Pressionado por oposição no sul, Morales rompe tradição e opta por discursar "em casa" no Dia da Independência

João Peres Especial para o UOL Em La Paz (Bolívia)

Um dia depois da morte de dois mineiros e de ter que cancelar um encontro com o presidente venezuelano Hugo Chávez e a presidente argentina Cristina Kirchner em Tarija (sul da Bolívia) por conta do clamor popular, o presidente Evo Morales discursou em La Paz lembrando o Dia da Independência. Pela tradição, o discurso de 6 de agosto deveria ser realizado em Sucre, mas o líder optou pelo Palácio Quemado por conta da forte oposição que sofre no Estado sulista.

  • João Peres/UOL

    Evo Morales discursa no Palácio Quemado, em La Paz: pela tradição, no Dia da Independência da Bolívia, o presidente costuma discursar em Sucre, no sul do país

    A fala, que focou especialmente nas conquistas de dois anos e meio de governo, foi aprovada pelos pacenhos (habitantes da região de La Paz) que acompanharam o ato. Na sacada do Palácio Quemado, Evo Morales lembrou que as exportações aumentaram, que a inflação está menor e ressaltou que a Bolívia é um país com esperanças, "viável", nas palavras dele. O líder indígena destacou que ainda há um longo caminho a percorrer e aproveitou para recordar a ocasião em que o presidente Lula disse a ele que será preciso ter muita paciência.

    Para o médico José Bustamante, o discurso de Evo Morales foi coerente com o momento que vive ao país e serve como um convite à unidade. Ainda assim, durante a fala, o presidente da Bolívia aproveitou para atacar os movimentos autonomistas da chamada Meia Lua, comandada pela oposicionista Santa Cruz.

    "Há alguns grupos privilegiados que não querem a mudança. Alguns pequenos grupos falam em independência, em separação, sob o pretexto da autonomia. Sendo que nossa luta é pela autodeterminação do povo", pontuou Morales.

    Para o militante que preferiu ser chamado apenas de Moisés, os grupos apontados pelo presidente são aqueles que não respeitam a democracia. É o mesmo que pensa o professor José Sanchez Canedo, que, indicando para o Congresso, disse que o que atrapalha são os "filhotes do passado". "Mas o povo não é fraco. Não vamos nos deixar dominar por um grupo pequeno."

    Em La Paz, reduto dos mais fiéis de Evo Morales, a ratificação do presidente no referendo de domingo parece garantida, bastando apenas definir qual será o porcentual de votos favoráveis. Evo Morales e os nove governadores serão submetidos a uma consulta popular para saber se permanecem ou não nos cargos.

    A dona-de-casa Graziela Sanchez, 80, considera importante que o presidente seja mantido à frente do Palácio Quemado: "Ele é muito franco. É o que queremos. Ter um presidente que nos dê vida. Em 30 anos, não fizeram nada. Agora, em menos de três, muita coisa já mudou."

    O médico José Bustamante aproveita para pontuar que não só é preciso manter Evo Morales até o fim do mandato, como apoiar todas as propostas de reeleição. Ele considera equivocada a visão do venezuelano Hugo Chávez, que ontem afirmou que, caso o presidente seja revogado no domingo, já terá feito um grande governo. Para Bustamante, o processo está apenas começando. Ele afirma que "tudo é paulatino, tem suas etapas". "É preciso gerar empregos, desenvolver a indústria. Ficaria muito feliz em ter Evo por mais alguns anos."

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