Criando software que abre mundos para os deficientes

James Flanigan
Do The New York Times

Um programa de computador permite que consumidores com deficiência visual apontem seus celulares para as prateleiras dos supermercados e ouçam descrições dos produtos e preços. Outro permite que uma pessoa com paralisia guie um mouse de computador usando ondas cerebrais e movimentos dos olhos.

Os dois programas estão entre os criados por oito grupos de voluntários em um recente concurso de dois dias de criação de software. A meta da competição, patrocinada por uma empresa sem fins lucrativos, é encorajar novos programas de computador que ajudem pessoas com deficiências físicas a expandirem suas capacidades.

A empresa, formada por estudantes de ciência da computação e estudantes de doutorado da Universidade do Sul da Califórnia, se chama Project:Possibility (projeto:possibilidade). Ela nasceu há dois anos de uma idéia de Christopher Leung, na época um candidato a mestrado em engenharia e ciência da computação na universidade, que estava trabalhando em um projeto no Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa, em Pasadena.

Como Leung explicou em uma recente entrevista, "o administrador do projeto me procurou e disse: 'Chris, nós temos vários estudantes cegos que virão trabalhar conosco neste verão. Se você puder pensar em algo para fazermos por eles, me avise'".

Na época, disse Leung, ele estava trabalhando em um programa de visualização do sistema solar. "Eu desenvolvi um projeto chamado 'toque o céu', onde uma pessoa cega usaria um dispositivo de forced feedback para sentir as reconstruções tridimensionais do terreno em outros planetas", ele disse.

A experiência o inspirou a pensar além de apenas um grupo de estudantes e um projeto. "Aparentemente havia uma necessidade de um maior esforço organizado, uma comunidade de desenvolvedores e pessoas com deficiências para conceitualizar os projetos que podem ajudar as pessoas", disse Leung. "Então eu reuni colegas em uma sala do LPJ, apresentei a idéia e pedi pela ajuda deles. Desde então, vários deles e dezenas de outros aceitaram o desafio e conduziram o Project:Possibility até onde se encontra hoje."

O esforço é centrado na Universidade do Sul da Califórnia e liderado por voluntários, incluindo Ely Lerner, um desenvolvedor de sistemas de informática da Amgen Inc.; Elias Sayfi, um engenheiro de software sênior do Laboratório de Propulsão a Jato; e Stanley Lam, um estudante de administração ainda não formado da universidade.

Em 2007, eles organizaram uma competição chamada "Código por uma Causa", na qual 25 estudantes divididos em cinco equipes participaram de um fim de semana de intenso desenvolvimento de códigos de computador. O evento atraiu assistência de executivos do Google, Amgen e do laboratório de propulsão. Neste ano, em outubro, a competição expandiu para 50 estudantes em oito equipes, com mentores do Google, Amgen e do laboratório de propulsão, assim como juízes da Lockheed Martin e Amgen e palavras encorajadoras de um executivo da Microsoft.

A competição foi vencida pelo Leitor de Código de Barras, o programa para ajudar deficientes visuais a lerem informação nos itens do mercado. O segundo lugar foi para o Controle da Mente, que permite que pessoas com paralisia guiem um mouse de computador por impulsos neurais. Todos os códigos de programa, escritos em sessões de 12 horas em um único fim de semana, representam avanços, mas também deixam espaço para maior desenvolvimento.

A equipe do Leitor de Código de Barras não usou um celular, mas sim um simulador da Motorola, segundo Michael Crowley, um professor associado de engenharia que foi mentor da equipe.

James Han, fundador da ProsForPros, um firma de hospedagem de Internet e consultoria para pequenas empresas, foi mentor da equipe do Controle da Mente. "Nós conseguimos otimizar códigos abertos para controle de mouse e ligá-los ao atuador neural nas primeiras 12 horas", disse Han. "Na segunda sessão de 12, nós criamos a interface do usuário. Eu acredito que a implantação do programa está atualmente em desenvolvimento com dispositivos semelhantes."

Os diretores do Project:Possibility planejam projetos mais ambiciosos. Primeiro, haverá uma competição em fevereiro com equipes de estudantes de ciência da computação na Universidade da Califórnia, em Los Angeles, na esperança de multiplicar o número de programas para ajudar os deficientes físicos. O projeto também planeja criar um site mundial de código-fonte aberto no qual deficientes físicos e desenvolvedores de software poderão colaborar em novas idéias e fazer acréscimos aos programas existentes.

"Imagine um tipo de rede social, tipo Facebook ou My Space, especializada, na qual os usuários estariam envolvidos no desenvolvimento das ferramentas que querem e precisam", disse Stephen A. Lee, um desenvolvedor de software britânico que opera o Fullmeasure.co.UK e é diretor do Project:Possibility. "Os estudantes conversariam com os usuários e trabalhariam em projetos que ao mesmo tempo atendem as necessidades e são empolgantes."

Ele estimou que "uma comunidade online ativa poderá levar seis ou mais meses para organizar, já que é preciso vencer a inércia e a timidez". Também haverá custos para criar essa comunidade online, ele disse, "para hospedagem do site, custos da tecnologia associada e mão-de-obra de manutenção".

Até o momento, a Project:Possibility opera sem receita e sem pagamento para os participantes. Seus programas pertencem ao projeto sem fins lucrativos e à Universidade do Sul da Califórnia. Sua única fonte de financiamento foi uma doação de US$ 15 mil no início de 2008 pela Mozilla Foundation, uma organização que promove o conceito da Internet como recurso público aberto a todos.

A Project:Possibility também não pretende ser um empreendimento comercial, disse Leung. "Nós não planejamos ganhar receita por meio da disseminação de nossos programas. De fato, nós planejamos ser completamente de código-fonte aberto - nossos programas podem ser baixados, modificados e usados por qualquer um sem custom - na esperança de que programas semelhantes possam se disseminar por outras universidades e ao redor do mundo com ou sem o nosso envolvimento."

Mas em uma reunião do projeto no início deste mês, os diretores decidiram estabelecer uma posição remunerada. "Nós estamos procurando crescer e isso exigirá que as pessoas dediquem ainda mais do seu tempo ao projeto", disse Leung. Então será necessário "compensar nossas posições centrais e algum dia, talvez, contratar com uma equipe em tempo integral".

Leung atualmente mora e trabalha em Pequim. "Eu sou um sino-americano que cresceu no Norte da Califórnia e nunca falou chinês", ele disse. "Então estou aprendendo chinês e trabalhando aqui, mas mantendo contato online com o Project:Possibility."

Para pagar pelos funcionários, o projeto continuará dependendo de doações de empresas e grupos de caridade. A certa altura, ele espera estabelecer esforços regulares de arrecadação de fundos para suas operações sem fins lucrativos.

"O que é ótimo é que empresas como Google e Mozilla apóiam nossos projetos", disse Leung. As empresas ganham obtendo idéias sobre avanços tecnológicos e vendo formas de adaptá-los a produtos cotidianos. Um programa do Project:Possibility, por exemplo, chamado Community Captioner, integra legendas ao YouTube "para que deficientes auditivos possam ter som com seus vídeos".

Tradução: George El Khouri Andolfato

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