UOL Notícias
 
25/08/2010 - 07h00

Idealizador do Parque do Peão de Barretos lembra primeiros rodeios e parceira com Niemeyer

Fabiana Uchinaka
Enviada especial do UOL Notícias
Em Barretos (SP)

Não é nenhuma novidade alguém ser criado no interior e terminar gostando de rodeios. Mas no caso de Mussa Calil Neto, 57, a paixão pelo esporte e pela tradição sertaneja foi às últimas consequências. Sobrinho de Nenê Daher, um dos 20 primeiros fundadores da comitiva Os Independentes, que começou e administra o evento de Barretos até hoje, Calil herdou o gosto pela Festa do Peão e fez dela um objetivo de vida. Para tornar o Parque do Peão realidade, enfrentou críticas, foi chamado de louco e contou com a boa vontade até do arquiteto Oscar Niemeyer. Em entrevista ao UOL Notícias, ele faz uma retrospectiva dos 55 anos do evento e dos 25 anos do parque que ajudou a criar. 

O começo...

  • Foto área mostra o terreno onde foi construído o Parque do Peão, que passaria a abrigar a festa

  • Funcionários trabalham na limpeza do terreno

  • Uma arena com capacidade para 35 mil pessoas começa a ser construída, em Barretos (SP)

UOL Notícias - O que é ser um Independente?
Mussa Calil -
Antigamente, para ser um Independente, era preciso ter independência financeira, ter seu próprio sustento e não ser dependente da aliança, ou seja, não podia ser casado. Quando um membro da comitiva casava, havia uma despedida, uma festa de expulsão. Com o tempo, a Festa do Peão cresceu muito e precisava de mais gente para trabalhar, então mudaram o estatuto. Hoje, quem casa é convidado a se retirar, mas não é expulso. Meu tio foi o único dos vinte primeiros membros que nunca se casou, ficou Independente para o resto da vida. Hoje, nove deles ainda estão vivos, e meu tio continua solteiro.

UOL Notícias - Quando você entrou para a comitiva?
MC -
Entrei para o clube em 1975, com 22 anos.

UOL Notícias - E como começou a Festa do Peão?
MC -
Como era um grupo de jovens, porque os mais velhos, que casavam, saíam, nosso clube fazia muitas festas na cidade. O berço da Festa do Peão foi o Recinto Paulo de Lima Correa, onde a gente fazia uma festa espelhada na Vacaria (RS), no rodeio criolo e no rodeio de Dallas, nos Estados Unidos. Sempre foi de caráter popular, voltada para todas as classes e com a intenção de preservar a memória do peão e o melhor da tradição: a queima do alho, a vestimenta, a música sertaneja de raiz e a dança catira (na qual o ritmo é marcado pela batida dos pés e das mãos).

UOL Notícias - Essas tradições são mantidas até hoje na festa?
MC -
Sim, a gente tem a queima do alho, que representa a comida típica, que era feita pelo peão durante o transporte do gado. A primeira coisa que a gente sente o cheiro quando está preparando o arroz é o alho queimado. Então, os peões sabiam que era hora de comer pelo cheiro da queima do alho. A catira é uma dança entre homens, porque os peões dançavam entre eles porque durante as viagens não tinha mulher. Ela também acontece até hoje. Eu acho que o que se perdeu foi a tradição da vestimenta dos peões no rodeio. Hoje, todos vêm americanizados, não é peão de raiz. É copiado. Por isso eu defendo que o peão que se apresentar com a indumentária do Estado dele deve ganhar mais pontos [nas provas do rodeio que dependem de nota do juiz].

UOL Notícias - A Festa do Peão mudou muito ao longo dos anos?
MC -
Mudou muito. A 29a edição, que aconteceu em 1984, foi a última que fizemos na cidade. Naquela época a ênfase era no rodeio de cavalo, agora é no touro, porque a plástica é mais bonita, o boi é grande, dá mais show. Outras provas tradicionais, como o cutiano [montaria em cavalos], também perderam espaço. Para se ter uma ideia, só a arena do Parque do Peão [onde hoje acontece a festa, uma espaço de dois milhões de metros quadrados] é maior que todo o espaço da festa feita na cidade.

O projeto...

