Em terras muçulmanas, brasileiros se apegam a pequenas coisas para manter o espírito de Natal

Fernando Moura Especial para o UOL Notícias Em Abu Dhabi (Emirados Árabes)

A paulistana Rita Fonseca, empregada numa loja em um shopping de Abu Dhabi, nos Emirados Árabes, procurou uma igreja cristã em meio a cerca de 8.000 mesquitas para rezar um pouco e tentar entrar no chamado "espírito de Natal" em uma terra onde não se comemora o nascimento de Jesus Cristo.

Na capital política dos Emirados Árabes, onde atualmente milhares de brasileiros trabalham e vivem, são raros os templos religiosos não-muçulmanos, mas com boa vontade se encontram algumas igrejas ortodoxas, evangélicas e uma católica. "Fui várias vezes lá, e quero voltar no dia 24", diz Rita. "Quero agradecer a Deus pela vida que levo aqui e pela oportunidade que estou tendo. O Natal será diferente este ano, mas o dinheiro que ganho é bom e isso ajuda. Afinal, no Brasil as coisas estão difíceis".

O Natal é uma festividade que passa despercebida em terras árabes e os imigrantes sofrem com a diferença cultural. A reportagem do UOL encontrou alguns brasileiros que não vão comer peru em família na noite de 24 de dezembro e ainda provavelmente irão trabalhar, como se fosse um dia normal.
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    Eduardo Teixeira (e) e Luís Morais devem trabalhar no Natal

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    Luana vai dançar, como faz todas as noites para ganhar a vida

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    Rita procurou uma igreja cristã para "entrar no clima natalino"

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    Árvore e enfeites de Natal são vistos em frente a uma igreja



Abu Dhabi apresenta nesta época do ano características diferentes a maioria das metrópoles do mundo. Não há árvores de Natal. As flores, luzes e o Papai Noel não aparecem em janelas e chaminés, não há presépios. Só nos hotéis 5 estrelas da cidade ou nas residências dos ocidentais que vivem lá é possível encontrar as típicas cores e luzes desta época.

"Ainda não sei onde vou estar na noite de Natal, já ouvi dizer que vamos trabalhar", diz o operador de câmeras Luís Morais. "Dependendo do local do jogo que iremos transmitir, poderemos passar a meia-noite dentro de uma van em uma estrada em algum lugar do deserto", comenta com um sorriso nos lábios. Morais trabalha para uma empresa portuguesa, contratada pelos árabes para fazer transmissões de futebol do campeonato local. Está no país desde setembro.

Nilson Matheus e Luana da Silva Caetano também vão trabalhar na noite de Natal. Ele é empregado de balcão em um restaurante de Abu Dhabi e sorriu surpreso quando perguntamos onde passaria a véspera de Natal. "Cara, trabalhando! Por aqui não há Natal, nunca vi."

Luana vai dançar. Dançar num restaurante libanês como faz todas as noites para ganhar a vida. "Será igual a todos os dias, meu show começa às 23:40 e passarei a meia-noite a dançar. Vamos ver como será."

Esses brasileiros confessam sentir-se estranhos frente à diferença, mas estão tranqüilos com a nova experiência de vida. Luís Morais, o mais animado deles com a nova vida, atreve-se a confessar um sonho: "Se não houver trabalho na noite de 24 (pois alguns falam que será suspenso o campeonato) talvez vá passar a noite no deserto, para no futuro contar aos netos. Seria lindo e diferente."

Luana conta que antes de seu show irá telefonar à família, que vive em Brasília, para dar um beijo antes da meia-noite e que depois tentará ligar outra vez. Os outros também confessam que não irão conseguir ficar indiferente à data, apesar de estarem em um país muçulmano. "Vou ligar para casa também", diz Morais. "Mas é muito difícil falar por telefone com o Brasil, espero que a Internet não esteja sobrecarregada nesse dia."

O carioca Eduardo Teixeira, que também trabalha como operador de câmera nas transmissões do campeonato de futebol dos Emirados, ainda torce para conseguir passar o Natal com a família em um lugar no meio do caminho. Sua mulher e filhos estão em Paris, onde o casal tem uma casa. "Farei tudo para conseguir ir à França. Queria que eles viessem para cá, mas está difícil conseguir os vistos."

"Sinceramente eu falo que não sou das pessoas que dá muita importância ao Natal, visto que nos nossos tempos o verdadeiro espírito do Natal já não se comemora, passou a ser mais uma data consumista do que outra coisa", diz Luís Morais. "Até mesmo os árabes já estão se rendendo a esse consumismo. Estive no centro antigo de Dubai dias desses e vi diversas lojas vendendo árvores e enfeites de Natal", conta ele.

De fato, Dubai, o Emirado mais conhecido e com maior número de ocidentais, tem mais acesso a este tipo de consumo. Mas em Abu Dhabi a situação é diferente. Nilson Matheus conta que só arranjou uma árvore pequena numa loja chinesa. "É mesmo muito pequena. Eles vendiam enfeites, papais noéis, mas não menino Jesus ou José e Maria. Presépios não vi em canto nenhum", disse.

Nenhum dos brasileiros entrevistados pelo UOL está pensando em ter uma ceia de Natal porque provavelmente estarão trabalhando. Mas o mais sonhador deles, Luiz Morais, comentou que se estiver em casa "poderá fazer um Peru e talvez peixe (para substituir o bacalhau) e alguns doces". "Já seria um bom Natal", disse.

Com Peru improvisado, árvore chinesa e Papai Noel de saguão de hotel 5 estrelas, esses brasileiros cristãos terão um 25 de dezembro diferente. E mesmo se cercando de referências materiais para lembrar a data, ainda faltará algo para que tenham o verdadeiro espírito do Natal em terras árabes. "Sinto falta dos meus amigos de verdade, da minha família", diz Luana. "É como se eu fosse voltar a viver de verdade quando voltar para o Brasil, porque afinal lá é a minha casa", diz a dançarina.

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