Autoridades da União Européia, EUA e ONU comemoram prisão do "Carniceiro de Belgrado"

Da Redação Com agências internacionais

A prisão nesta segunda-feira de Radovan Karadzic, o sérvio-bósnio acusado de ser o responsável pelo massacre de oito mil muçulmanos em 1995 e autorizar a matança de civis durante mais de três anos, foi comemorada por centenas de bósnios. Ao saber da notícia, dezenas de veículos desfilaram pelas ruas de Sarajevo, capital da Bósnia, fazendo buzinaço para comemorar a prisão do homem considerado o "Carniceiro de Belgrado". Além das manifestações locais, autoridades da UE e EUA, e o secretário geral da ONU, Ban Ki-moon, também comemoraram, afirmando que é um "momento histórico para as vítimas".

Momentos depois do anúncio da prisão de Karadzic, as autoridades não divulgaram detalhes, alegando que a revelação de informações poderia atrapalhar na captura de dois outros suspeitos, também criminosos de guerra, que ainda permanecem foragidos.

  • Reuters

    Reprodução de imagem da TV sérvia mostra imagem recente do ex-líder Radovan Karadzic

  • Anja Niedringhaus/EFE -16.jan.1993

    Karadzic mostra, em entrevista, mapa com a divisão da Bósnia-Herzegovina por grupos étnicos

  • Elvis Barukcic/EFE -11.jul.2008

    Sobreviventes do massacre de Srebrenica durante funeral

Karadzic foi detido em Belgrado, quando estava em um ônibus. Segundo as autoridades sérvias, a captura não contou com a ajuda de serviços secretos estrangeiros.

O genocida vivia no subúrbio da cidade, num local onde existem grandes condomínios, e escondia o rosto com barba, cabelo comprido e óculos. Segundo agências, em foto recente mostrada a jornalistas, o sérvio-bósnio estava muito magro e praticamente irreconhecível, com a longa barba branca e os cabelos grandes.

No momento da prisão, Karadzic usava identidade falsa, com o nome de Dragan Dabic. O promotor Vladimir Vukcevic, promotor sérvio de crimes de guerra e coordenador de um plano de ação para a captura de criminosos de guerra, afirmou que o genocida andava livremente por Belgrado.

Para o ministro sérvio Rasim Lajic, encarregado de cooperar com o Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia (TPII), a mudança de identidade e de imagem de Karadzic era tão boa que nem sequer as pessoas que alugaram um apartamento para ele o reconheceram.

Karadzic foi interrogado já na noite de sua prisão e teve identidade confirmada, sendo entregue para indiciamento. Vukcevic ainda afirmou que no momento do interrogatório "ele estava se defendendo principalmente com o silêncio".

Sob identidade falsa, Karadzic, que tem formação como psiquiatra, trabalhava em um consultório particular de medicina alternativa na capital sérvia e colaborava há três meses com a publicação "Zdrav Zivot" (Vida Saudável), que tem tiragem de 15 mil exemplares. Ao saber que o colaborador da publicação na verdade era um acusado da maior matança desde a 2ª Guerra Mundial, os editores da publicação se disseram "surpresos e consternados" e alegaram que não sabiam de quem se tratava.

Os esconderijos de Karadzic incluíam monastérios sérvios ortodoxos, e cavernas no leste da Bósnia. Alguns jornais relataram que ele também chegou a se disfarçar de padre.


Histórico
Karadzic era um dos maiores fugitivos acusado de crimes de guerra e um dos homens mais procurados do mundo. Foragido há 13 anos, foi acusado de ser o responsável por arquitetar assassinatos em massa que o tribunal da ONU para crimes de guerra descreve como "cenas do inferno, escritas nas páginas mais negras da história humana".

A maior acusação que pesa sobre ele é a de organizar o massacre de oito mil muçulmanos em Srebrenica, em 1995, o que foi considerada a maior atrocidade na Europa desde a 2ª Guerra Mundial.

Além das acusações de genocídio e cumplicidade de genocídio da Guerra da Bósnia, Karadzic é acusado de crimes contra a humanidade, como extermínio, assassinatos, perseguições políticas raciais e religiosas e deportações ilegais.

Também é acusado de apropriação ilegal de propriedades, destruição de residências, templos religiosos e lojas e crimes de guerra como assassinato e seqüestro de civis.

A sucessão de acusações fez com que Karadzic, de 63 anos, liderasse a lista dos mais procurados por mais de dez anos.

Radovan Karadzic nasceu em 19 de junho de 1945, na atual República de Montenegro. A família, pobre, era nacionalista sérvia de Montenegro e desprezava o governo comunista vigente. Mudou-se para a capital bósnia, Sarajevo, e se formou em medicina, com especialização em psiquiatria. Entre 1974 e 1975 fez cursos na Universidade Columbia, em Nova York. Quando voltou ao país, se integrou a equipe de um grande hospital público e trabalhou como consultor psicológico de um time de futebol. Chegou a publicar um livro de poemas.

Por influência do escritor sérvio Dobrica Cosic, foi aconselhado a entrar na vida pública. Em 1980. Com a morte do dirigente comunista Josip Broz Tito, o sentimento de rivalidade e nacionalismo despertou entre as oito repúblicas iugoslavas, sobretudo com Slobodan Milosevic, considerado o pai do projeto de uma "Grande Sérvia" que atropelaria as nacionalidades vizinhas. Como protegido de Milosevic, Karadzic iria se tornar na Bósnia o principal dirigente do Partido Democrático Sérvio. Com a ajuda do governo sérvio, passou a criar bolsões autônomos e a armar bósnios cristãos.

Na véspera da guerra de 1992, como líder dos sérvios da Bósnia, Karadzic conversava com negociadores internacionais, e suas entrevistas estavam entre as principais notícias durante a guerra bósnia, iniciada quando um governo dominado por muçulmanos eslavos e croatas declararam independência da Iugoslávia em 1992.

Karadzic, já criminoso de guerra, se tornou presidente da chamada República Sérvia na Bósnia e comandante de suas forças militares, que mantiveram um cerco de 43 meses a Sarajevo. Em 1995, suas forças assassinaram milhares de homens e adolescentes em Srebrenica.

Karadzic foi Indiciado duas vezes pelo tribunal da ONU por acusações de genocídio, devido ao suposto envolvimento com crimes contra os muçulmanos e croatas da Bósnia. Sob o indiciamento, que recebeu sua última emenda em 2000, o tribunal de crimes de guerra da ONU acusou o ex-líder sérvio-bósnio com 15 delitos de genocídio, crimes de guerra e outras atrocidades, entre 1992 e 1996.

A última vez que o ex-líder foi visto em público foi em 1996. Com a prisão de Karadzic, agora o ex-general Ratko Mladic, comandante militar sérvio-bósnio, passa a ser o fugitivo mais procurado pela ONU por crimes de guerra.

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