  • "Nossa ideia foi criar um estádio polivalente, servindo ao esporte, à musica, às grandes festas populares e ao rodeio de forma perfeita. Será um estádio e ao mesmo tempo um grande anfiteatro. É, sem dúvida, diferente de todos os outros construídos neste país", escreveu Oscar Niemeyer sobre o projeto

  • Oscar Niemeyer recebe Mussa Calil Jr.

UOL Notícias - Como foi a mudança de um lugar para o outro?
MC -
Na cidade, o público ficava sobre uma arquibancada tubular, que crescia para cima. Era muito perigoso, não tinha segurança. Também não tinha espaço para os stands dos patrocinadores, o camping, o parque de diversões. A gente chamava as barraquinhas de comida de Vietnã, porque não tinha a menor higiene. Não tinha banheiro. Na verdade, nós éramos irresponsáveis de trazer tanta gente, atração de fora. Era loucura.

Em 1980, o prefeito da cidade deu início às primeiras conversas para fazer o Parque do Peão. Em 1983, eu era presidente do clube e mandei escrever na porteira dos bretes que a festa daquele ano seria a última na cidade, e que no próximo ano seria no Parque do Peão. Era um compromisso. Então, fui atrás de um projeto arquitetônico, mas nada dava certo. Começaram a nos chamar de loucos, dizer que nós íamos acabar com a festa. Até dentro dos Independentes tinha uma divisão. Aí, mandaram eu ligar para o Oscar Niemeyer.

UOL Notícias - Você ligou?
MC -
Liguei na cara dura. Procurei o telefone no 102 e a secretária atendeu. Expliquei a situação e ela disse: “Espera um pouquinho, vou passar para ele”. Ele me atendeu, perguntou o que a gente queria, eu disse que queria manter a nossa história, a nossa cultura, então ele mandou eu escrever tudo e ir para lá. Cheguei no Rio de Janeiro em dezembro de 1984, ele nos recebeu e nós explicamos que não tínhamos dinheiro para pagar. Mesmo assim, ele mandou o Hans Muller e o Carlos Magalhães [arquitetos que trabalhavam com Niemeyer] para Barretos, para conhecer a área. Em março, ele ligou para dizer que o projeto estava pronto. E ele fez de graça.

UOL Notícias - De onde veio o dinheiro para realizar o projeto?
MC -
Eu já estava quase acreditando que eu estava doido mesmo, de tanto que as pessoas falavam e do jeito que as coisas aconteciam. Começamos a procurar e achamos essa fazenda antiga, aqui não tinha nada, não tinha nem grama. Limpamos o terreno para fazer o parque. Na festa de 1984, conseguimos um dinheiro --55 mil cruzeiros, na época--, que investimos em um terreno da cidade. A ideia era o dinheiro e depois vender para fazer o parque. E foi esse dinheiro que viabilizou a estrutura, luz e água na primeira festa aqui. Quando a festa era na cidade, tinham apenas doze banheiros. Aqui, já foram 85. Tudo copiado do Rock in Rio, que visitamos quando fomos para o Rio de Janeiro. Na primeira festa aqui, conseguimos patrocínio e sorteamos um carro. Isso atraiu bastante gente, porque antes a gente só sorteava bicicleta. Também trouxemos a Elba Ramalho para o show, vieram 35 mil pessoas. Foi um sucesso. O estádio foi construído em 1989, em 81 dias, com capacidade para 35 mil pessoas sentadas e 15 mil na arena.

UOL Notícias - Todo o projeto do Niemeyer foi concluído?
MC -
Ainda não, falta acabar. Falta construir os camarotes, as rampas de acesso e mais banheiros.

UOL Notícias - Ele já visitou o Parque do Peão?
MC -
Nunca visitou, mas a família dele já.

UOL Notícias - Você sente saudades das primeiras festas?
MC -
A gente não pode esquecer a história, temos muita gratidão. Antes tinha o convívio, o rodeio era feito por peões de verdade, por comitivas. Hoje, como a festa cresceu muito, é até difícil encontrar as pessoas aqui dentro. Tem muita gente, não conhecemos todo mundo. E os competidores vêm atrás de fama, de dinheiro, porque ficou profissional. Mas a mudança é importante e eu me sinto emocionado de ter dado a minha contribuição para a festa.

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