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O ano de 2018 nas obras (e na visão) de cinco artistas

"Shadows", de Alfredo Jaar - Fotografia original de Koen Wess
"Shadows", de Alfredo Jaar Imagem: Fotografia original de Koen Wess

New York Times

24/12/2018 04h00

O projeto Fator de Mudança pediu a cinco artistas que selecionassem uma obra própria para representar ou simbolizar 2018, além de justificar suas escolhas. Veja quais foram suas respostas. 

  • Cortesia de Zoe Buckman e Albert

    "Heavy Rag", de Zoe Buckman

    2018, o ano em que as palavras "estupro", "ataque" e "assédio" se tornaram inescapáveis, dando a impressão de tomarem praticamente a internet inteira e os canais de notícia dos EUA. O ano em que algumas cabeças rolaram e vidas foram arruinadas, muitas histórias foram esquecidas depressa demais ou desacreditadas de forma brutal. Foi o ano em que muita gente "entrou na onda". O ano da tentativa de revanche, da revanche falaciosa, da revanche que não aconteceu. Ano de poucas consequências e justiça pífia. Ano em que as mulheres aprenderam que pouca coisa mudou, que continuam sem segurança. Ano em que a expressão "investigação do FBI" fez as pessoas revirarem os olhos instantaneamente e gerou uma forte sensação de déjà vu. Foi o ano em que senti ainda mais orgulho de muitos - e continuei não me surpreendendo com as atitudes de tantos outros. Foi o ano em que aprendi a fazer uso de algumas ferramentas novas e tive que me lembrar de outras, quase esquecidas. Foi o ano de gatilhos, de feridas não cicatrizadas, de Nia Wilson, de Brett Kavanagh, de náusea.

  • Cortesia de George Condo

    "Facebook", de George Condo

    De uns anos para cá, meu trabalho passou a ser exibido em várias partes do mundo: Paris, Atenas, Hong Kong, Dinamarca, Washington. Em minhas viagens, vários repórteres perguntam minha opinião sobre a política norte-americana. Todo mundo quer saber qual o problema: será que o país tinha sucumbido às notícias falsas? Será que o falso tinha se tornado realidade? Em 1988, escrevi um artigo sobre minhas teorias artísticas. Nele, eu discutia algo chamado ?Realismo Artificial?, um estilo que usava nas minhas pinturas e definia, em parte, como ?a aparência da realidade através da representação do artificial?. Nos trinta anos desde então, o Realismo Artificial se estendeu além dos limites da arte, invadindo a política internacional, causando uma explosão nuclear no campo da verdade. Em 2018, a veracidade foi reduzida a pó. As redes sociais são as principais responsáveis pela ascensão dessa política artificial-realista. Eu criei essa pintura, ?Facebook?, para exorcizar as mentiras que acredito serem inerentes em uma cultura de amigos que não são exatamente amigos ? basicamente uma aglomeração de bots, trolls e informações alienadas. A mensagem atual da política é de medo e, infelizmente, está se mostrando eficaz. Entretanto, podemos recuperar o controle; para isso, basta deixarmos de ter medo. A arte desponta como uma de nossas últimas experiências verdadeiras. Os artistas têm que apontar o pincel para o governo e dizer: ?PAREM DE MENTIR PARA NÓS!?.

  • Fotografia original de Koen Wess

    "Shadows", de Alfredo Jaar

    Essa imagem feita pelo fotojornalista holandês Koen Wessing mostra uma das expressões de dor mais profundas que eu já vi. Foi feita em Estelí, na Nicarágua, em 1978, durante a revolta contra o regime de Somoza, no exato momento em que duas irmãs tomam conhecimento da morte do pai. A foto serviu de ponto inicial para a minha instalação de 2014, ?Shadows?, o segundo trabalho de uma trilogia que explora a força e a política por trás de imagens icônicas. Hoje, quando leio que famílias de imigrantes estão sendo destruídas, penso nessa foto. Quando leio que crianças pequenas e bebês estão sendo separados das mães, penso nessa foto. Quando leio que esses pequenos estão vivendo em celas, penso nessa foto. Quando leio que há mães implorando pela volta dos filhos, penso nessa foto. Quando jovem, sobrevivi à ditadura do Gal. Augusto Pinochet, no Chile; mais tarde, fui para Ruanda e testemunhei as consequências terríveis do genocídio que, em 1994, dizimou aproximadamente um milhão de pessoas em cem dias. No entanto, nada me faz ficar indiferente à crueldade e à monstruosidade das ações do governo Trump contra crianças inocentes imigrantes nos EUA. Nesses tempos sombrios, busco refúgio em ?Requiem?, poema da russa Anna Akhmatova: Tenho muito trabalho a fazer hoje; Preciso acabar com as lembranças, Transformar minha alma viva em pedra E reaprender a viver.

