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Washington Olivetto: o relato de um sequestro
16h16 - 07/02/2002




Por Adriana Garcia

SÃO PAULO (Reuters) - Nem 53 dias "muito estranhos" sem ouvir uma palavra ou ver alguém fizeram o publicitário Washington Olivetto, 50, renegar o Brasil ou, parafraseando o símbolo da guerrilha latino-americana Che Guevara, perder a ternura.

Escoltado por policiais à paisana, ele levou bom humor a um auditório da Fundação Armando Álvares Penteado, na manhã de quinta-feira, para contar a quase duas centenas de jornalistas sua saga no cubículo da rua Kansas. Falou por mais de uma hora ao lado do delegado Wagner Giudice, da Delegacia Anti-Sequestros, e se emocionou ao apresentar o amigo e produtor musical André Midani, que ajudou a família nas negociações.

Com cabelo cortado, barba feita e camiseta preta larga, ele agradeceu à polícia e, pelo carinho, à família e pessoas de todo o país, que o sensibilizaram com mensagens de "ternura". Embora o sequestro seja uma lembrança que gostaria de esquecer, disse que, apesar de tudo, saiu dele "com uma carga de recuperação da doçura".

Isso porque desde sábado, segundo ele, está vivendo numa "ilha de fantasia afetiva".

"Uma criança me manda desenhos, o (bar) Frangó me manda coxinhas, Lulu Santos me manda três músicas novas... (Agora) eu estou no meu papel de menino mimado", disse o publicitário, lembrando que é o único a ter ouvido com dois meses de antecedência o novo CD de reggaes de Gilberto Gil.

Dizendo-se um homem "da galera", do Corinthians e de rádio AM, ele afirmou que não tinha segurança especial, porque nunca pensou que seria sequestrado. Falou ainda que, apesar de ter sentido raiva do país no cativeiro, ela foi embora após sua libertação.

"Nunca me imaginei como símbolo do capitalismo por via da publicidade", disse o presidente da W/Brasil, uma das dez maiores agência de publicidade do país. Apesar disso, "se espanta" por ter sido sequestrado por um grupo ligado à antiga guerrilha esquerdista latino-americana.

Ele nunca tinha ouvido falar do Frente Patriótico Manuel Rodríguez (FPMR) nem do suposto líder do sequestro, o chileno Mauricio Hernández Norambuena, preso com outros cinco integrantes da quadrilha na última sexta-feira em Serra Negra.

"Fui sequestrado em território brasileiro mas por estrangeiros. Eu acho que brasileiros não iam me sequestrar porque dos 10 ou 15 caras, 5 seriam corinthianos e me libertariam", disse ele, que é torcedor devoto e começou a escrever um livro sobre o time no cativeiro.

SOCIALISMO, CRIME E PORTUNHOL

Definindo-se como um homem próximo do ideário socialista -- pelo menos do existente antes da queda do muro de Berlim -- Olivetto acredita que seus sequestradores cometeram o crime por dinheiro e não por ideologia.

"Não tenho condições de avaliar, mas a relação era de 'eu quero dinheiro'. Era um grupo estruturadamente profissional", afirmou, acrescentando que percebeu que alguns deles falavam outra língua ao receber bilhetes com instruções em portunhol.

Ele disse que tentou reagir quando foi parado por uma blitz falsa da Polícia Federal, na avenida Angélica. "Vi que as letras dos coletes eram desproporcionais, abri a porta do carro e dei uns golpes de judô em um deles, mas em seguida fui dominado pelos outros."

No cativeiro, um cubículo de 3 metros por 1, ele disse que era tratado de acordo com suas reações.

"O momento era de alta tensão. No começo eu bati (na parede) e apanhei (...), eu estava muito agressivo e a resposta era à altura. Depois fui acalmando, e eles também", afirmou, dizendo que chegou a ser algemado e amordaçado por alguns minutos.

Por instruções afixadas na porta, o publicitário era orientado a não fazer barulho ou dirigir à palavra a seus algozes e fazer exercícios físicos para manter a forma.

"Eu não me sentia bem, mas minha saúde estava bem", afirmou. "Eu tentava comer direito para não ficar doente."

Olivetto conseguiu controlar a passagem dos dias pela duração média das músicas dos CDs que ouvia 24 horas por dia, mesmo quando invertiam a ordem de suas refeições para confundi-lo.

"Sei que um CD tem em média 47 minutos. Por sorte tocava música que eu gosto muito, clássicos (à noite) e música brasileira de qualidade", disse.

O balde de água que recebia para "tomar banho" a cada quatro dias também o ajudou a marcar o tempo na vida do cativeiro.

MONTEIRO LOBATO E CARTAS

A leitura, a escrita e os jogos mentais foram grandes aliados do publicitário para fazê-lo manter o equilíbrio.

"Monteiro Lobato, Scott Fitzgerald e (J.D.) Salinger são minhas leituras de vida. Eu escrevi dia e noite", afirmou, mostrando à imprensa o calo que ganhou na mão direita.

Ele também escrevia nomes de pessoas queridas na parede com talheres de plástico e se concentrava por horas nesses "personagens afetivos" da sua história.

Olivetto percebeu que o sequestro era "sério" quando, no segundo dia de cativeiro, recebeu a prestigiada revista The Economist para ler. Depois, os sequestradores lhe deram dois livros "opressivos": um policial chamado "Papillon", de Henri Charrier, e "1984", de George Orwell.

Como exercício, ele tentava recitar poemas de João Cabral de Melo Neto e do espanhol Federico García Lorca.

Olivetto também escreveu cartas à esposa, aos seus sócios na agência W/Brasil, e aos próprios sequestradores, com os quais chegou a falar sobre o valor do resgate. Na coletiva, porém, o produtor André Midani, que ajudou a conduzir às negociações, disse que a família não iria se pronunciar sobre valores.

Especulações na mídia chegaram a apontar que foram pedidos 10 milhões de dólares para soltá-lo, e o próprio publicitário poderia ter concordado em pagar 6 milhões. A informação, no entanto, não foi confirmada.

Contando os dias, Olivetto chegou a 2 de fevereiro e lembrou-se que era dia de Iemanjá. Horas depois, estaria sozinho no cativeiro abandonado, pronto para ser libertado "pela maravilhosa menina do estetoscópio", que ouviu seus gritos e chamou a polícia.



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