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Acampamento de sem-teto vive tensão após morte de fotógrafo
19h32 - 24/07/2003


Por Eduardo Acquarone

SÃO BERNARDO DO CAMPO (Reuters) - A disputa pela posse de um terreno às margens da rodovia Anchieta, no ABC paulista, tomou contornos trágicos esta semana, com a morte de um fotógrafo na entrada do acampamento montado para abrigar milhares de sem-terra.

Na quinta-feira, dia seguinte ao crime, centenas de barracas cobertas por plásticos negros pontilhavam a área que há poucos dias era apenas um terreno vazio. O clima de tensão era palpável entre os integrantes do jovem movimento.

As cerca de 5 mil pessoas -- homens, mulheres e muitas crianças -- que ocupam o terreno, numa avaliação da liderança do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), estão tensas. Elas temem a possibilidade de confronto com a polícia e também estão receosas que sejam usadas como bode expiatório por causa da morte do fotógrafo Luis Antonio da Costa, de 36 anos.

No dia seguinte ao crime, uma faixa colocada pela direção do MTST informava: "Nós, famílias acampadas, apresentamos nossos sentimentos aos familiares deste jornalista que teve seu sangue derramado nesta terra onde lutamos para que brote mais um alicerce na construção da paz, da inclusão e da justiça social."

La Costa, como era conhecido, foi baleado na entrada da área ocupada após um assalto a um posto de gasolina a poucos metros dali. A polícia investiga a possibilidade que um dos assaltantes tenha dado um tiro à queima-roupa no jornalista que fazia uma reportagem para a revista Época. Nenhuma ligação formal entre o crime e os invasores do terreno foi estabelecida.

Na quinta-feira, dois homens que haviam sido detidos na noite anterior em conexão com o assassinato foram liberados, após não terem sido identificados por três testemunhas.

"Não atrelem a violência aí de fora com a violência aqui de dentro", gritava um líder do movimento através dos alto-falante de um caminhão de som. "Quem mora aqui é gente de Deus, é brasileiro sem teto", diz.

PROFECIA

A justificativa para a invasão é simples, segundo palavras de outra líder do movimento. "Não é só multinacional que pode ocupar terra. Essa terra é muito mais nossa do que deles", disse ela. Até 1990 a Volkswagen tinha uma fábrica de caminhões no local. Há dois anos os prédios foram destruídos, e restou apenas o terreno de terra batida.

Quando as palavras de ordem se calam no alto-falante, Chico Buarque surge cantando, quase profético: "Pode ser a gota d'água."

O terreno foi invadido na noite de sábado, por cerca de 2.000 pessoas do movimento. O número aumentou com moradores de favelas vizinhas, que preferem trocar o barraco onde moram pela chance de ganhar um terreno próprio.

Antonio (que como a maioria dos invasores preferiu não fornecer o sobrenome), de 23 anos, trouxe a mulher e seus dois filhos para o terreno. O ajudante de pedreiro desempregado há um ano. "No momento estou parado, tá tudo muito difícil" -- pode ver de sua nova barraca o local onde mora, a favela de Ferrazópolis.

"Mas lá é muito ruim, quando chove o barraco cai. Quem mora em área de risco veio pra cá", explica ele. "Pelo menos temos comida", diz, referindo-se ao almoço que é fornecido pelo MTST. "Macarrão, arroz e feijão. Não tem jantar, mas não dá pra reclamar, cada um faz o que pode", diz, resignado.

Os amigos Marcos, 18, Leonardo, 18, e Rodolfo, 17, chamam a atenção pelos óculos espelhados no topo da cabeça e pelo sorriso aberto. As histórias são muito parecidas. Todos moram em favelas da região com parentes e pagam de 240 a 500 reais por mês de aluguel. "Eu entregava pizza, mas a polícia me parou e tomou minha moto, que estava irregular, e agora não tenho como ajudar no aluguel", conta Rodolfo.

Os três balançam a cabeça e concordam com Maria Alves, costureira de 35 anos, que também está em busca de um pedaço de terra para morar.

"Ao menos eu ganho um dinheiro, mas quem não ganha, como fica? Todo mundo tem que lutar", diz ela, que mora ao lado do terreno invadido e resolveu se juntar ao grupo assim que a invasão aconteceu.

LIMINAR E NEGOCIAÇÃO

O futuro do grupo é incerto. No acampamento, decorado com bandeiras verde-amarela do Brasil e vermelhas do PTST, não há luz elétrica nem água encanada. Algumas famílias têm colchões e colchonetes para tornar a tarefa de dormir sobre o terreno pedregoso mais tolerável, mas o frio das últimas noites obrigou os invasores a fazerem fogueiras para se manterem aquecidos.

Na terça-feira a Justiça concedeu à Volkswagen uma liminar para conseguir a reintegração de posse do terreno. Mas os acampados esperam ganhar tempo, e enviaram uma comissão para negociar com o prefeito de São Bernardo.

O Movimento dos Trabalhadores Sem Teto surgiu no final dos anos 1990 com o compromisso de lutar contra a falta de moradia nos grandes centros urbanos. Atualmente cerca de 2.000 famílias sem-teto ocupam um terreno invadido em Guarulhos -- o acampamento Anita Garibaldi. No início da semana, o Movimento dos Sem Teto do Centro também ocupou quatro prédios abandonados no centro de São Paulo.



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