Impasse na Bolívia deve continuar após referendo, diz especialista

Claudia Andrade
Em Brasília

A situação política interna na Bolívia deve continuar indefinida após a realização do referendo revogatório deste domingo. A análise é do professor de relações internacionais da UnB (Universidade de Brasília) Carlos Eduardo Vidigal. Para ele, "uma convergência quanto à mudança política estrutural do país ainda é uma tese."

Os eleitores vão às urnas decidir sobre a continuidade no cargo do presidente Evo Morales, do vice, Álvaro Linera, e de oito dos nove governadores. A idéia do referendo foi apresentada pelo próprio chefe de Estado, que tenta aprovar uma nova Constituição para o país. O texto prevê, entre outras coisas, a possibilidade de reeleição.

Se o "não" vencer no referendo de domingo, Morales terá de convocar novas eleições gerais. Na hipótese de um resultado favorável ao governo Morales (algo que tem sido apontado por pesquisas), o professor acredita que é possível ocorrer uma negociação de bastidores no sentido da autonomia. "Isso seria apresentado como uma concessão de Morales aos movimentos autonomistas, porém de difícil aceitação na base do governo", pondera.

Separação
A tensão política no país envolve ainda a busca de autonomia liderada pelos dois departamentos mais ricos do país, Santa Cruz e Tarija, que já aprovaram o tema em referendos regionais, como também fizeram Beni e Trinidad.

No entanto, a possibilidade de separação dos departamentos mais fortes é vista como algo remoto pelo especialista. "Qualquer avanço nesse sentido poderá levar à guerra civil, sem a possibilidade de se prever um resultado. Além disso, se fosse concretizada a separação, por exemplo, de Santa Cruz, um novo problema geopolítico surgiria na região: a fortíssima influência brasileira no novo Estado", afirma.

Para o especialista, apostar em uma independência da região sem conflito é uma utopia. "Considerando que os departamentos da região andina e o poder de La Paz dependem, em grande medida, das receitas fiscais e do comércio gerado por Santa Cruz e Tarija, isso é uma utopia. La Paz não abrirá mão de departamentos ricos em gás", justifica.

Na avaliação de Vidigal, a alternativa da autonomia pode ser mais viável. "A autonomia poderá vir, mais cedo ou mais tarde, dependendo da evolução das tensões atuais. O problema é que a elite de Santa Cruz usa o tema para minar o governo de Evo Morales, o que torna o entendimento extremamente difícil. Porém, uma autonomia negociada de maneira mais ou menos discreta, talvez seja possível, caso o impasse permaneça nos próximos meses."

Parlamento do Mercosul acompanha
Para o presidente do Parlamento do Mercosul (Parlasul), deputado Dr. Rosinha (PT-PR), o que os departamentos mais ricos querem mesmo é a separação. "Eu já me reuni várias vezes com representantes da federação de produtores de soja, criadores de gado, e percebi que o que Santa Cruz quer mesmo é a independência. Faz um discurso de autonomia, mas quer independência", analisa.

O parlamentar está na Bolívia com outros integrantes do Parlasul para acompanhar o referendo deste domingo. "Nós seremos observadores políticos; vamos ver como o governo se comporta, como os partidos políticos e a imprensa se comportam. O acompanhamento da legalidade do processo eleitoral ficará a cargo da OEA (Organização dos Estados Americanos)", explica.

Concentrados na capital La Paz, os parlamentares do Mercosul poderão viajar para outras localidades, para acompanhar mais de perto a votação. "Esta é a terceira vez que eu vou à Bolívia no governo Morales (que assumiu em 2006). A disputa na Bolívia é uma disputa ideológica e de classes, mais do que uma disputa política. O que está em jogo é o poder do Estado", analisa.

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

UOL Cursos Online

Todos os cursos