Ingrid Betancourt vem ao Brasil para defender o fim dos seqüestros

Edilson Saçashima
Do UOL Notícias
Em São Paulo

A franco-colombiana Ingrid Betancourt desembarca no Brasil nesta sexta-feira (5/12) como parte de sua viagem por oito países da América Latina para defender a libertação dos reféns em poder das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). "Minha principal missão é conseguir a libertação de todos meus companheiros de cativeiro e dos demais reféns colombianos", disse Betancourt em comunicado divulgado durante sua visita a Bogotá, na Colômbia. Argentina, Equador, Peru, Chile, Bolívia e Venezuela são outros países que estão incluídos na agenda de visitas no continente.

De certa forma, Ingrid Betancourt se tornou a "chanceler" das famílias dos reféns das Farc. O que legitimou esse papel foi uma história que se iniciou em 2002. No dia 23 de fevereiro daquele ano, Betancourt, então candidata a presidente da Colômbia, foi seqüestrada por guerrilheiros das Farc em San Vicente del Caguán, 740 km a sudeste de Bogotá, junto com sua coordenadora de campanha, Clara Rojas. Começava ali um seqüestro que se arrastaria até julho de 2008.

Para as Farc, Betancourt representava uma das mais valiosas moedas de troca em seu poder. Em algumas negociações, o grupo guerrilheiro propôs a libertação de 500 presos em troca de Betancourt e outros reféns.

IDEOLOGIA MOTIVOU SEQÜESTROS NO BRASIL
A PARTIR DOS ANOS 60

De modo geral, os seqüestros no Brasil tiveram início na década de 1960. Inspirada em práticas de grupos guerrilheiros europeus, o crime no país tinha motivação ideológica, como financiar a luta política com fins revolucionários.

Porém, a prática de fundo ideológico se tornou um crime que visava apenas a obtenção de dinheiro. "Os criminosos notaram que o lucro era grande. Era possível obter US$ 500 mil, US$ 1 milhão com os seqüestros", diz o delegado Rubens Recalcatti, que, junto com Noely Manfredini, é autor do livro "Seqüestros: Modus Operandi e Estudos de Casos".

O seqüestro do empresário Abílio Diniz, do grupo Pão de Açúcar, em 1989 pode ser considerado uma exceção. "Foi uma surpresa, porque acreditávamos que esse tipo de seqüestro tinha terminado no Brasil", diz Recalcatti.

Apesar de o Brasil não ter números precisos sobre seqüestros, Recalcatti acredita que o país não esteja entre os líderes nesse crime, sendo superado pela Colômbia. A ONG Pax Christi, no entanto, apresentou relatório onde afirma que o Brasil tem mais seqüestros do que a Colômbia

Filha de um ex-senador e ex-embaixador colombiano com uma ex-miss Colômbia, Ingrid Betancourt foi a senadora com maior número de votos nas eleições de 1998. Mas sua história não está relacionada apenas com o país sul-americano. Betancourt viveu parte de sua juventude em Paris, onde estudou Ciências Políticas. Nessa época, conheceu Fabrice Delloye, seu primeiro marido, e ambos ingressaram na vida diplomática.

Mobilização internacional
Quando Betancourt fora seqüestrada, a família se viu em um dilema: como agir para a libertação de Ingrid? Por meio de uma diplomacia discreta ou de uma ampla campanha de mídia? Eles escolheram a segunda opção

Com conexões com o Ministério das Relações Exteriores da França, Delloye conseguiu mobilizar os diplomatas franceses. Em 2003, a França chegou a enviar um avião a Manaus para uma operação secreta de resgate de Betancourt. Na época, o primeiro-ministro da França era Dominique de Villepin, ex-professor de Betancourt. A ação fracassou e Villepin não mais tocou no assunto. Nicolas Sarkozy, rival de Villepin e que assumiu a presidência da França em 2007, então decidiu abraçar a causa e colocou a libertação de Betancourt como uma de suas prioridades de governo.

Essa série de eventos tornou Betancourt em um símbolo da luta contra os seqüestros promovidos nas Farc, grupo que contaria com cerca de 800 reféns, segundo estimativas, em 2003.

Mas Betancourt parece não desempenhar apenas o papel de defensora pela liberdade dos reféns de seqüestros políticos. A franco-colombiana também pretende lutar pelas vítimas dos seqüestros em geral. Em 2009, ela deve se retirar da vida pública e criar uma fundação que irá lutar pela libertação de todos os "3.000 pessoas que ainda estão seqüestradas na Colômbia". Outro exemplo de seu esforço foi o encontro com a austríaca Natascha Kampusch, que foi mantida sob poder de um seqüestrador durante oito anos, mas não por motivos políticos.

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