecer os espetáculos eleitorais disfarçados, como os protagonizados por Lula e Dilma pescando no barranco do rio São Francisco. É legítimo um presidente, governador ou prefeito desejar se reeleger ou influir na eleição de seu sucessor. Nada deveria impedir o interessado de fazer campanha fora do expediente de trabalho. Ao se assumir candidato à noite, haveria algum constrangimento extra para certos fingimentos adotados durante o dia.

Mas essa norma transparente não interessa a quase ninguém. É mais conveniente na política o jogo da hipocrisia. Quem sofre críticas hoje poderá atacar amanhã.


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