  • Saba Khan

    "Keep Your Hands to Yourself", de Saba Khan

    Com a ascensão da classe média paquistanesa, um número cada vez maior de mulheres passou a engrossar a força de trabalho: segundo o Banco Mundial, hoje elas representam cerca de 22 por cento dos trabalhadores da nação. Embora esse índice seja mais baixo que os dos vizinhos do Paquistão no sul da Ásia, com exceção do Afeganistão, ainda assim representa uma mudança drástica para um país em que elas tradicionalmente só ficavam em casa. Com esse aumento de mulheres na mão de obra, cresce também a conscientização do assédio sexual no local de trabalho. A aprovação, em 2010, de uma lei que criminaliza essa atitude abriu caminho para o movimento local #MeToo. Hoje, as vítimas estão reagindo, usando as redes sociais como canal para a busca de justiça. No início deste ano, o diretor da Escola Nacional de Artes de Rawalpindi foi demitido depois de acusado de assédio sexual; em abril, Meesha Shafi, uma atriz e cantora paquistanesa muito conhecida, tuitou denunciando um antigo colega seu, que é astro pop e ator de Bollywood, de assediá-la sexualmente. Ele nega as acusações. Meu trabalho ? uma tapeçaria feita com lantejoulas e miçangas inspirada nas capas das revistas urdu antigas ? é uma tentativa de abordar as formas nas quais a violência sexual continua a subjugar as paquistanesas em 2018. Nele aparecem dois ?shalwars?, a calça usada pelos homens no Paquistão, nos cantos superiores direito e esquerdo. A peça larga, assim como o ato de desamarrar o cordão que a segura, são usados para simbolizar a dominância sobre as mulheres na literatura urdu e no cinema paquistanês. A ?dupatta?, echarpe tradicional que representa o recato feminino, aparece estendida na direção de duas mulheres, que continuam presas às estruturas patriarcais da sociedade. O emblema no meio da obra pede ao observador que ?não toque em nada?, ou ?apne haath, apne paas? em urdu.

  • Hank Willis Thomas e Emily Shur

    "Freedom From Want", de Hank Willis Thomas

    No Discurso sobre o Estado da União de 1941, Franklin D. Roosevelt explicou sua visão de mundo baseada em ?quatro liberdades humanas essenciais?: de expressão, religiosa, a de viver sem penúria e sem medo. Dois anos depois, Norman Rockwell pintou uma série de óleos ilustrando esse princípio, publicada em números sucessivos do Saturday Evening Post e, mais tarde, usada para vender bônus de guerra. Eu vi ?Four Freedoms? há alguns anos e fiquei assustado com a beleza das imagens e a força com que representam os valores clássicos norte-americanos de família, fé, liberdade e segurança ? mas também estarrecido com o que faltava ali, ou seja, a diversidade cultural e étnica do país. A impressão é a de que a visão de Rockwell ? e talvez a de Roosevelt ? e seus valores estejam reservados aos anglo-saxões brancos protestantes. De todos os outros norte-americanos ? índios, latinos, asiáticos, africanos, católicos, judeus, muçulmanos, LGBT ? espera-se que gozem essas liberdades nas sombras, se é que o fazem. Pensei comigo mesmo, "Como seriam as pinturas de Rockwell se fossem atualizadas para refletir um país mais heterogêneo"? Com a ajuda de uma amiga, a fotógrafa Emily Shur, tentei responder essa pergunta. Reproduzimos as pinturas de Rockwell como fotos, tanto para marcar o 75º aniversário das obras originais como destacar o país em que acreditamos ? uma nação onde todos são valorizados e estão representados, independentemente de posição social, fé ou etnia. Para refletir essa variedade, criamos diversas versões das pinturas com vários tipos de pessoas. As imagens que vocês veem aqui são apenas quatro das quase 80 que produzimos. Em 2018, o país vibrante e diverso representado por essas fotografias está, sem dúvida, sob uma ameaça muito maior do que em qualquer outra época desde que Rockwell fez suas pinturas. Hoje, mais do que nunca, vale lembrar que o progresso é uma jornada e que o caminho está sempre em construção. Este texto faz parte da série Fator de Mudança, que inclui artigos de opinião, fotos e desenhos sobre eventos e tendências de 2018 que repercutirão não só em 2019, mas nos anos seguintes

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